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Postado em 29 May 2005 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

Se tem uma coisa que eu realmente odeio nesse planeta, além de tomates, é gente burra. Se existe uma coisa pior do que gente burra, é gente burra que pensa ser esperta, malandra, melhor que os outros. E, finalmente, a pior coisa do mundo – sem margem de competição – é aquele grupinho de gente burra que pensa ser esperta, e que se ajunta embaixo de uma ideologia mais idiota do que todos eles juntos, o que apenas comprova suas burrices iniciais.

E qual o melhor lugar pra encontrar gente dessa estirpe?

Internet, óbvio. Mais especificamente, o Orkut. <sarcasmo>O fato de que a grande maioria dos usuários são brasileiros é mera coincidência, claro</sarcasmo>.

Vocês que dispõe de acesso ao sistema de rede de relacionamentos já devem ter esbarrado com muitas comunidades que têm como tema principal alguma faceta da imbecilidade humana. Até eu, que parei de acessar aquele negócio há muito tempo, perdi as contas de quantas vezes vi comunidades que me fizeram perguntar a mim mesmo que tipo de ajuda profissional seus criadores necessitam pra viver como uma pessoa comum.

E o tema recorrente dessa espécie de comunidade são é o preconceito gratuito. Graças a essas comunidades, pessoas comuns podem se sentir mais inteligentes apenas por saber que não participariam de uma asneira ideológica desse calibre.

Então. O Fívio me mandou o link de uma comunidade cujos tópicos, segundo ele, me divertiriam por horas. Cliquei no link. Uma olhadela na imagem da comunidade – uma fotografia de Hitler – não deixava dúvidas sobre o tipo de imbecilidade, egocentrismo e agressividade gratuita a que eu seria exposto.

A comunidade se trata de um antro de neo-nazistas – você sabe, aquele pessoal que sofre de um gravíssimo complexo de inferioridade mas, como teve a (in)felicidade de ter pais “brancos”, vê-se apto a mergulhar na ilusão arrogante e superficial de que é realmente melhor do que outras pessoas simplesmente porque suas células pigmentárias são mais preguiçosas do que as de, digamos, um negão moçambiquenho de dois metros de altura.

Os caras não são apenas contra os negros, não – eles também odeiam a miscigenação, e alguns levam sua estupidez aos limites e sugerem que ela deveria ser “banida”. Na visão deles, a mistura de raças é parte de um intrincado plano negro de destruição da raça, arram, “pura”. Acho extremamente estranha essa opinião, porque a miscigenação é culpa de ninguém mais que os próprios brancos.

Mas parece que os neo-nazistas vêem a História de uma forma diferente. Em sua concepção retardada, os negros africanos do século 15 correram lá pra Londres ou Madri ou Lisboa, marchando com cartazes e implorando pra serem levados pras Américas pra trabalhar pelo resto da vida como escravos. Os europeus, uma gente muito boa e civilizada, negaram-se a ser cúmplices desse absurdo. Os negões, não vendo outra saída, resolveram apelar: os protestantes africanos se algemaram e se jogaram dentro das caravelas européias. Chegando no Novo Mundo, não satisfeitos com as putarias a que já eram submetidos, ofereceram suas filhas para serem estupradas pelos seus senhores, e assim promoveram a terrível miscigenação, sua arma secreta contra a raça branca! Ou seja, a escravidão do período colonial americano não foi nada além de uma intrincada trama negra pela destruição da espécie caucasiana. Sim, sim, isso faz bastante sentido.

Após analisar a comunidade, sua proposta, e as mensagens de alguns membros (estas contendo mais erros gramaticais e pontos de exclamação do que seria necessário para preencher dois porta-aviões), conclui que os usuários da tal comunidade abraçam todas as características descritas no primeiro parágrafo deste texto – e que por isso ganhariam de brinde meu desprezo. “Prato cheio“, pensei eu. Juntei-me à comunidade e abri um despretensioso tópico entitulado “Pergunta Simples”, e que trazia, surpreendentemente, uma pergunta simples:


A despeito da simplicidade da questão, ela mostrou-se um verdadeiro desafio pros carinhas – é a conclusão que tirei a partir das respostas que os manés deram, que em nada têm a ver com a pergunta, e que deixam transparecer que os panacas sequer entendem por que odeiam negros tanto assim. Transcrevo aqui o festival de babaquice que seguiu minha pergunta tão elementar.

Renato Aguirre, um racistinha que se define no orkut como hispânico/latino (Contradição? Não, imagina!), arriscou a primeira resposta que desencadearia uma avalanche de estupidez:


E tenho dito! Não há países africanos de primeiro mundo, e LOGICAMENTE isso significa que os habitantes desses países são inferiores! Faz bastante sentido, se você desconsiderar o fato de que não faz sentido nenhum. Após ler esse disparate, voltei ao perfil do cara curioso pra saber em que capital européia ele morava. Mas o orkut parece estar com defeito, pois ao invés de exibir Berlim, Oslo ou Genebra, o sistema lá diz que o cara mora em Santos. Há essa altura do campeonato, Renato já deve ter contatado seus advogados (todos arianos, não tenho dúvidas) para mover uma ação judicial contra essa rede de mentiras que é o orkut. Como eles se atrevem a insinuar que Renato mora num país de terceiro mundo?!

Mas uma coisa pôde ser aproveitada no post. Renato destruiu minhas antigas superstições de que o sucesso de um país está relacionado diretamente com sua economia, política, relações estrangeiras, relevância industrial, produção de bens exportáveis… Não, não. Tudo errado. Segundo o Sr. Aguirre, que deve ter escrito esse post entre a entrega de um Pulitzer e seu horário de almoço na Nasa, um país é bem sucedido em proporção inversa à quantidade de melanina que seus habitantes tem na pele.

Sinto cheiro de mais um Nobel pro Renato.

Certo. Vamos adiante.


O post acima foi deixado ao nosso deleite por um usuário anônimo, que engrossa as fileiras de uma nova qualidade de covardes: aqueles que não têm coragem de assumir as próprias convicções nem mesmo na internet. Segundo o incógnito, a raça branca tem uma “devida história de evolução” – foi só uma expressão de efeito, porque explicação que é bom não tem -, e que ela é considerada a “raça criadora”. Eu não tenho muita certeza sobre o que isso significa – porque “raça criadora” não faz absolutamente sentido nenhum – mas aposto que na cabeça o anônimo, é uma verdade absoluta induvidável.

Vou fazer de conta que “raça criadora” significa a etnia que deu origem a todas as outras, porque acho que foi esse o sentido que o animal tinha em mente quando mandou o post sem identificação. Nesse caso, o moleque está – surpresa!! – errado. Segundo historiadores e arqueólogos, a raça humana no planeta surgiu na África. Na última vez que verifiquei, não há arianos puros por lá.

Em seguida o maluco fala algo sobre “fatos genéticos”, o que me deixou muito curioso. O que diabos é um “fato genético”? Vou pular essa, até porque ele não citou nenhum “fato genético” que comprove as bobagens que ele vomitou no teclado. O que eu posso dizer, entretanto, é que pele branca é uma característica recessiva, ou seja, que se auto-extingue em poucas gerações por ser consequência de genes mais “fracos” – é comprovado que brancos têm uma resistência mais baixa a certas doenças, como câncer de pele. Se evolução prova alguma coisa, é que – ao menos gen
eticamente – os brancos é que são inferiores.

Em seguida, o neo-nazista citou o livro de Hitler, mas não deu nenhuma razão sequer pra coroborar a opinião de que o livro explicaria alguma coisa. O que o cara basicamente escreveu foi “ahn, pretos são bobocas, você é burro porque não admite, e se lesse o livro de um austríaco afetado que perdeu a guerra e se suicidou há quase sessenta anos atrás entenderia. Mas eu não sei do que estou falando e vou ficar por aqui mesmo, omitindo esse post de qualquer opinião inteligente.

Em seguida, outro anônimo dá sua opinião:


O que o cara quis dizer, trocando em miúdos, é que negros são inferiores porque são feios. E eu aqui achando que os caras eram arrogantes e superficiais! De onde será que tirei isso? Espero que os skinheads perdoem minha opinião claramente equivocada.

Infelizmente, a pessoa foi medrosa demais para atrelar seu próprio perfil à mensagem. Podemos apenas imaginar a beleza quase celestial do autor do post.

Então chegou Dirk Zobiak, que é a propósito o único caucasiano de Salvador, pra dar seu apoio intelectual aos racistas:


O post do soteropolitano, entitulado “raça criadoura“, explica que o mundo atual é um fruto da cultura branca. Espero que ele esteja mentindo, porque se isso for verdade tenho vergonha de ser branco. Em seguida ele menciona “valores brancos”, algo que muito me surpreendeu, porque eu estive sendo branco nos últimos vinte anos e nunca fui informado de nenhum valor. Infelizmente o Dirk, assim como todos os outros racistas que deram sua contribuição no tópico, fez a afirmação com valor exclusivamente dogmático – ou seja, ele não pode provar o que fala, mas é assim e pronto.

Depois ele diz que não discutirá superioridade – o que dá margem à pergunta, “o que diabos você está fazendo no meu tópico então?” -, mas que negros viviam guerrilhando entre si. Claro, beligerância é uma característica EXCLUSIVAMENTE negra! Nós, brancos, nos envolver em guerras?! Nããão… que é isso, chefia! Dirk cita novamente os misteriosos “valores e princípios brancos”, e novamente omite-se a nomear um sequer. Eu me daria por satisfeito com ao menos um!

Por último, diz que os negros “culpam os brancos por sua mazelas”. É, mané. Se sua raça tivesse sido arrancada à força da seu país pra trabalhar de graça pra um povinho preguiçoso, num doloroso processo que demorou mais de 200 anos pra chegar ao fim mas cujas consequências ecoam até hoje, talvez você pensasse diferente.

E o tópico continua lá, sem nenhuma resposta válida que explique exatamente por que um branco é melhor que um negro. Vou fazer uma aposta arriscada e supor que, de duas umas: os racistinhas simplesmente não tem motivo pra preconceito e não sabem o que estão falando, ou o dano cerebral que alguns desses coitados os impedem de explicar um ponto coerentemente.

Você decide.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

Um comentário \o/

  1. Elis says:

    Nossa! Eu nunca comento logo… Que milagre…

    Mas o tópico já foi apagado, acho que os dogmas neo-nazistas latinos não admitem questionamento