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Postado em 12 June 2005 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

…E é dia dos namorados, a data que inexoravelmente põe milhões de solteiros Brasil afora numa depressão de 24 horas. Ainda pego o filho da puta que contou pra minha mulé que no País da Putaria comemoramos essa data tão especialmente comercial em junho; agora tenho que comprar presente de dia dos namorados em duas datas.

Esse é um problema da dating scene ou, como dizemos em bom português mas perdendo um pouco do sentido da expressão original, “cena de namoro”. Namoro é um investimento caro que você nunca termina de pagar, com retorno não-dedutível e nenhuma garantia. Isso me lembra aquela velha piada de que a diferença entre o sexo pago e o sexo gratuito é que o gratuito acaba custando mais caro. Não há frase mais próxima da realidade que essa. Entretanto, ter alguém continua sendo 254 vezes melhor que estar sozinho, então é uma negociação proveitosa.

Mesquinharias à parte, dia dos namorados quase sempre – se você não é um solitário masturbador, obviamente – é um dia bacana. Em homenagem à chegada desse dia tão romântico e atendendo ao pedido do DAGOBERTO – que está precisando de um teclado novo já que seu atual deve estar com o Caps Lock quebrado – contarei pra vocês como conheci Becca, a.k.a. “A patroa”, a alemã gótica mais famosa do Brasil.

Sentem-se, sentem-se.

Nossa história se passa em março de 2004, comecinho da primavera aqui no Hemisfério Norte mas ainda frio pra caralho. Neve, carinhosamente chamada de “merda branca” por imigrantes ainda não acostumados com o frio, se acumulava nas ruas e calçadas por aí. Eu havia chegado no Canadá havia poucos meses, e ainda amargava o fim de um noivado tão bem sucedido quanto a viagem inaugural do Titanic. Logo nas primeiras semanas morando aqui, conheci Chris “Monty” Mountenay, um canadense que morava no mesmo condomínio que eu, e viria no futuro a ser o segundo guitarrista da minha finada banda de new metal. O Monty vivia tentando quebrar meu estado depressivo. Este era resultado de diversos fatores, entre eles o fim do tal noivado, a mudança geográfica drástica, o abandono da minha faculdade no Brasil, e o divórcio dos meus pais, e otras cositas más. Veio tudo de uma vez, no fim de 2003.

Após pintar esse desgraçado quadro, é desnecessário dizer que eu não estava exatamente saltitando de felicidade naquela época. Assim, meu novo e único amiguinho gringo vivia me convidando pra festas em sua casa, ou nas casas de outros.

E certa feita, estávamos no apartamento do pai do Chris – no prédio onde atualmente moro -, no aquecimento de uma festinha de fim de semana, esperando uma turma ainda desconhecida chegar. Quer dizer, desconhecida pra mim e meu irmão, pois o Monty conhecia todos os convidados. O Trunks conversava com nosso anfitrião, enquanto eu me divertia na TV com o canal 59, que era um link com a câmera de vigilância do lobby do prédio. Sei lá pra que disponibilizaram a filmagem pras TVs do prédio inteiro, mas é o que fizeram. Sem ter o que fazer até a chegada dos outros convidados e o começo oficial da festinha, fiquei observando o mais real reality show que já assisti numa TV: entra-e-sai de moradores do prédio.

E então a vi pela primeira vez.

Dizem que primeira impressão é a que fica. Tenho a tendência de discordar dessa afirmação pois, se isso fosse verdade, a impressão definitiva que eu teria da Becca seria uma imagem em preto e branco de uma menina mostrando o dedo médio para a câmera. Segundos após sua chegada na portaria do prédio, o resto da molecada apareceu no meu campo de visão. O pessoal estava claramente fazendo uma balbúrdia logo que chegaram, se empurrando, rindo alto e tudo mais, então nesse momento eu soube imediatamente que esses eram o resto dos convidados. A menina que futuramente seria uma personagem frequente nas minhas aventuras descritas neste site interfonou o apartamento, ao que Monty prontamente coçou a bunda e então liberou a porta do saguão.

Segundos mais tarde, estavam todos no apartamento – incluindo a futura patroa, que me viu num canto da sala e prontamente estabeleceu prolongado contato visual que me deixou meio sem graça. Apesar de ser notoriamente tímido, tentei uma aproximação quase imediatamente. Não foi necessário: assim que cumprimentou o anfitrião, ela sentou do meu lado no sofá e se apresentou.

O fato de não ser canadense sempre foi uma ótima maneira de estender uma conversa por aqui. Assim que notou meu sotaque, a gótica perguntou de onde eu era. Foi batata. Bastou dizer que era do Brasil, e subitamente aquilo evoluiu de um papinho furado quebra-gelo pra uma conversa que se estendeu por quase toda a noite.

E foi apenas isso. Peguei o email dela com uma amiga (Katie, aquela mesma que eu acabei pegando num momento de alta concentração etílica em minha corrente sanguínea), e apesar de conversarmos quase frequentemente – eu sempre pensando em assuntos pra puxar e manter as conversas rolando no MSN -, passei semanas sem sequer ouvir falar dela.

Decidi que manter um joguinho de aparências estilo “ahn, minha pulsação pára por dois segundos toda vez que você conecta no MSN e tou falando com você todo dia mesmo na falta de assuntos mas é apenas amizade” era perda de tempo. Já devia estar muito óbvio pra menina que eu tava afim dela. Um dia estávamos conversando no MSN e reuní toda a coragem que eu tinha. Falei, sem cerimônias, que queria vê-la novamente – e ao mesmo tempo tentando deixar claras minhas intenções. Ela perguntou se eu estava afim de visita-la na saída da escola. Respondi “SIM!” em menos de 0.3 segundos, esquecendo-se temporariamente que meu inglês não era ainda o mais confiável, e que eu sequer sabia andar de ônibus pela cidade. A combinação previa 98% de chances de que eu ia acabar descendo na parada errada e não conseguindo voltar pra casa.

Foda-se. Vou aprender na marra.” decidi bravamente.

Peguei o endereço e no dia seguinte saí andando a esmo em direção a uma parada de ônibus. Peguei o primeiro que vi e bati um papo com o motorista. Era o ônibus errado, mas ele me deixaria numa parada onde eu poderia pegar o ônibus certo – e ele nem ia me cobrar pela viagem. Sempre que você dá uma de João sem Braço e convence os caras que não sabe andar de ônibus por aqui, eles te dão uma colher de chá e não cobram passagem.

Em meia hora depois, estava eu no meio da cafeteria da escola da menina, pensando “o que diabos eu estou fazendo aqui? O que vou falar com ela?“, o nervosismo aumentando cada vez mais. Coloquei os fones de ouvido e apanhei um jornal que jazia em cima da mesa, mas de forma alguma aquilo conseguia me distrair.

Então, vi-a na entrada da cafeteria. Ela me viu também, após escanear o local em minha procura. Percebi um sorriso no seu rosto quando ela me encontrou, e então ela veio em minha direção.

A conversa fluiu espantosamente bem. Fiquei muito surpreso porque xavecar é, mesmo na sua língua natal, uma tarefa que exige um certo nível de proficiência – algo que eu jamais tive. Papo vai, papo vem, e eu com vontade de ataca-la com minhas técnicas brasileiríssimas de beijo, mas a gringa não dava uma chance.

Acabei indo pra casa frustrado, porque desperdicei uma boa oportunidade de cravar uma beijoca em sua boca gótica. Mas o futuro me daria mais chances.

Um mês se passou, e eu nunca mais a vi. Em abril, Monty fazia 19 anos. Teríamos outra festinha, e essa seria mais interessante porque ele havia improvisado um palquinho em sua casa pra nossa banda se apresentar. Antes de levar o equipamento pra casa do moleque, entrei no MSN todo esperançoso e perguntei a ela se ir à festa estava em seus planos góticos. Ela falou que queria ir, mas não tinha uma carona. Me despedi porque já estava atrasado e saí de casa tristonho. Monty morava no mesmo condomínio, mas carregar guitarra, amplificador, do
is pedais e um címbalo da bateria era um esforço de qualquer forma.

E lá estávamos nós, passando o som na casa do Monty e tentando descobrir qual das guitarras estava dando um feedback chato do caralho. O pessoal começou a chegar, desejavam feliz aniversário pro moleque e se acomodavam para o “show”. De repente, não mais que de repente, eis que vejo a futura patroa na porta, com um “birthday cookie” (um biscoito com uma velinha de aniversário) pro Monty. Senti meu coração batendo na garganta, comecei a errar acordes, e tive que desviar da baqueta do Bruno.

Uma hora depois, as guitarras descansavam no chão – junto com moleques que tinham exagerado no uísque (esses moleques daqui são tudo bebum) -, e eu tentava flertar com a menina no sofá. Subitamente, ela toma minha carteira do meu bolso e diz que só devolveria se eu tomasse de volta. E isso me deixou muito puto, porque eu tinha cinco dólares lá.

Comecei a persegui-la pela casa, ela se divertindo com a brincadeira, e eu com medo de perder minha grana. Antes que percebêssemos, estávamos na lavanderia da casa do guri, com várias camadas de roupas sujas aos nossos pés. Aproveitei a maciez do solo pra dar uma fenomenal rasteira da menina, técnica resquício dos treinos de kung fu no Brasil. Retomei minha carteira, embora a esse ponto não importasse muito porque nossos rostos estavam a dois centímetros de distância um do outro.

A partir daí, o resto é história.

Ai, ai

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

Um comentário \o/

  1. Murilo says:

    É foda ver como vocês se conheceram e como tudo aconteceu e ver vocês casados agora. 8) Parabéns Izzy!