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Postado em 7 July 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Metallica

Passei o dia ontem na casa de uma amiguinha aqui (lembra o grupo de malucos que conheci no outro dia? Então, estavam todos lá). Entre batatinhas Ruffles e refrigerante sem gás, alguém sugere que a menina jogue um CD no aparelho de som do apartamento. A menina trás St. Anger, para a consternação quase geral da turma inteira. Este CD, para quem não é antenado no mundo musical, foi a mais recente tentativa desesperada do Metallica de arrancar uns tocados dos fãs em que eles cagaram em cima.

Enquanto a sala inteira reclamava sobre a drástica mudança no estilo da banda, com o unânime argumento de que “o som antigo era muito melhor“, percebi que sou um dos poucos que não odiou St. Anger. Não me entendam mal; o Metallica antigo realmente era muito melhor. Clássicos como One, Sad But True e No Leaf Clover (meus favoritos) são simplesmente obras de arte, o melhor que o estilo oferece. Essas são aquelas músicas que você recomenda a uma pessoa que não gosta da banda, justamente por saber que elas provavelmente mudarão a opinião do indivíduo.

Apesar das comparações inevitáveis, eu pessoalmente não acho St. Anger tão horrível assim; eu apenas preferia aquele CD quando era tocado por apenas uma banda, o System of a Down.

Mas então. Minha reclamação com o Metallica não é a qualidade inferior do último CD, ou da imitação descarada do estilo musical de outrem. Minha revolta contra o grupo se dá ao fato de que eles não dão a mínima importância pros seus fãs, e não pensam duas vezes a respeito de irritá-los se existe dinheiro na jogada.

Voltemos ao ano de 1998, ou talvez 1999, seu cu que eu vou ficar lembrando de datas. Eu e qualquer pessoa que tenha mais ou menos a minha idade éramos testemunhas de uma das mais chocantes revoluções que o mundo já sofreu: a troca de arquivos pela internet. Mais especificamente, a troca GRATUITA de arquivos pela internet. Afinal, foi o fator “grátis” que causou o rebuliço.

Napster era o nome. Assim como milhares de outros internautas, meu pai baixou o programa ainda em sua versão beta e começou a trocar mp3 por aí. Na época dos 56kbps, uma única música demorava HORAS pra chegar em nossos HDs – embora eu me conformasse em poder ouvir um preview de trinta segundos das músicas que eu estava baixando. O negócio começou pequeno, mas em breve alcançou popularidade e acordou a galera dos direitos autorais. Companhias de gravação tornaram-se cientes da safadeza perpetrada pelos internautas, e decidiu morder de volta. Começou uma batalha que dura até hoje, e não vai acabar enquanto a internet existir.

Chegamos ao ponto a que eu estou me referindo.

Quem pode se esquecer do famigerado caso Metallica vs Napster? Ou, mais especificamente pra quem lembra dos detalhes, Lars Ulrich vs Fãs do Metallica. O baterista do grupo entrou com uma ação judicial num tribunal californiano contra a rede de transferência de arquivos, e acabou vencendo. O Napster foi obrigado a remover músicas do Metallica de seus servidores.

Eles podem ter ganho a batalha, mas definitivamente não a guerra. Os p2p aprenderam a lição do Napster – ter arquivos que infrijam copyright nos seus servidores não é bom. Em breve surgiu o Gnutella, um p2p que não tinha servidores: os arquivos eram trocados diretamente de usuário pra usuário. E assim as produtoras musicais tomaram no cu novamente.

A lição de história acima não é o ponto. O que me faz perder o respeito em relação ao Metallica é que eles estavam dispostos a provocar milhões de fãs simplesmente porque estariam perdendo alguns trocados com vendas de CD.

Pra quem não conhece o funcionamento da indústria fonográfica e talvez ache que o Napster estava causando MUITO prejuízo ao Metallica, permita-me iluminá-los: Um grupo assina um contrato com a compania, e um “cachê” mínimo é estipulado para a gravação de X álbuns previstos pelo tal contrato. Este cachê, somado ao que a banda recebe para fazer shows, é a fonte PRINCIPAL de lucro para o grupo. O resto da grana que a banda arrecada vem de aparições especiais em eventos (em que eles não estejam tocando), venda de merchandising, e, finalmente, a venda de álbuns.

Corrijam-me se a cifra estiver desatualizada, mas a venda de CDs rende aproximadamente 3% de lucro para a banda. Se um CD custasse 10 reais, a banda que o gravou ganha em torno de TRINTA CENTAVOS por cada venda.

Quem leva o resto do lucro? A loja e as empresas que transportam os CDs levam uma pequena fração do custo final do álbum, e a gravadora leva a maior parte da grana. Não é a toa que esse ramo dá muito dinheiro. No fim das contas, gravadoras se alimentam da fama das bandas que elas contratam.

Enfim.

Por que o Metallica se deu ao trabalho de mover uma ação legal contra um serviço que estava causando, na pior das hipóteses, um prejuízo de 3% no seu lucro final (os CDs que deixariam de ser comprados por causa das mp3 grátis)?

Falta de respeito para com os fãs. Pessoas que baixam mp3 ou gostam muito da banda, ou querem conhecer o trabalho dos caras e possivelmente acabar gostando deles. Ao impedir que esse público ouça suas músicas pela internet, o que a banda está na verdade dizendo nas entrelinhas é “Foda-se se você gosta de nós, a menos que estejamos sendo pagos você não merece nos ouvir”, ou “Quer conhecer nosso som? Compre o CD, ué. E foda-se se você acabar nem gostando no fim das contas, ao menos já ganhamos o nosso. Não damos amostra grátis.”

O que me irrita nessa atitude é que a banda não está realmente sendo lesada. Grupos como o Metallica assinam contratos por MILHARES DE DÓLARES, e fazem shows por alguns outros milhares de dólares. Tenho certeza que os 3% a menos da venda de CDs não os fará ter que vender suas mansões e ir morar embaixo de uma ponte. Isso dá uma visão interessante a respeito de por quão pouco os caras estão dipostos a brigar com seus fãs.

Mas isso foi apenas o primeiro choque. Naquela época eu nem gostava de Metallica mesmo, e decidi baixar as músicas dos caras só por despeito. Resultado: hoje sou um quase fã da banda. Entretanto, por causa desse tipo de atitude gananciosa, jamais tirarei dinheiro da minha carteira pra comprar um CD dos caras.

E isso não é tudo. Em 2003, o Metallica decidiu que o mercado não estava muito bom pro metal convencional – aquele que os rendeu milhões de fãs ao redor do mundo – e bolou uma nova estratégia de marketing. E qual é essa estratégia, amigo?

Mudar o estilo, claro. Como não está vendendo mais, o melhor a fazer é mudar totalmente o estilo que os fãs esperavam de você. Afinal, essa história de tocar por gostar da música é bobagem, né?

St. Anger foi o novo soco na cara dos fãs da banda. Pela segunda vez, a banda deixou claro que está cagando e andando para seu público. Sem cerimônia, os caras jogaram fora o som antigo que os levou a fama simplesmente porque não vendia mais, como se dissessem “ah, vocês gostavam daquele som que fazíamos antes, né? Ah, aquilo não dá mais dinheiro, então paramos. Que tal esse aqui?” e Hetfield puxa uma palheta.

Novamente, não me entendam mal – não estou criticando o som novo que os caras estão fazendo. Eu até gostei de algumas faixas de St. Anger (e quase fui linchado por admitir entre amigos). O que me revolta é o motivo pelo qual a banda fez isso, e o descaso total com as expectativas dos fãs. Isso, aliado ao histórico de mesquinharia da banda, me decepciona demais.

E o pior é que, quando os metaleiros dizem que new metal é modinha, não dá mais pra discordar. N
ão deixa de ser verdade.

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About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)