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Postado em 12 July 2005 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

Fortaleza, março de 1997.
Pátio do Colégio Adventista, no centro da cidade. Hora do recreio.

— Cara, meu irmão chegou dos EUA ontem, e ele trouxe um jogo foda.
— Ah, é? Qual o nome do jogo?
— Porra Israel, o jogo é lançamento e tu é pobre, claro que não adianta eu falar o nome porque tu não conhece. Mas o jogo é foda.
— Hm, como é ele?
— Cara, tu não vai nem acreditar. Você pode peidar nos inimigos.
PODE PEIDAR NOS INIMIGOS??
— Pode. Pode peidar e arrotar, e eles morrem. Porque era tóxico e tal. Assim que você mata eles.
— Porra, mentira do caralho essa tua ein Norman.

(o nome do moleque era Leandro, mas a gente chamava ele de Norman. Nem lembro porquê.)

— Mentira o caralho. Tô te falando cara, o bonequinho do jogo peida e arrota. E tem umas privadas no fim das fases, e você entra nelas e tal.
— Porra, tu tá me iludindo com essa história, Norman. Num existe isso.
— Puta que pariu, moleque invejoso do cacete, claro que existe. Tô te falando, pode peidar, arrotar, entrar em privada, jogar meleca de nariz…
— Meleca de nariz, ôloco, inventou essa agora ein.
— Caralho moleque, tou te falando. Claro que…
— Me empresta o cartucho então, pra eu ver e tal.
— Num fode, ganhei ontem o jogo.

E assim foi. Norman jamais me emprestou o cartucho, e então Boogerman – o “jogo em que você arrota e tal” – permaneceu uma incógnita na minha vida. Embora eu tenha visto resenhas dele em sites e revistas na época e portanto finalmente aceitado sua existência, jamais pude experimentar a emoção de peidar num jogo.

“Porra, tinha o primeiro GTA!”, alguém diria nos comentários se eu não tivesse citado logo. O pessoal da Rockstar, não satisfeitos com toda a destruição e violência gratuita que enfiaram naquele CD, ainda deram ao seu personagem a capacidade de expelir gases, tanto via oral quanto anal. Mas esses peidos e arrotos eram inócuos e não matavam ninguém, qual a graça?

Como eu ia dizendo antes, além de não contar com a solidariedade do dono do jogo, as locadoras que eu frequentava diariamente não tinham uma cópia do título. Ou seja, jamais experimentei a emoção de jogar a parada.

É claro, até agora. A internet mais uma vez vem provando ser a melhor coisa já inventada desde o biscoito recheado de chocolate. Achei a ROM do jogo perdida num canto escuro e úmido de algum site russo de emulação, e então saquei meu gamepad USB, criei a pasta “Boogerman SS”, preparei o programa de screenshots e embarquei em mais uma viagem pelo mundo dos 16 bits.

E se você está lendo esta resenha e conhece meu estilo de resenhar jogos/filmes, já deve ter imaginado como foi a experiência.

Logo ao rodar a ROM, percebi que Norman não havia mentido. O Boogerman, que é aparentemente a última esperança da humanidade, aparece num curto vídeo de apresentação jogando uma meleca verde na tela. As confirmações das lendas não pararam por aí, não:


Percebi embasbacado que realmente há privadas no jogo. Esse foi o primeiro sinal de que Norman não era um mentiroso do caralho conforme as más línguas da escola (eu) espalhavam durante o recreio. Em menos de vinte segundos de jogo, eu já estava completamente estupefato e convencido de que este jogo deveria ser a melhor coisa já concebida pelo intelecto humano. Que mais surpresas esse excelente jogo guardava para mim?

Primeiro, veja que história do caralho:


Um cientista construiu uma máquina para livrar o mundo da poluição, enviando todo o lixo tóxico existente no planeta para a dimensão X-crement, e devo avisar neste momento que esse foi o primeiro de muitos trocadilhos escatológicos. O cientista jamais aparece no jogo, mas sei que ele é provavelmente maluco, visto isso é um pré-requisito nas academias científicas do mundo dos videogames. Se você é um personagem num universo de 16 bits e tiver qualquer coisa menos prejudicial que síndrome de Down, esqueça a carreira científica.

Há no meio do laboratório algum tipo de máquina que é aparentemente movida à base de um troço brilhante que flutua acima de um buraco (estou usando as notações científicas). A animação mostra em seguida um zelador entrando no laboratório para aspirar o pó ou passar Pinho Sol nas privadas ou qualquer outra coisa que zeladores fazem, quando DE REPENTE uma mão emerge do nada e rouba a paradinha que fornecia energia a sua máquina. O zelador corre pro banheiro e…

SURPRESA! É o Boogerman! Isso foi um choque incrível, já que ele era o único personagem que apareceu na apresentação e antes de se transformar em Boogerman já se parecia bastante com ele. Quem mais ele poderia ser?


E aí começa nossa aventura. Se logo de começo Boogerman não me inspirou muita confiança, já que ele deixou o aspirador de pó largado no meio do laboratório e obviamente não esvaziou as cestas de lixo, o que me aguardava na próxima tela era dava menos esperanças ainda. Essa tela de abertura da primeira fase dá o tom que permanece no resto do jogo.


Admirem a obra de arte dos programadores da Interplay (que até onde sei, faliu há anos para nos ensinar que karma é uma realidade)! Por onde começar? Há mais coisas horríveis nesse único screenshot do que eu já vi em toda minha vida de gamer nerd, e olhe que estou dizendo isso com um olho fechado. Sem dúvida você se inclinou mais perto do monitor para averiguar os detalhes do screenshot, e ao fazer isso relembro a você como é maravilhoso não sentir cheiros pela internet.

Mas falando sério, por onde começar? Os artistas que trabalharam em troca de comida no desenvolvimento desse jogo enfiaram tanta nojeira – e dessa vez no sentido literal – no jogo que eu nem sei sobre o que falo primeiro. Boogerman tem três “poderes”: jogar catotas de nariz, arrotar e peidar. Na área superior da tela do jogo, você tem os medidores das habilidades especiais do cara. Um nariz catarrento à esquerda, uma boca arrotante na direita. Há uma meleca verde espalhada em quase todos os milímetros quadrados da fase, então é melhor se acostumar. Bem no centro desse screenshot há uma pilha de lixo (há centenas de outras espalhadas ao longo dos mapas); Boogerman pode se abaixar e cavucar no lixo em busca de itens ou talvez sua dignidade perdida.

Apesar dos três fantásticos poderes diferentes e do fato que você morre se levar apenas dois golpes dos inimigos, Boogerman é um dos jogos mais fáceis que já tive o desprazer de gastar meu tempo jogando. Se você passar a fase inteira correndo sem parar e jogando catotas em qualquer coisa que apareça na sua frente que tenha um sprite animado, vai zerar o jogo em menos tempo que foi gasto pra gravar os sons de peido. Assim sendo, eu quase nunca precisei usar os gases do herói. As catotas serviam.


Acho que os programadores sabiam disso, e perceberam que seria inútil dar mais poderes pra ele. Por isso, Boogerman – A Pick and Flick Adventure é o único jogo que eu conheço que dispõe de um botão que não tem função nenhuma além de, quando ativado, fazer o personagem apontar o dedo pomposamento para os céus, sorrir expondo todos os dentes da frente e dizer “Boooooogerman!” Acho que colocaram essa habilidade aí porque já sabia-se de antemão que apenas pessoas com severos problemas mentais jogariam p
or muito tempo, e era necessário lembra-los de alguma forma qual era o jogo que eles estavam jogando.

Engoli o vômito e comecei a jogar a parada. Antes de mais nada, resolvi testar todos os poderes do personagem. O X o faz se apresentar, jogando o dedo pro alto e falando o próprio nome canastrissimamente. Os outros botões, não lembro quais, jogam meleca, peidos e arrotos na direção dos inimigos. Uma vez que eu já tinha dominado o complicado esquema de comandos, prossegui.

Imediatamente apareceu algum tipo de oponente na minha frente. Resolvi jogar meleca primeiro e fazer perguntas depois. Este “depois” acabou tornando-se um “nunca”, pois quando alvejado pelo projétil melecoso, o inimigo fez a única coisa lógica que alguém faz em situação semelhante: imediatamente desapareceu em uma nuvem de fumaça para nunca mais ser visto novamente. Foi tudo tão rápido que nem deu pra perceber direito o que era o inimigo. Não reclamei, pois enfrentar os inimigos com facilidade significaria jogar a ROM por pouco tempo.

Eu queria poder falar mais sobre esse jogo, mas simplesmente não há mais o que falar. Leia o que eu escrevi acima quatro vezes e você terá entendido o jogo inteiro. Boogerman é decepcionantemente raso e sem graça. Os peidos e arrotos são uma surpresa cômica na primeira vez que você os usa, mas perde a graça rápido – especialmente se você tem mais de sete anos e piadinhas escatológicas não são mais tão divertidas pra você. As fases são vazias e quase sem nenhum elemento interativo. Os inimigos não oferecem nenhum desafio. Se você passar durex no botão direcional direito e colocar um peso de papel em cima do Y (ou B, não lembro qual botão solta catarro) e for dar uma voltinha no shopping, quando voltar pra casa o jogo terá sido zerado quatro vezes.

Não chega a ser um jogo HORROROSO, entretanto; é simplesmente aquele tipo de fita que você alugava no fim de semana por indicação de alguém, e na segunda feira na escola espancava o moleque que o indicou por ter mau gosto e feito você gastar cinco reais num jogo chato.

O trocadilho é sem graça, mas é a pura verdade: Boogerman não fede nem cheira. E pra um jogo que tem nojeira como premissa, acho que isso é a pior das críticas.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

Um comentário \o/

  1. luiz says:

    legal 😀