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Postado em 16 July 2005 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

Cenas dos últimos capítulos

Por um momento pensei em remover dos meus pés aquele atentado às córneas alheias, receoso de que a extravagante combinação de cores fosse também uma ofensa à minha masculinidade. Mas aí me lembrei que se preocupar com cor de sapato é que é coisa de boiolas (igual os cornos dos pais de vocês, não esqueçam), então fiquei com aquela horrorosidade mesmo.

Depois de calçado com o sapato que praticamente berrava “OLHEM PRA MIM OLHEM PRA MIM OLHEM PRA MIM“, fomos ao balcão novamente para descobrir em qual lane jogaríamos o tal boliche. Passei os últimos 15 minutos pensando numa tradução pra lanes, mas não consigo achar uma. Lanes são as, digamos, “pistas” de uns vinte metros onde no final ficam os pinos que você desesperadamente tenta derrubar com as bolas.

Agora que penso melhor, acho que “pista” serve como tradução exata.

A mulezinha ativou a pista 15 e perguntou se queríamos “bumpers“. Eu, em minha humilde posição de cabaço de boliche, nada podia fazer a não ser olhar pros meus companheiros com uma expressão de dúvida impressa na cara. A namorada explicou que os tais “bumpers” são umas borrachas automáticas que sobem do solo e bloqueiam as canaletas laterais, aumentando suas chances de não passar vergonha e derrubar ao menos um pino a cada jogada.

Ah, não fode! Vou na marra mesmo, decidi mentalmente. Aprendi a andar de bicicleta à base de muito constrangimento caindo de cara no chão, não é agora que vou apelar pra rodinhas. “Bumpers is the caralho, thanks. I don’t want that shit.


Apanhei uma bola e me dirigi à pista. Quando eu ia jogar a bola, o Casey segurou meu braço. Achei que ele corrigiria a minha (falta de) técnica, mas isso só aconteceria depois. Ele me falou – como quem tenta explicar a coisa mais óbvia do mundo a uma criança retardada – que antes de começarmos o jogo é necessário configurar o placar. Afinal, eu sou muito burro mesmo. Dito isso, o semi-viado me puxou a um monitorzinho que ficava rente à pista e colocou sua alcunha.

Por que uma alcunha? Porque boa parte da diversão do boliche (especialmente quando há muitas crianças em volta) é colocar no sisteminha algum trocadilho indecente como se fosse seu nome. Quando se faz uma pontuação boa (não que isso estivesse nos meus planos), seu “nome” aparece num telão nas proximidades, para divertimento da pivetada e desespero de suas respectivas mães.


(A propósito, esse foi o placar do segundo jogo)

E assim ficou. Phill McCrackin, ao ser lido com sotaque canadense, soa como “Feel me cracking“, que é um convite a você para sentir as flatulências do cara. O próximo seria eu, e me entitulei Heywood Jablome. o trocadilho aqui é “Hey, would you blow me?“, ou, em bom português, “Ô, quer chupar minha piroca?“. Na falta de uma escolha melhor, a patroa optou por Hairy Nips of Doom, que era uma piada interna entre a galera.

Beleza. Depois de ter registrado nossa imaturidade na tela do placar, começou o jogo em si. Casey tinha alguma intimidade com o “esporte”, então é honesto dizer que ele era (de longe) o melhor bolichista do grupo. Eu vinha logo depois na listinha de nomes, então arremessava depois dele. E que desastre aquilo foi.

Sem a menor idéia de como fazer aquilo, decidi seguir a regra que dita minha vida: fiz de qualquer jeito mesmo. Joguei a bola com a desenvoltura de um gordo dançando balé com um fogão amarrado nas costas.

Nem que eu tivesse jogado de olhos fechados o arremesso teria sido pior. A bola desprendeu-se dos meus dedos e descreveu um curto arco no ar. A gravidade lembrou-se que existia e puxou a esfera ao chão novamente. Até aí o arremesso tinha sido apenas, numa visão otimista, a merda que geralmente é quando o cara tá jogando a boliche pela primeira vez na vida. Eu tinha quase certeza que a bola ia ao menos roçar levemente um dos pinos, talvez até move-lo um pouquinho para que eu pudesse gritar “PORRA, OLÔCO, QUASE EIN, CÊ VIU?!”, mas não tive essa sorte toda. Espíritos dos índios que foram enterrados no solo abaixo da pista empurraram minha bola em direção à canaleta como se fosse um imã, um negócio inacreditável.


A bola emergiu do troço que devolve as bolas, me olhando como que dissesse “porra, mas tu é ruim pra caralho“. Me desafiando, quase.

Cada jogador tem direito de três tentativas cumulativas, ou seja, o número de pinos que você derruba em cada tentativa (zero) é somado ao seu placar final (zero). Assim, peguei a maldita bola novamente e joguei com mais força, para impedir que os espíritos roubassem a bola pra dentro da canaleta novamente. O problema é que devo ter soltado um pouco antes do que eu desejava, então a bola saiu muito sem jeito e entrou QUASE QUE INSTANTANEAMENTE na canaleta da esquerda.

Dei uma olhada muito sem graça em volta, só pra ter uma idéia de quem poderia ter visto o fiasco. Havia umas criancinhas nas pistas dos lados, e felizmente eles estavam mais entretidos com os próprios jogos. Casey escondia o rosto nas mãos e a namorada não sabia se fingia que não viu ou me incentivava. A indecisão dela foi pior do que se ela tivesse apontado e rido.

Peguei a bola pela última vez e mandei ver, já sem esperanças. Eu já não estava mais ligando, pois achava que não poderia piorar. Acreditem SE PUDEREM, piorou.

Eu deveria ter lembrado de jogar a bola um pouco mais baixo, porque o arco que a bola desenhou no ar dessa vez foi muito alto. O inacreditável aconteceu: a bola quicou na minha pista e passou PRA OUTRA DO LADO. Os molequinhos da pista da esquerda, recém-invadida pela bola fora de controle, começaram a gritar. Fingi que não era comigo.

Mas o melhor foi a ironia. Acontece que os tais guris estavam usando bumpers; a bola bateu num, bateu no outro, bateu no primeiro de novo e derrubou não um nem dois nem três, mas QUATRO pinos. Ainda bem que não foi um strike, senão ninguém ia acreditar.

Mas o constrangimento não estava acabado. Sobrou ter que ir até a molecada pra pedir a bola de volta. O garoto cuja jogada foi interrompida pela minha bola estava felizíssimo, já que quatro pinos foi mais do que ele derrubou na vida inteira. Já os seus coleguinhas não estavam tão felizes e exigiam uma CPI pra averiguar o caso.

As rodadas seguintes não foram muito diferentes. Com exceção da sensacional mudança de pistas, o resto foi essencialmente o que acontece num jogo ruim: a minha bola evitava os pinos como se eles tivesse AIDS, e às vezes tive a impressão que eu não derrubaria um deles nem que a bola tivesse o triplo do tamanho e fosse teleguiada. Mesmo quando minha bola alcançava as proximidades ou até esbarrava num dos pinos, nada acontecia. Estou quase convencido de que os pinos que eu tentava derrubar estavam colados no piso de madeira com superbonder.

Acabei perdendo, como podia ser facilmente previsto, e pondo um fim ao círculo de vergonha e sonhos destruídos. Meus dois competidores venceram por uma diferença de aproximadamente 400 pra 1, se eu arredondar meus resultados pra cima. Seria redundância dizer que, de todas as coisas que já tentei na vida, boliche foi a em que fracassei mais humilhantemente. Mas o dia não foi uma perda de tempo completa, entretanto.


Tá vendo essa garota? Ela estava no meio quando resolvi tirar uma foto do lugar, pra poder ilustrar o post. Acontece que a
coitada se assustou com o flash da câmera, e virou-se para mim imediatamente. Nesse momento as mãos dela esqueceram de segurar a bola. E quem pagou o pato foi o pé direito dela, que estava entre a bola e o chão. Os pais dela estavam de costas, e não entenderam o motivo que levou a garota a voluntariamente soltar a bola em cima do pé.

É, ao menos não me fodi sozinho.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

Um comentário \o/

  1. Camilo says:

    KKKKKKKKKK
    sem mais