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Postado em 8 August 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Quase esqueço de continuar o post sobre o trabalho. Essa correria entre a impressora e a tábua de passar está consumindo todo o meu tempo livre.

Onde eu parei mesmo? Ah, sim. Na sexta feira retrasada, primeiro dia de trabalho, acabei chegando no lugar uma hora adiantado. Culpa da placa mãe do meu PC, que desde o mês passado vem apresentando problemas de junta – tenho que juntar tudo e jogar fora.

Já havia alguns outros picolezeiros no lugar, preparando suas bicicletas para a labuta. Sendo eu o newbie sem moral, teria que esperar o “treinamento” (que seria administrado por Sean – pronuncia-se “Xôn” -, um dos chefes).

Sentei-me no chão do estacionamento das bicicletinhas, enquando assistia os meus colegas de trabalho desaparecer um a um ao dobrarem a esquina. “Treinamento”? Como assim, “treinamento?” Tudo que vou fazer é andar de bicicleta (que na verdade é um triciclo, o que diminui ainda mais o desafio) e fazer continhas aritméticas simples pra descobrir o troco do freguês. Isso não deveria ser extremamente simples?

Era o que eu achava. Assim como na Matrix, a realidade não é o que parece e o Morpheus é careca.


Essa bicicleta acima se parece muito com o meu instrumento de trabalho. A diferença é que a mulé da foto tem bastante sorte, pois ela tem um guarda-sol acoplado à bicicreta dela. Além disso, esse cabelo dela me parece ser capaz de suportar tiros de rifles de precisão, então ela não deve se preocupar muito com quedas.

Após uns dez minutos de espera, o Xôn aparece. O gringo se desculpa pela demora e começa a me passar o básico da profissão.

“Jamais deixe uma crianças subir na bicicreta. No verão passado, um dos vendedores deixou uma menina dar uma voltinha nela, e a garota acabou descendo uma ladeira, virando a bicicleta e enfiando a cara no asfalto. Perdemos quase 50% da carga da bicicleta naquele dia.”

“Se você for assaltado – nunca aconteceu, mas gostamos de deixar todos preparados -, não entregue o dinheiro. Se necessário, grite, ou até lute se você for capaz, mas em hipótese nenhuma entregue a grana. Com sorte alguém virá ao seu socorro e o ladrão fugirá”

(Precisa dizer que os caras não tão acostumados com esse tipo de situação?)

“Tente sempre beber água em intervalos regulares, não queremos que você desmaie e seja atropelado por um caminhão de lixo quando estiver lá fora”

E ele deu mais umas dicas, mas eu tava ocupado anotando tudo mentalmente e pensando como escreveria o post. Por causa disso, quando ele finalmente me desejou boa sorte e saiu, eu fiquei com aquela sensação de um aluno vagabundo quando percebe que há uma prova bimestral em cima da sua mesa e ele não estudou nada.

Agora já era, pensei. O chefe me equipou com uma bolsinha pra guardar o troco, um rudimentar sistema de GPS (um mapinha recém-saído de uma impressora matricial). Montei na bicicleta e zarpei rumo ao desconhecido.

Sabe, na faculdade eu havia ouvido falar dum negócio chamado “gravidade”, mas você não entende o que isso realmente significa até o momento em que tem que empurrar uma bicicleta de picolés ladeira acima. Na moral, em um determinado momento passei uns trinta segundos lutando contra a bicicleta, tentando empurrá-la pela rua íngreme. Eu colocava toda minha força naquela porra, e o negócio não apenas não ia pra cima, como deslizava lentamente ladeira abaixo, ignorando todo o meu esforço.

Mas eventualmente eu superei a subida, e o resto foi tranquilo. Havia mais algumas ladeiras à frente, mas nada que uma pedalada violenta não resolvesse. Em alguns locais, era possível até dar uma volta na ladeira e chegar ao outro lado sem precisar subi-la.

Com a exceção dessas questões meramente geográficas, o resto do trabalho é muito moleza. Ser um picolezeiro consiste simplesmente em passear de bicicleta em áreas de alta concentração de gurizada, e tocar os sininhos da bike o mais alto possível. É batata. De longe, ouço os berros desesperados da molecada (que ás vezes estão em outra rua), e então vejo aquela turba correndo em minha direção.

É de dar medo, até.

Pior é quando tem uns garotinhos mais animados que tentam ENTRAR no refrigerador da bicicleta. Outro dia desses um pivete se pendurou no refrigerador e começou a escalar em direção à entrada do negócio, ignorando meus protestos. A vontade de tira-lo de lá de cima aos murros foi quase irresistível.

Lembro que no primeiro dia, já havia passado três hors e eu não tinha vendido nenhum sorvetinho sequer. Tava puto, quando avistei duas menininhas sentadas no jardim diante uma caixa de papelão. Minha visão não é das melhores, mas eu pensei ter visto copos e uma jarra em cima da caixa.

Passei pelas meninas tocando os sininhos, e uma delas se levantou de supetão e correu em minha direção. Notei na mão dela algo que poderia ser uma cédula, então me animei. Seria minha primeira venda!

Porra nenhuma.


Só não rasguei de raiva porque achei que seria uma boa escanear e pôr no blog. Taí.

Vender picolés é, em muitas formas diferentes, como atravessar o deserto. Você anda por horas debaixo de um sol escaldante sem ver uma alma viva, e antes que perceba tem que racionar sua água. Antes do meu primeiro dia de trabalho, o Joe falou “traga água”. Inocentemente, eu trouxe UMA garrafinha de água mineral. Meia hora depois de começar o trabalho, a garrafinha já estava vazia, e eu desesperado.

Em uma ocasião me chega um molequinho todo seboso e, sem mais nem menos, põe um sapato em cima do refrigerador da bicicleta.

“Tu me dá quanto por esse sapato?”

Olhei-o meio de soslaio, dei um tapão no sapato que o arremessou ao meio fio e montei na bicicleta. Eu tava puto, pois achei que ele ia comprar sorvete e não oferecer escambo.

“Não, cara. Olha só, é Nike. Sério. Me dá um sorvete.”

Olhei o moleque de alto a baixo. O sapato não caberia no meu pé. Mandei outro tapa e segui adiante.

Esse não foi a única oferta estranha. Outro dia uma menina perguntou se podia cantar em troca da minha mercadoria.

Quem diria que canadenses seriam tão desesperados por sorvete?

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)