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Postado em 10 September 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários


Primeiro foi apenas um comentário isolado. Depois, dois. Três. Quatro. Dois emails. Três emails. Pedidos no MSN. Ameaças de morte, seguidas de pedidos de desculpas, e mais ameaças de morte poucos segundos depois, sugerindo que alguém aí esqueceu de tomar seus medicamentos. Nunca vi essa reação de vocês.

Aparentemente esse tal Jogos Mortais é o melhor filme do universo, porque jamais recebi tantos pedidos pra resenhar uma película antes. Nem mesmo Mario Bros, filme horrível estrelando o encanador italiando mais amado dos videogames, recebeu tantas requisições de uma resenha. A bem da verdade, nunca recebeu nenhuma. Mas eu mantenho as esperanças.

Enfim. Como o desejo de vocês é ordem aqui agora, não tive escolha a não ser largar minha coleção de selos comemorativos da Guerra Civil Americana e fui procurar o filme por aí.

Fui à Blockbuster, mas todas as dez cópias do filme estavam alugadas. Isso enfatizou mais ainda o fato de que esse filme deveria ser a melhor coisa já inventada após a torradeira elétrica, e que eu não seria um ser humano completo e produtivo enquanto não assistisse essa maravilha. Havia alguns DVDs na outra prateleira, mas eram para comprar. Dei de ombros e voltei pra casa.

Limewire aberto no desktop. “Saw”. Mil resultados, nenhum baixável. “Jogos Mortais”. Menos resultados ainda, e apenas um download à incrível velocidade de 1.4 kbps. Malditos usuários de DSL 256kbps aí do Brasil, esse povo atrapalha a vida de todos.

A busca “Quero ver Saw, porra” por algum motivo inexplicável só exibiu um resultado, que por sinal não era o filme desejado, e sim um vídeo pornô de um anão com um cavalo (!). Perdi a paciência.

Voltei à Blockbuster e comprei a porra do DVD. Só por causa de vocês.


De nada.

Voltei pra casa com essa adição à minha coleção de DVDs empoeirados. Preparei uma rodada de pipocas, obviamente sem tampa, e peguei um lápis e cruzadinhas pra me distrair enquanto as pipocas ficavam prontas. Ahn, caneta, eu quis dizer. Peguei uma caneta. Vermelha e tal.

Tudo pronto, coloquei o DVD (que tem a sugestiva ilustração de uma serra circular) no PS2 e me preparei para absorver toda a incrível maravilha que deveria ser este filme.

Jogos Mortais, ou como nós canadenses aqui chamamos, começa com um maluco acordando numa banheira num quarto escuro. Neste exato momento, a câmera dá um zoom em alguma coisa caindo pelo ralo da banheira que ele acabou de destampar ao acordar. A câmera dá um close de vários segundos no ralo, e podemos ver alguma coisa deslizando pelo buraco. Essa é uma técnica muito utilizada em Hollywood, entitulada “vamos dar um close demorado em algum detalhe essencial na história, porque senão os burrões não entenderão o que acabou de acontecer“. Ainda não sabemos, mas aquilo que escorregou pelo ralo era justamente a chave das correntes que prendem o pé do indivíduo.


Esse é o maluco

O cara levanta completamente assustado e desesperado, assim como qualquer um aqui após ter sido sequestrado por um estranho e acordar numa banheira num local desconhecido e escuro, com uma corrente em volta do pé.

Acontece que o garoto da banheira não estava sozinho. Do outro lado do quarto, há um desconhecido na mesma situação, trancafiado e acorrentado. O estranho tenta acalmar o garoto, e pouco a pouco eles passam a entender o que diabos está acontecendo.


Alguém se machucou

O negócio é o seguinte: há um assassino em série por aí, que… bom, “assassino” não, porque como um dos protagonistas – o Doutor Alguma Coisa da Silva, interpretado por Cary Elwes – explica idiotamente, “ele nunca matou ninguém, na verdade“. Ele continua explicando que o modus operandi do “assassino” é colocar suas vítimas em situações complicadíssimas que, se não levadas com malemolência e sagacidade, resultarão na morte do infeliz. Pelo que entendi, eles tentam dizer que do ponto de vista legal o “assassino” não é um assassino de verdade.

Logo de cara eu pensei “mas que marca de querosene o roteirista desse filme bebeu ao escrever essa merda?” A idéia é mostrar que o Jigsaw – apelido dado ao assasino – jamais matou ninguém; que na verdade suas vítimas é que se foderam. Acho que eles desconhecem a definição de assassinato:

In law, murder is the crime of a human being causing the death of another human being, without lawful excuse, and with intent to kill or with an intent to cause grievous bodily harm.

Lawful excuse seria a) auto-defesa, b) execução da sentença de morte de um prisioneiro de acordo com as leis ou c) ou aborto em países em que é legalizado, o que obviamente não é o caso no filme.

Questões legais à parte, a dupla começa a entender o que está acontecendo: o infame Jigsaw não gosta muito deles, e os colocou num banheiro de algum lugar não-identificável. A missão de um dos personagens é matar o outro.

O filme mostra então as vítimas anteriores do Jigsaw. O primeiro foi um gordão suicida, possivelmente gótico, trancafiado em uma lugar repleto de razor wire. Razor wire é mais ou menos como o irmão mais velho do arame farpado: no lugar de farpas, há lâminas afiadíssimas. Então, o gordão deveria atravessar o arame e se mandar, porque a porta do lugar seria trancada pra sempre em poucas horas, e ele morreria de fome ali mesmo. O que, a julgar pela circuferência do cara, demoraria pelo menos uns trinta anos. Previsivelmente, o gordo acaba todo fatiado.

Na próxima vítima, Jigsaw utilizou toda a sua criatividade. O maluco acorda num quarto escuro, com um cofre bem no centro e milhares de combinações numéricas escritas nas paredes. Segundo a fita cassete – que Jigsaw gentilmente fornece a cada uma vítima, só pra não dizerem que ele é totalmente mau -, há um veneno correndo nas veias do infeliz. O antítodo está dentro do cofre. A combinação do cofre é um dos quarenta milhões de números nas paredes. Sendo a sala totalmente escura, a única coisa que o coitado pode usar para enxergar é uma vela. Ah, já contei que ele estava totalmente bezuntado numa substância inflamável, que o transformaria em churrasquinho caso ele vacilasse com a vela?

Como se ele não estivesse fodido o bastante, Jigsaw ainda espalhou cacos de vidro no chão inteiro, só pra sacanear de vez. Vai se foder, ein.

A terceira vítima, uma mulé altas gata diga-se de passagem, foi a única que conseguiu escapar. Com uma armadilha de urso presa à cabeça e pronta pra separar suas arcadas dentárias para sempre, ela deveria abrir a barriga de um infeliz à base de bisturizada pra de lá tirar a chave e se livrar de um destino miserável. Como já falei, essa aí escapou.

E por que infernos esse desgraçado comete esses terríveis atos? Simples, porque ele é um moralista que tá cansado de ver gente acabando as próprias vidas, então ele decidiu facilitar o trabalho dos outros. Porque ele, na verdade, é apenas um cara prestativo.

O filme é razoável. Saw foi escrito, filmado e editado em apenas 18 dias, e isso é bastante óbvio na falta de qualidade da edição. Um “efeito” muito usado no filme é acelerar a reprodução da cena enquanto a câmera rodopia em volta do cenário, o que me sugere que os produtores que autorizaram isso devem ter oito anos de idade. Outro detalhe que comprova a rapidez em que o filme foi escrito e filmad
o são seus 5783 erros na trama, o que acredito ser um recorde mundial.

Não vou me estender em todos eles, mas vale a pena explicar o mais notável. Conforme todos vocês já devem saber (e se não sabiam, saberão agora), o corpo ensangüentado era na verdade o próprio Jigsaw. Em um dado momento no filme, um dos personagens presos no banheiro toma um puta choque através da corrente em que está preto, gentileza especial de seu anfitrião assassino. Até aí tudo beleza, porque não sabemos que o assassino está ali, deitado perto deles e totalmente imóvel.

Acontece que no fim do filme, Jigsaw se levanta, dá aquela surpresa na gente, e manda ver outro choque no pobre Adam (que a propósito é o roteirista do filme). E a dúvida apareceu instantaneamente: DE ONDE DIABOS ELE TIROU O CONTROLINHO PRA DAR CHOQUE EM MALANDRO? No começo do filme, ele está caído no chão com um revolver em uma mão e um gravador em outra. Um personagem pega o gravador, outro pega a arma, e temos então um corpo imóvel caído no chão DANDO CHOQUES NOS OUTROS. Acontece que suas mãos deveriam estar vazias, e ele não poderia simplesmente meter a mão no bolso e pegar o controle.

Outra incoerência é o próprio Jigsaw. Segundo o filme nos explica, o indivíduo é na verdade um ancião com um tumor cerebral em estado terminal. Apesar de ser um velho moribundo, Jigsaw não vê nenhuma dificuldade em invadir casas, sequestrar pessoas, fabricar complexos artefatos assassinos e ainda por cima voltar toda noite pro hospital sem que ninguém perceba sua ausência. No mundo real, pessoas na situação dele precisam de ajuda até pra ir ao banheiro, que dirá então pra dar lições de vida promovendo matanças sanguinárias.


Cary Elwes. A sua interpretação nesse filme é tão singular, que só posso formular teorias para explicá-la. Minha favorita é de que o diretor de Saw apontou uma AK-47 na cabeça do cachorrinho de estimação do ator e disse que, se ele ao menos FINGISSE que sabia atuar, a última coisa que passaria pela cabeça do Rex seria chumbo quente.

E é isso. Saw parece uma foda apressada: a idéia é boa, mas foi mal executada e acabou decepcionando.

Saw II vem aí, vamos esperar que ao menos gastem um pouco mais de um mês para finalizá-lo.

Agora deixa eu correr na Blockbuster que talvez aceitem o filme de volta.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)