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Postado em 12 September 2005 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

No dia 23 de novembro de 2003, às vésperas do meu embarque rumo ao Canadá, escrevi um post no finado HBD-Weblogger a respeito das minhas expectativas sobre o novo país. A idéia, dada pelo Yuri, era deixar passar um tempinho após a mudança e a adaptação, e então verificar quais das minhas previsões estavam corretas e quais eram apenas reflexos da minha imensa burrice.

Acontece que, por motivos diversos, abandonei aquela favela virtual que é o Weblogger e então aquele post ficou lá, apodrecendo nos servidores do pior serviço gratuito jamais oferecido na internet brasileira, ou talvez até mundial.

Nossa, como o Weblogger é ruim. Se houvesse um esgoto na rede mundial de computadores, o Weblogger teria que melhorar muito para sê-lo. Algumas coisas são uma porcaria ofensiva, mas deixamos passar porque “é grátis”. Não é o caso com o Weblogger; o negócio é tão satanicamente ruim, que nem que eles me pagassem seria possível relevar. O serviço oferecido pelo Weblogger é grátis na mesma proporção em que uma picada de escorpião é.

Não quero causar aos usuários daquela desgraça mais vergonha (estar associado com o serviço já custa-lhes a dignidade), portanto permitam-me resumir minha opinião:

O Weblogger é uma merda. O serviço, a empresa por trás dele e seus usuários são o tipo de coisa que me dá vergonha de ser brasileiro. Eu não voltaria a utilizá-lo nem sendo ameaçado à mão armada, e a julgar pelo fato de que eles ainda têm usuários, imagino que essa é a nova estratégia de marketing. Os culpados pelo Holocausto foram julgados em Nuremberg, mas só haverá justiça nesse mundo quando enfiarem tudo e todos relacionados ao Weblogger num foguete e em seguida dispará-lo em direção ao Sol.

Ah, sim, o post.

Outro dia aí, sentado à sombra de uma maple tree (matando hora no trabalho) e revirando os documentos o Palm, achei aquele texto.

“O Yuri outro dia me deu uma idéia do caralho: postar minhas considerações sobre o meu futuro lar e, depois de algum tempo, analisar a opinião que eu tinha antes de ir pra lá.

Uma idéia foda, diga-se de passagem. Uma das coisas mais legais de ter um blog é justamente isso – arquivar idéias. Vamos ver se o futuro me contradirá.

Pelo que já apurei em diálogos pela internet, os canadenses são xenófobos. Muito xenófobos. Se vocês não se lembram, fui escorraçado de todos os canais canadenses em que tentei estabelecer contato. Mas me ocorreu que talvez apenas os nerds canadenses de IRC fossem tão anti-sociais. Morram todos nerds canadeneses virgens e anti-sociais.


Ah, é? Espera só você chegar aqui, Quide!

Cala a boca, porra.
Além da área pessoal, também tem a questão financeira. Meu plano é atingir a independência o mais cedo possível. Um canadense (o único que não era nerd xenófobo e virgem) me disse que emprego não é difícil de se arranjar lá. E mesmo o maior dos palermas, sem nenhuma educação ou sagacidade, consegue fazer dois mil dolares por mês, fácil, fácil. Assim que eu quero.

E o clima? Sou um cearense e moro em São Luís do Maranhão. Meu corpo vai se rachar em um choque térmico quando chegar lá.

Voltando à questão monetária, creio que poderei realizar alguns pequenos sonhos que a economia brasileira impede: ter um mp3 player, um Playstation 2, um computador FODA… Só posso esperar.

Será que minhas esperanças são infundadas? Será que me foderei lá da mesma forma que me fodo na terra tupiniquim? Terei meu mp3 player, meu Playstation e meu computador FODA? Porque nunca mais postei tirinhas? Capitu traiu Bentinho?

Apenas uma coisa é certa: os nerds canadenses merecem morrer. Sem perdão.”

Logo de cara, eu já percebi que estava muito errado sobre os canadenses. Sobre os caras serem xenófobos, foi uma má concepção. Eu estava tentando conhecer canadenses no IRC, onde encontrei apenas nerds que, apesar de provavelmente ter personagens de World of Warcraft/Everquest com +500 pontos em atributos variados, não exercitam muito suas habilidades sociais. Na verdade, os canadenses são muito amigáveis.

Talvez, um pouco demais.

Sobre o mundo profissional, eu estava certo e errado. Estava certo na questão da facilidade de arrumar empregos – minha namorada praticamente teve seu emprego empurrado pra cima dela -, mas esqueci de um pequeno detalhe burocrático. Aliás, “esqueci” não, eu nunca soube.


Vista da janela do meu quarto, dezembro

Quando meu pai foi convidado a trabalhar aqui, sabíamos que teríamos status legal no país. O que eu não sabia é que processos de legalização demoram uma VIDA pra sair. Então, até sair o greencard (previsto para o começo do ano que vem), não posso tirar um número de previdência social, e consequentemente não posso trabalhar. A não ser, evidentemente, “por baixo dos panos”.

Sobre o clima, isso aí realmente foi foda. Pra quem não sabe, a temperatura no norte de Ontário chega a descer a não menos que -40 graus Celsius. Quando isso acontece, ninguém sai de casa. Isso não é uma hipérbole, ninguém sai de casa literalmente. A essa temperatura, o sangue congela dentro das suas artérias, e acontece o fenômeno conhecido como frostbite – partes do seu corpo morrem por falta de oxigenação e simplesmente caem.


Lago Ontário, visto de dentro do Go Train, julho

A respeito dos meus sonhos de consumo, realizei todos que queria. Mp3, já passaram não menos que quatro pela minha mão, e eu já tou querendo outro. Computador foda, eu passei de desejar após o videogame. PC pra mim, só mesmo pra conectar na internet. Meu pai estacionou o Athlon XP de 2.4ghz dele lá na sala porque a fonte queimou, e eu não quero comprar uma nova porque tenho preguiça de tirar meu PC velho do quarto e substituir pelo Athlon.


Da esquerda pra direita: Casey (o amigo semi-viado) a gótica, e Trunks (o irmão), em janeiro

Até mesmo coisas que eu nunca imaginei que ia querer, como palm pilots, já tive também. Se você gosta de gastar dinheiro com bugigangas modernéticas, Brasil não é o país pra você.

Um detalhe que eu não comentei no post daquela época foi a área sentimental. Eu era noivo na ocasião, então não estava me preocupando em arrumar mulé aqui. Aquele noivado foi tão bem sucedido como a viagem inaugural do Titanic, e pouco tempo após chegar aqui, eu me toquei que ia ficar sozinho por um bom tempo. Nunca fui nenhum Don Juan, e – eu imaginava – devia ser ainda mais difícil pegar mulé num país onde você ainda tá aprendendo a língua.

Ledo engano. Brasileirice tá em alta aqui no Norte; eu estava em vantagem, e não em desvantagem. Em menos de quatro meses após o término do noivado, tava de namorada nova. Modelo importado, ainda por cima.


Namorada e cunhada, num acampamento em Parrysound. Eu estava atrás da câmera, como em todas as outras fotos. Dezembro

Mas não vou mentir procês: a adaptação é foda. Sem qualquer dúvida, foi o pior período da minha vida, e qualquer imigrante pode confirmar. Imagina você abandonar todos os seus amigos, seus hábitos, suas faculdades, suas conquistas, pra morar num país que você nunca viu n
a vida. O sistema de aluguel aqui é meio estranho; os donos das casas exigem os pagamentos do primeiro e último meses adiantados. Por causa disso, passamos dois meses morando numa casa sem mobília (os primeiros contra-cheques do meu pai foram só pra pagar aluguel, que por sinal costuma atinge a marca dos quatro dígitos).

(Pior ainda é a experiência de quem vem morar ilegalmente)

Depois que isso passa, você ainda tem que lidar com a terrível sensação de isolamento. Demora um pouco pra se acostumar com a televisão inteiramente em outra língua. Você sai na rua e ouve todo mundo falando em inglês, logo no começo é estranho pra caralho. E pra piorar, eu não conhecia absolutamente ninguém aqui. Não tinha escolha a não ser passar o dia inteiro trancafiado dentro de casa.

E a situação permaneceu a mesma até eu ser apresentado pro Chris – meu ex-guitarrista -, uns dois meses depois ter chegado aqui. Através dele, fiz meu primeiro círculo de amizades. Foi aí que conheci a famigerada gótica alemã. Fui apresentado aos amigos dela, que eventualmente se tornaram meus amigos. Meu inglês aumentou exponencialmente, o que facilitou a minha vida social. E a partir daí, tudo melhorou.


Na escola, descolando meu diplominha canadense. Outubro

A única coisa que realmente me dá saudade ao lembrar do Brasil é a minha família. Gostaria de poder dizer “meus amigos”, mas eu diria que menos de 2% das minhas amizades manteve contato comigo, sinal de que não devíamos ser tão amiguinhos assim. Assim sendo, fodam-se.

Reiniciar sua vida em outro país é difícil pra caralho. Abrir mão de certas coisas, psicologicamente, dói demais. Conversando com outros imigrantes, descubro que quase todos passaram pelas mesmas etapas que eu. Muitos desistem e voltam correndo pro País da Putaria, mesmo depois de ter vendido até a mãe pra tentar uma chance aqui fora. Admito que eu quis voltar, em diversas ocasiões.

Mas somos condicionados a nos acostumar. Depois de um tempo, a vida nova entra nos trilhos.

Mas que ainda dá uma pontada de saudade desse país onde nasci e me criei, dá sim 🙁

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

Um comentário \o/

  1. Anonymous says:

    isse site é uma porcaria …
    será q ´da pra colok koisas + interessant;;;;