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Postado em 22 September 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

(É post grande que vocês queriam, né? Então toma.)

Ok, deixa eu começar a contar a história do começo.

Ontem foi o último dia no trampo de sorveteiro. Últimos dias sempre têm aquele melancólico ar de despedida, ontem não foi diferente. Pra celebrar o fim da estação, instaurou-se o maior clima de festa no escritório: havia balões, música, chefe contando piada e tirando onda com os recém-ex-funcionários e muita comida grátis. Rolou até distribuição de prêmios e tal (eu ganhei a coleção completa de Matrix, com 10 DVDs e um busto do Neo. Fotinha aqui procês quando o prêmio for entregue no domingo, no pique-nique anual da empresa).

Então. Dei tchau praquela galera e voltei pra casa, com o coração meio apertado. Sou uma bichinha mesmo, despedidas me deixam bolado. Lembrei de quantas vezes eu tava lá na minha rota, olhando impaciente pro relógio, esperando que nove horas chegassem logo para que eu pudesse me mandar dali. Percebi subitamente que vou sentir falta de trabalhar como picolezeiro.

Cheguei na minha residência à meia noite, e passei a me arrumar pra encarar a segunda jornada de trabalho. Dei a passada obrigatória na internerd, conversei com alguns amigos, xinguei alguns inimigos até que o meu chefe apareceu aqui pra me levar.

O trabalho era aparentemente simples: limpar restaurantes durante a madrugada. Assim sendo, eu imaginei que não precisaria de muitas instruções da parte do chefe.

Acontece que o cara MAL FALAVA COMIGO. David era um nigeriano extremamente mal educado e sem o menor tino social. Nas poucas vezes que o cara se direcionava a mim, parecia que tava com medo de falar, sei lá que porra aquele negão tinha. Soma-se a isso o sotaque simplesmente horroroso dele; cada frase dele era acompanhada por um “Uhn, excuse me?/I beg your pardon?/Say that again?/Nigga, what the fuck did you say?” meu. No começo eu encarei como um emocionante desafio linguístico. “O que diabo esse negão está tentando me dizer?!” Duas horas depois, decifrar o inglês dele se tornou um estorvo.

Mas beleza. A intenção era ganhar dinheiro, e não fazer amizade com o cara. Aceitei o infortúnio resignado e passei a sonhar com as doletas que seriam recebidas no fim do expediente.

E foi aí que começou a putaria. Claro, se a história envolve a mim, há de ter algum tipo de putaria. É praticamente uma lei científica.

Interpelei o David três vezes a respeito do salário por telefone, e duas vezes pessoalmente. Sempre que eu mencionava isso, o cara dava uma enrolada SAFADÍSSIMA, tipo “erh, ahn, tipo, hmm… a gente acerta isso depois“. Meu desconfiômetro apontou valores astronômicos; coisa boa eu não devia esperar de alguém que repetidamente se recusava a dizer a um empregado quanto ele deveria receber. Mas beleza, imaginei que ele ia primeiro avaliar meu desempenho pra depois dizer quanto eu mereceria arrecadar. Achei justo até, embora posso garantir agora que isso era uma forma minha de tentar autenticar uma atitude safada da parte do negão.

Primeiro ele me levou a um restaurante aqui perto, só pra pegar uns outros trabalhadores e levar pra outro canto. O cara controla uma verdadeira máfia de sub-empregados. Entramos todos na van dele e nos dirigimos a um segundo restaurante onde os escravinhos trabalhariam. Pra não dizer que aquela noite foi uma perda de tempo completa, David passou no McD’s e pagou um lanche pra mim e outro maluquinho lá. Insisti em pagar meu lanche, mas ele não aceitou. Até a forma de dispensar meu dinheiro foi meio estúpida. “Esse cara deve ter sido abandonado pela mãe e criado por cactos“, pensei.

Não tinha nem terminado o primeiro dia com o sujeito, e eu já não via a hora de pedir demissão.

Aí veio o choque – o maluco do banco do passageiro vira-se pro David e chama-o pelo título de PASTOR. Ficou revelado em uma conversa posterior que ele é pastor evangélico de uma congregação qualquer sem importância. E eu escolhi justo esse dia pra usar uma camiseta do Slipknot, ou seja, fui ouvindo sermão (sempre num inglês aleijado) durante todo o caminho do restaurante onde eu trabalharia. O suéter estampado com o Marilyn Manson não saiu mais da mochila.

E olha que eu já não era muito fã do cara. A essa altura, eu já tava realmente triste por causa do trabalho de sorveteiro ter acabado.

Chegamos no outro restaurante, que era EM OUTRA CIDADE, MAS O PUTO JAMAIS ME DISSE. Descemos, descarreguei o equipamento – sim, ele me fez carregar tudo sozinho. Carinha sem vergonha. – e começamos a limpar o lugar. Era uma pizzaria de beira de estrada.

De cinco em cinco minutos o carinha vinha verificar se eu estava fazendo tudo certinho, Apontava um lugar no carpete que eu não tinha aspirado direito. Reclamava que eu não puxei as mesas pra aspirar embaixo direitinho. Basicamente, ficava sobrevoando meu ombro e analisando tudo que eu fazia, e disparando trinta críticas por segundo em tempo real. Senti mais saudade ainda do trabalho de sorveteiro, daquela liberdade de ficar passeando por aí com a bicicleta e fazendo o que eu bem entendesse, sem a pressão da presença da chefia.

Eventualmente o negão lembrou que não tinha ido junto comigo só pra encher o saco, e começou a trabalhar também. Foi aí que o negócio piorou.

Cabe uma explicação antes:

Quem me conhece sabe que eu sou incapaz de acordar depois de nove horas da manhã. No dia anterior, eu havia acordado às oito, e ido trabalhar às três da tarde. Voltei ao escritório às 9 da noite, rolou aquela festinha já mencionada, e cheguei em casa mais ou menos às doze. Nisso já iam dezesseis horas acordado. Todo mundo precisa de oito horas de sono, ou seja, eu já tava rodando na reserva. E o trabalho com o negão não tinha nem começado.

O cansaço começou a bater forte, mas tudo bem. Decidi encarar a segunda rodada de trabalho.

Acontece que eu não sabia que essa ia durar até as SETE da manhã. Lá pelas 4 AM, eu já não conseguia pensar em nada a não ser minha cama, e na namorada. A sensação foi muito escrota: cansado, em outra cidade, trabalhando sem nem saber por quanto pra um desconhecido escroto… bateu a maior sensação de isolamento, de solidão. Desejei com todas as forças que aquela porra acabasse logo. Queria mandar uma mensagem pro celular da gótica, mas ela estaria obviamente dormindo àquela hora.

Como mencionei antes, só acabei voltando pra casa às sete da matina. Neste momento, meu relógio marca exatamente 9:52, e estranhamente não estou mais com sono.

Quando o cara me deixou de volta no prédio, tava decididaço a ligar pra ele mais tarde e dizer que ele podia enfiar o trampo escravo dele em seu cuzinho preto. Pra minha surpresa, ele acabou me ligando antes, pra me dizer que me daria o pagamento da noite no dia seguinte. Decidi acabar logo com aquilo e falei que não gostei do emprego e que não voltaria mais. O cara ficou putíssimo instantaneamente, e aí mesmo que eu soube que não voltaria a trabalhar pra ele – nem me convencer o cara sabia; a tentativa dele pelo telefone foi bizarramente hostil. O que, imagino eu, é a última forma que você deve usar se quer convencer alguém a trabalhar com você.

Ele disse que me pagaria hoje quando eu fosse trampar, mas como eu falei que não iria e bati o pé, ele não falou mais nada e desligou. Nem sei se o cara vai ao menos honrar a suposta moral que ele deve pregar em sua igreja e me pagar. E não faço questão do dinheiro dele.

Foda-se. Que volte pra Nigéria.

E que volte a vagabundagem. Acho bom vocês me manterem mesmo, porque agora tou na mão de vocês 🙁

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)