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Postado em 13 October 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Em 1999, quando viajei para o hemisfério norte pela primeira vez, fui agraciado com a maravilhosa ignorância gringa a respeito do nosso querido país. O pai da Kendra, uma amiguinha minha de Ohio, frequentemente disparava perguntas como “você já viu uma TV?“, “tem hambúrguer no seu país?“, “como vocês fazem as necessidades no seu país?“, entre outras. Não que a relativa burrice gringa em relação ao terceiro mundo fosse uma novidade para mim, mas o choque de presenciá-la em primeira mão foi uma experiência única.

Logo quando cheguei no Canadá, fui abordado por gringos curiosos com perguntas similares. Muitas delas, admito constrangedoramente, vindas da própria namorada. “Tem McDonalds no Brasil? Você já ouviu falar num canal musical chamado MTV? Existem cinemas no seu país?” e muitas outras similares foram disparadas pela patroa nos primeiros meses de namoro.

Coitada, queria entender sobre minhas origens e tal :~

O máximo que esse povo daqui entende a respeito do hemisfério sul é resultado de imagens de umas propagandas de organizações de caridade, mostrando vilarejos esquecidos no cu da África do Sul e prometendo que por uma pequena doação sua, um moleque neguinho e raquítico poderá ir à escola. Nesse momento a câmera dá um close no tal moleque raquítico, que acaricia a protuberante barriga (sem dúvida habitada por parasitas) ao mesmo tempo em que as trinta moscas que repousavam no seu olho direito se mudam para o esquerdo.

Ou seja, não é uma imagem muito lisonjeira. Os caras pensam que o Brasil é uma desgraceira sem tamanho, e embora não estejam muito distantes da verdade, a coisa não tá tããão feia assim. Ao menos, não pra classe média-alta teoricamente educada e relativamente menos mal-sucedida que o resto do povão. Por enquanto a coisa não tá tão ruim pra “nós”.

Mas então. A ignorância deles é bastante compreensível, uma vez que a importância internacional do Brasil chega próximo da relevância dos resultados das quartas-de-final do campeonato nigeriano de arremesso de ferraduras. Um cazaquistanês pensaria de nós o mesmo, que nós não sabemos porra nenhuma sobre o seu país.

Mas há dois tipos de ignorância: a ignorância sincera – ou seja, aquela que vem junto com a própria admissão da falta de conhecimento -, e a ignorância disfarçada, stealth e ninja, que tenta passar pela multidão como inteligência.

E é o caso do evento que me levou a escrever esse post.

Lendo o Fark, que é uma espécie de Ueba canadense, vi que postaram uma notinha a respeito do uso do álcool como combustível no Brasil. A nota tratava do assunto como se fosse a última notícia saída dos rolos de impressão dos jornais internacionais, a despeito do detalhe de que álcool é empregado no Brasil como combustível há, hmm, não sei, uns TRINTA anos.

Nos comentários do tal post, segue-se o festival de abobrinha disparada por gringo metido a sabichão. Como falei algumas linhas acima, burrice é até perdoável, mas burrice tentando se disfarçar de sagacidade é um abominável. Imagina aí um bando de gringo branquelo que nunca viu o Brasil nem na TV, e que provavelmente teria dificuldade de encontrar o país num mapa da América do Sul, mas metendo bedelhos com a suposta autoridade de um formando em Relações Internacionais.

Felizmente, alguns mais iluminados trouxeram à tona pelo menos o fato de que a discussão está algumas décadas atrasada. Esses me impedem de dizer que tudo que os gringos falaram na discussão foi de uma inteligência que rivaliza a de amebas causadoras de moléstias cutâneas. No entanto, essa foi praticamente a única coisa inteligente dita por um gringo pelo resto do debate.

O primeiro disparate foi de um gringo revoltado pelo fato que a Ford não produz carros movidos a álcool nos EUA, apenas no Brasil. O que é um pedido bastante curioso, se você levar em consideração que os EUA não são um país muito propício para o cultivo da planta tropical. Talvez eu seja muito inocente, mas me parece que fazem-se carros a álcool no Brasil porque tem álcool no Brasil.

Aí alguém diria “ah, mas os EUA não usam apenas o petróleo que produzem. Eles compram também. Se compram petróleo, poderiam muito bem comprar álcool!” Acontece que o grande motivo do uso do álcool no Brasil é justamente a origem local da substância, o que diminui os custos de produção. Importar por importar, melhor continuar importando o que já é utilizado mesmo. Reinventar a roda quase nunca dá certo.

Há, obviamente, a vantagem do álcool ser menos poluente. Acontece que não é hoje que os Estados Unidos começarão a tomar decisões baseadas em benefícios ambientais. Passemos adiante.

O segundo falou que no Brasil estão “destruindo a Floresta Amazônica pra plantar cana“. Até hoje eu pensava que a cana-de-açucar era plantada no Nordeste, que fica (jogando por baixo) a uns três mil km da Floresta Amazônica. Talvez eu e o mapa geográfico brasileiro estamos errados, mas vou cruzar os dedos.

O terceiro gringo metido a professor universitário com todas as respostas do universo mandou a espetacular “Brazil has been fueling their entire country with ethanol from sugar cane for over 20 years. Think they’re concerned about high oil prices and middle east stability? Doubt it.

Veja que o indivíduo inseriu cuidadosamente um absurdo por frase, tornando seu argumento excepcionalmente bem equilibrado no quesito “baboseira/linhas”.

Não, o Brasil não abastece “o país inteiro” com álcool. Os anos 90 foram marcados pelo fim do sonho do Pró-Álcool. O governo tirou os subsídios que tornavam a cana lucrativa pros fazendeiros, e estes descobriram que produzir açúcar dava mais dinheiro. Aliado a problemas de eficiência dos motores a álcool (quem aí já tentou dar a partida num carro a álcool no inverno paranaense?), isso fez com que ter um carro movido a etanol se tornasse praticamente um certificado de palermice. E sim, apesar da existência do combustível alternativo no Brasil, continua sendo aquele deus nos acuda quando o preço do petróleo sobe.

Um pouco mais abaixo, um gringo revelou que seu plano envolve carros movidos por outras alternativas como, por exemplo, ahn, deixa eu ver aqui, ENERGIA NUCLEAR.

Que idéia segura, inteligente e viável, ein? Centenas de milhares de mini-usinas nucleares ambulantes, abastecidas por combustível radioativo, e pra completar a brilhante solução, pilotadas por um punhado de gente que não tem responsabilidade suficiente pra cuidar de um tamagochi, que dirá de um motor movido a base de fissão nuclear.

A cada três comentários, um gringo diferente contribua na discussão alegando que “álcool é feio e bobo, porque gasta mais energia para ser produzido do que gera quando é queimado. Primeiro eu achei que a burrice era apenas um pensamento isolado, e não compartilhado pelo público geral. Pouco tempo descobri que a estupidez era regra, e não exceção. Mais e mais gringos apareciam na caixa de comentários do post alegando que álcool é inviável porque exige mais energia em sua produção do que gera quando é utilizado. Na cabeça deles, uma reação só “dá certo” se produz mais energia do que foi colocada nela inicialmente.

Enquanto isso, em algum lugar na Europa Lavoisier se revira no túmulo.

E quando eu achava que a baboseira ia passar impune, e já cogitava me cadastrar no Fark só pra responder os infelizes que falaram isso, aparece um conterrâneo que pôs os gringos em seus lugares.

“Of course ethanol consumes more energy to be produced than it generates. Here in Brazil we RESPECT the Laws of Thermo
dynamics.”

Simples, concisa, inteligente. A resposta do brasileiro foi praticamente um tapa na cara seguido de um “cala a boca, desgraçado. Você não sabe o que tá falando“.

Quase deu orgulho de ser brasileiro.


Mas apesar dos pesares, gringas continuam trepando que é uma beleza.

Há algo de bom nessa raça infeliz.


E já que (quase) falei de clichês brasileiros, me ajudem nessa difícil decisão: a namorada sugeriu que eu devia sair de jogador de futebol brasileiro no Halloween (basta um short verde AZUL! AZUL!, uma camisa da seleção e uma bola a tiracolo). Eu, entretanto, já tava decidido a comprar um macacão azul, uma camiseta e chapeuzinho vermelhoz, luvas brancas e encarnar meu personagem de 16bits favorito.

Os motivos da nerdice extrema? Querer realizar um sonho de infância e a falta de coragem pra encarar 10 graus de short e camiseta.

Decidam aí por mim. Jogador de futebol ou Mario?

A despeito da minha decisão, Trunks – que tá passando férias aqui em Oshawa – já decidiu sair de Luigi. A patroa combinou até mesmo de confeccionar uma caixinha com um ponto de interrogação (ou duas, dependendo da minha decisão final).

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)