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Postado em 9 December 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Agora que já terminamos a saga mórmon, voltemos ao assunto oficial deste site – contar a minha desinteressante vida por meio de técnicas literárias que a façam parecer mais divertida do que a de vocês.

Firmemente decidido a adquirir o novo Xbox 360 – ainda que a primeira leva do videogame esteja seguindo bem o padrão de qualidade Microsoft -, catei um jornaleco qualquer, circulei anúncios de trabalho com uma caneta hidrocor vermelha e saí ligando por aí.

Marquei uma entrevista de trabalho com a turma da CountryStyle, uma rede de padarias daqui da Canadalândia. Abriram uma franquia no novo rinque de patinação no extremo norte da cidade, e tão contratando funcionários aos quilos la. Decidi que devia tentar lá.

Graças à inclinação do eixo de nosso querido planeta, estava fazendo uns cinco graus negativos do lado de fora. Neve caía copiosamente, acumulando-se nas calçadas, ruas e em cima do meu fone de ouvido. Depois de uma divertida espera de quase meia hora num frio de rachar os testículos, o malditíssimo Ritson #7 despontava na esquina. Catei as moedinhas no bolso e me joguei pra dentro do ônibus.

Tomei um lugar perto da janela (onde ficam os aquecedores) e, após me aconchegar que nem virgem em braço de puta, saquei o palm pra assistir South Park. Oh, palm, há alguma coisa que você não faça?

E então eu a vi.

Algumas cadeiras à frente, um casal discutia baixinho. O comportamento da mulé não dava muitas dicas sobre o motivo da confusão, mas a indiferença estampada no rosto do seu marido e/ou namorado deixava claro: era uma briga sobre motivo nenhum, hobby de 9 entre 10 mulheres. O cara parecia estar acostumado, e a forma como ele ignorava os chiliques silenciosos da mulé era admirável.

No chão ao seu lado, havia um carrinho de bebê. O carrinho portava a mais feia criança que eu já tive o desprazer de ver na minha existência. Não esqueçam jamais que este que vos fala trabalhou por um tempo considerável com crianças, cada uma mais asquerosa que a última, então meu testemunho deve valer alguma coisa. Olhei em volta pra descobrir se os outros passageiros também estavam ofendidos com aquela imagem, mas acho que todos já tinham decidido há muito tempo que não aguentariam mais aquilo e por isso o ônibus estava quase vazio.

O cabelo da menina parecia que tinha sido cortado por uma pessoa que viveu três quartos de sua vida dentro de uma caverna no Azerbaijão, fora do contato com humanos e portanto nunca teve uma noção de como as pessoas comuns costumam cortar seu cabelo. Sem brincadeira, o cabelo dela era o típico corte “perdi-uma-aposta-e-não-perdoaram”: um lado era do comprimento do meu, e o outro mal passava da orelha. Segurei minha revolta contra aquela criança e sua presença num local público como o ônibus, e em pouco tempo cheguei no Walmart.

O endereço que o cara me deu parecia não tão longe ao norte do Walmart. O problema é que não havia luzes naquela direção, é literalmente o fim da cidade. A neve continuava a castigar Ontário, e caminhar com destino indefinido embaixo de nevasca é impraticável. Chequei o relógio – eu tinha vinte minutos pra chegar no lugar marcado pra entrevista, e eu sequer sabia quão longe do local eu estava. Cacei uma moedinha na carteira, corri pra dentro do Walmart e decidi ligar pra um táxi.

O problema é que uma mulé gordíssima e seus cinco sacos de compras estavam ocupando a única cabine telefônica das redondezas. Ao me ver chegar perto da cabine esbaforido, a infeliz puxou pra dentro alguns de seus sacos que estavam parcialmente fora da cabine e em seguida fechou a portinha, sem jamais tirar os olhos de mim. Devia achar que eu estava afim de roubar seus assentos de privada recém comprados.

A mulher não desistia de bater papo no telefone, e o tempo passava rápido. Mandei-a às favas e decidi correr em direção ao desconhecido. Fiz um cálculo mental rápido: O endereço do lugar era 1661 Harmony and Winchester. O Walmart, por sua vez, ficava em 1500 Harmony and Winchester. Assim sendo, a distância não poderia ser mais que um quilômetro. Ainda assim, no meu íntimo a idéia de correr por um quilômetro embaixo de neve – lembrem-se, eu tinha vinte minutos pra chegar na entrevista – era tão ou mais assustadora que os filmes que passavam tarde da noite na Band quando eu era criança, mas minha mãe não deixava eu assistir porque “filme de terror não é coisa de crente”.

To be continued.

(Porque eu sei que neguim odeia post enorme. Ou não?)

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)