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Postado em 12 December 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Cenas do último episódio

A mulher não desistia de bater papo no telefone, e o tempo passava rápido. Mandei-a às favas e decidi correr em direção ao desconhecido. Fiz um cálculo mental rápido: O endereço do lugar era 1661 Harmony and Winchester. O Walmart, por sua vez, ficava em 1500 Harmony and Winchester. Assim sendo, a distância não poderia ser mais que um quilômetro. Ainda assim, no meu íntimo a idéia de correr por um quilômetro embaixo de neve – lembrem-se, eu tinha vinte minutos pra chegar na entrevista – era tão ou mais assustadora que os filmes que passavam tarde da noite na Band quando eu era criança, mas minha mãe não deixava eu assistir porque “filme de terror não é coisa de crente”.

Sem outra solução, fechei o zíper da jaqueta e me joguei rumo ao desconhecido. Bem, era rumo ao norte mesmo. Mas eu não sabia ainda o que havia lá, então acho que isso o qualifica como desconhecido.

Uma planície branca como a bunda de um norueguês recém-nascido se estendia até onde a vista alcançava. A área atrás do Walmart era totalmente desolada. Os terrenos foram comprados por várias empresas diferentes, mas ainda não havia nada construído no lugar, a não ser o que parecia ser um imenso depósito a uns 500 metros de onde eu estava.

A neve continuava caindo pesada, aumentando a espessura da camada de gelo abaixo dos meus pés a cada instante. Caminhar num ambiente como esse é similar a ter um sujeito de 250 quilos montado nas suas costas assobiando o tema de Titanic. Seu pé afunda gostoso no chão a cada passo, e a irritação é mais do que suficiente para que a vontade de beber ácido e acabar com a agonia seja maior do que a minha vontade de viver até os 22 anos.

Lancei uma olhadela em direção ao relógio. Faltavam apenas dez minutos, OMG. Olhei em volta e ainda não via o lugar onde eu deveria ir. Eu estava basicamente correndo na neve, numa temperatura abaixo de zero, sem um rumo preciso e com um prazo de dez minutos. O desespero e o arrependimento bateram forte. Ao invés de estar correndo como um mexicano rente à fronteira dos EUA, eu poderia estar em casa baixando mp3s defeituosas e lendo pela milésima vez aquela piada pré-histórica que alguns insistem a me mandar por email!

Quando tudo parecia perdido, avistei uma van encostada na calçada. O motorista aparentemente dormia ou descansava encostado no volante. Dei a volta no carro e, meio constrangido de ter que acordar o indivíduo no meio do que poderia ser um sonho com a Sylvia Saint e suas amiguinhas pouco vestidas, dei umas batidinhas na janela.

O sonho devia estar bom demais, porque o sujeito não acordou. Bati novamente, e finalmente o sujeito percebeu minha presença. Girando a manivela da porta, o vidro desceu. Imediatamente, uma baforada gelada depositou alguns quilos de neve na cara do indivíduo. Ele girou a manivela no sentido contrário e subiu o vidro um pouco. “Que é?“, ele perguntou com cara de poucos amigos. Perguntei se ele conhecia o endereço onde eu deveria ir. Ele apontou pra uma direção qualquer e, sem esperar minha resposta, subiu o vidro novamente e virou-se pro outro lado.

Filho duma puta. Pela aparência, deveria ser indiano. Resolvi deixar pra ligar pra imigração mais tarde. Continuei minha marcha pelos campos nevados em direção ao nada, onde eu deveria chegar em cinco minutos.

Após correr mais um pouquinho, percebi que o prédio que eu achava ser um depósito na verdade era o próprio rinque de patinação onde eu deveria ir. O frio me desmotivava a tirar a mão do bolso pra verificar o relógio novamente, mas eu imaginava que não devia ter muito tempo de sobra. Apressei o passo.

…E nessa hora meu pé se afundou com vontade numa parte onde a neve era mais macia. Talvez eu não devesse estar correndo.

Desci até o meio da canela naquela merda. Senti o frio cortante da neve entrando no sapato e preenchendo o espaço entre este e minha meia. Graças à inércia, meu corpo girou noventa graus para frente. As mãos não foram rápidas o bastante pra impedir a queda. Meu rosto ardeu instantaneamente assim que se enfiou na camada de neve.

Fiquei lá esparramado por uns dois segundos, sem reação. Pareceu uma eternidade. Aí lembrei que o palm estava no meu bolso e levantei avidamente. Queria verificar a condição do bichinho, mas tira-lo do bolso durante uma nevasca não é lá a decisão mais inteligente de todas. Sacodi o cabelo, fazendo a neve voar pra todo lado – assim como todos sempre insinuavam quando eu tinha caspa. Falado nisso, tenho que lavar o cabelo hoje.

Provando que não aprendo com meus próprios erros, voltei a correr. Já estava mais perto agora, mas definitivamente atrasado.

Em poucos minutos eu já tava na loja, sentado à uma das mesas e esperando o chefe chegar. Outros quatro candidatos chegaram pouco tempo depois – uma mulher com idade suficiente pra ser bisavó de Pedro Álvares Cabral, um sujeitinho com um ar de skinhead, uma adolescente grávida acompanhada de seu namorado e uma distinta senhora com uma impressionante falta de dentes. Contei seis dentes sobrando naquele buraco pútrido que ela chama de boca, e pela qualidade destes eu concluiria que ela esteve escovando os dentes com uma mistura de manteiga e açúcar.

O chefe chegou praticamente UMA HORA depois. Sério, não estou fazendo um daqueles exageros engraçadinhos: o cara realmente foi aparecer quase 60 minutos após todos os candidatos terem chegado. Durante esse tempo, a secretária do cara puxou conversa mole com a gente. A Mulher dos Dentes Podres já tinha trabalhado numa outra padaria/lanchonete da mesma rede, e a secretária fez uma anotação enquanto balançava a cabeça de forma aprovativa. Isso poderia ter garantido a vaga da mulé, se não fosse a sua obsessão por contar com detalhes sórdidos os motivos pelos quais ela foi banida de três McDonald’s da cidade. Apenas Jesus Cristo sabe o que leva um candidato a se auto-difamar durante uma entrevista, mas foi o que aconteceu. O pior, a mulher parecia estar orgulhosa de si mesmo.

A mulher mais velha, calada e constantemente olhando pro relógio, decidiu que não precisava do emprego tanto assim e se mandou antes do chefe aparecer. A Garota Grávida e seu namorado cochichavam baixinho enquanto encaravam os outros candidatos. Não faço a menor idéia do que eles estavam falando. O Moleque Skinhead fazia pouco além de morder as próprias unhas e descaradamente encarar os peitos volumosos da futura mãe.

Mas então o chefe chegou e começou a fazer um monte de perguntas. A entrevista acabou em menos de dez minutos. O cara pegou nossos telefones e combinou-se que ele ligaria pra gente dentro de um mês, pra começarmos o treinamento e tal.

Vamos ver se eles ligam mesmo.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)