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Postado em 16 December 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários


Vocês que costumam ler esses sites de notícias na espera de dar de cara com alguma história bem absurda só pra poder em seguida entrar no seu fórum favorito e abrir um tópico com o título “VEJAM SÓ QUE ABSURDO CRIANÇA DE DOIS ANOS DE IDADE É POSSUÍDA PELO SACI PERERÊ E MATA A FAMÍLIA INTEIRA COM UM CACO DE VIDRO!!!!” já devem conhecer essa última, e embora eu não costume escrever posts sobre notícias, acho que dessa vez vale a pena quebrar a regra. Não esperem, no entanto, que eu comece a postar sobre qualquer coisa que vi na TV, ou sobre futebol, ou sobre jogar lixo no chão e outras coisas óbvias da mesma qualidade.

Segundo essa notícia do Terra, que anos atrás era o Zaz e me fornecia horas de diversão hosteando jogos de Quake onde dois ou três desgraçados conseguiam me matar sempre a despeito do incrível lag de aproximadamente 45 minutos, existe um indivíduo tão desocupado em São Paulo que a idéia de escrever um livro inteiro usando o tecladinho de um celular parece uma boa idéia. Ao que me parece, o sujeito planeja não apenas ficar mundialmente famoso como o primeiro a perder os polegares por uso exagerado desses malditos teclados de celular, mas também quer ficar rico publicando grandes obras da literatura nacional dessa forma. O primeiro livro a ser redigido é Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

E como uma história dessas não poderia ficar sem aquele último detalhe que faz você pensar “Ah, vai se foder! É mentira isso, falaí!“, o rapaz está escrevendo o livro utilizando o adorável idioma “ddonês”, que é na verdade aquele velho conhecido miguxês mas que exige um pouco mais de esforço pra escrever, porque você está usando um teclado de quatro centímetros quadrados pra isso.

Veja aí uma prévia do trabalho do moleque:

Alg1 tmpo hesitei c dvia abrir stas memorias plo principio ou plo fim, i.eh, c poria em 1ro lugar o meu nasc ou minha mort. Suposto o uso vulgar sja comecar plo nasc, 2 considercoes m levaram a adotar dferent metodo: a 1ra eh n sou propriament 1 autor defunto, mas 1 defunt autor, pra kem a campa foi outro berco; a 2da eh q o scrito fikria assim + galant e + novo. Moises, q tb contou sua mort, n a pos no introlito, mas no cabo; diferenca radcal entr este livro e o pentateuco.

Se isso não é um grande avanço pra literatura brasileira, não sei mais o que é.

Segundo me foi dito, essa linguagem – antigamente conhecida como “miguxês” ou “imbecilidade propagada por garotas de 13 anos em seus diarinhos virtuais onde elas publicam sua emocionante vida que se resume a ir à escola e brigar com amiguinhas” – foi re-batizada de “ddonês”. Em toda a minha inocência, achei que esse nome fosse alguma variação de “DD 1”, ou “DD ONE”. Cheguei até a imaginar uma pronúncia como “Djí Djí Uon” ou algo assim.

Que nada. Ddonês é simplesmente uma “linguagem de dedos”. Sacou? Porque quando você manda esse tipo de mensagem pelo celular, você escreve com os dedos! Ao contrário de, por exemplo, digitar com os pés ou segurar canetas com a orelha, que é o que normalmente se faz.

Só há um problema com essa empreitada pioneira do rapaz. Acho que ele jamais entrou nessa tal de internet antes, e por isso não sabe que aproximadamente todas as pessoas que respiram odeiam esse tipo de escrita com todas as suas forças. A maioria dos internautas com algum amor pela língua-mãe (ou seja, o único tipo de pessoa que seria capaz de voluntariamente ler um livro de Machado de Assis) prefereria contracenar com a própria mãe num filme pornô sadomasoquista do que se submeter a ler essas infâmias.

Basicamente, o cara transformou um livro chato num livro ilegível. Por que diabos ele acha que alguém que goste de literatura brasileira compraria um livro escrito dessa forma, Jesus amado?! Qualquer pessoa que ao menos não odeie a língua portuguesa evitaria esse livro como se toca-lo transmitisse AIDS.

E aparentemente eu não sou o único a pensar isso, ao menos a julgar pelos comentários que o tal Fernando recebe em seu MOBLOG – que é basicamente um blog mas com a sílaba MO na frente, e escrito completamente em MAIÚSCULAS. Lá ele tem recebido muitas frases de motivação, como por exemplo “Era pra voce ter vergonha do que esta fazendo. Quer chamar atenção pinta a Bunda de vermelho e vai passear no Shopping.” (diz aí, você não adora pessoas que usam uma letra maiúscula aleatoriamente no meio de uma frase?), ou “Você é mesmo um idiota ….”, ou a minha favorita “cumpade…eu acho q tu tem que parar de usar entorpecentes…daqui a pouco vão te degolar com um MACHADO!“. Sacou? Tá esculhambando um livro de Machado de Assis, vai ser degolado com um MACHADO! Mas esse rapaz é mesmo um gênio da sátira e da ironia.

Mais engraçado que o comportamento do escritor, que fala da própria presepada como se fosse uma missão de grande importância, é a incomensurável revolta dos defensores da língua lá no MOBLOG dele. Eu apostaria uma palheta da Fender que metade dos comentários vem de gente que nunca sequer abriu um livro de Machado de Assis na vida (ao contrário do Fernando), mas eu gosto da minha palheta. Só tenho essa.

Não sei vocês, mas eu vou ficar lá encorajando o cara. Vai ser muito engraçado se esse livro for publicado mesmo.

PS.: RaUL, aguardo a sua opinião sobre esse negócio todo.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)