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Postado em 10 March 2006 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Hoje Trunks, a Gótica e eu fomos ao consulado brasileiro em Toronto pra resolver a minha eterna pendência em relação ao alistamento militar. Sei que há alguns imigrantes brazucas que lêem este site, e eles poderão servir de testemunhas pro que vou contar pro resto de vocês:

O consulado brasileiro daqui é, na falta de um termo mais técnico, uma excelente desgraça. O lugar não passa de uma repartição pública em endereço gringo, com as mesmas pessoas despreparadas, mal informadas e com uma impressionante má vontade em ajudar a galera. Imagino que o funcionário comum do consulado acorda de manhã cedo, toma seu cafezinho enquanto põe a mão no queixo e pensa “Hmmmm, de que forma posso dificultar ao máximo a vida daqueles filhos da puta que vêm ao consulado regularizar seus problemas, mas ainda mantendo meu emprego até o próximo ano?” Aí ele tem uma epifania. “Já sei!“, pensa ele. “Vou atender a galera como se a mera presença deles despertasse uma espécie de ódio satânico em mim”.

Antes que alguém pergunte o que os caras fizeram comigo, já corto a onda – eles me trataram super bem, sei lá porque. Devo ter tido alguma sorte, vai ver eu era parecido com o sobrinho do cônsul e a macacada lá resolveu dar um tratamento melhorzinho pro Kid aqui. O resto da turma que tava resolvendo seus pepinos lá não teve a mesma sorte que eu, no entanto. Da próxima vez eles deveriam tentar usar uma peruca e óculos.

Enquanto eu prenchia uns papéis do alistamento obrigatório para brasileiros morando no exterior (a mais idiota medida governamental que o povo brasileiro já se submeteu desde que Collor e amigos recolheram as poupanças da geral e me impediram de ganhar um GameBoy no Natal de 1993) notei que um rapaz gringo tava sendo respondido asperamente por um funcionário do lugar. Nada de muito surpreendente vindo dessa gente amável e amiga que é o povo brasileiro trabalhando atrás de um balcão de uma repartição pública, mas ainda assim tive minha atenção capturada pela situação. O homem gesticulava e falava alto, tratando o moleque gringo por baixo dos pés, como se tivesse algum tipo de vendeta pessoal contra o cara. Liguei minhas anteninhas de vinil e capturei toda a conversa, transposta neste website de internet em forma de prosa.

O garoto gringo, que não devia ter nem 20 anos e parecia um nerd viciado em desenhos animados japoneses do tipo que usa “^^” em fóruns de Evangelion e se refere aos amigos como “nomedosujeito-chan”, estava perguntando pro balconista a respeito de seu passaporte. Pelo contexto da conversa, saquei que o menino tinha aplicado pra um visto de turista pra visitar o Brasil. Quando você faz isso, a turma do consulado pega seu passaporte e grampeia nele os documentos autorizando a sua viagem, mas não sem antes enviar seu passaporte quatro vezes pro Brasil, perde-lo em alguma gaveta obscura de documentos de outra espécie e demorar cinco meses pra te dar alguma satisfação. Pelas perguntas do moleque, parece que deram sumiço no passaporte dele mesmo.

ACONTECE que é procedimento padrão reter o passaporte do candidato ao visto por algum tempo, e finalmente enviar pelo correio pro fulaninho quando o visto finalmente sair. Pelo que tudo indicava, o moleque gringo não sabia disso, e queria saber onde tava o passaporte dele.

O atendente, um senhor de uns 40 anos com cara de pouquíssimos ou nenhum amigo, respondia o moleque com um inglês fragmentado e rude.

— Seu passaporte, ah, sei onde tá não. Tá com a gente em algum lugar aqui. Tá processando, é, tá processando.
— Mas minha passagem é pro dia tal, senhor. Como vou viajar sem meu passaporte? Preciso dele!
— Meu filho, você quer o visto ou não quer?
— Sim, mas o problema é que…
— Você quer ir pro Brasil ou não?
, e o mais legal é que o tom de voz dele fazia parecer que o Brasil é a terra de todas as maravilhas, e que aquele que perdesse a oportunidade de visitá-la não tem outra opção a não ser matar toda a família e em seguida cometer suicídio.

Nessa hora eu pesquei tudo – o que o atendente estava tentando dizer (mas obviamente não dizendo claramente, vai entender) é que o moleque teria que esperar o processo do visto sair, e que então ele receberia o passaporte em casa. O moleque simplesmente parecia não entender que receberia o seu documento pelo correio, e estava apenas tentando descobrir como obte-lo de volta. O atendente poderia ter feito seu trabalho e explicado o procedimento pro pobre turista, mas nãããão, isso seria muito eficiente.

— Senhor, eu só quero entender como é que…
— Ah, você quer que eu cancele todo o processo? Quer que eu te dê o passaporte agora mesmo, sem visto nem nada?
— Não, não, eu só quero saber como é que…
— Então tá, peraí que eu rasgo seu formulário, te dou o passaporte sem visto e você vai pra casa.
— NÃO! NÃO! Não é isso, eu quero o…

O desgraçado vira-se pro outro cubículo.

— Ô Neide, procura aí o passaporte do fulano, ele não quer mais o visto não.
O moleque se desespera e não sabe se continua falando com o infeliz na sua frente ou com a tal da Neide, que até então era invisível pra mim.
— Não, eu quero, eu quero, eu só preciso do meu passaporte porque…
— Olha aqui, não é assim não. Não é assim não.
repetiu o infeliz, com uma cara seríssima e sacodindo a cabeça de um lado pro outro como se estivesse repreendendo um filho por ter comido a priminha menor sem camisinha.

Senti um ardor miserável na alma, e uma vontade incrível de chegar no meio dos dois e dizer “Ô seu filho duma puta, porque você não explica pro cara que ele receberá o passaporte pelo correio?!“, mas tive medo de a partir daí receber o serviço padrão brasileiro. Fiquei calado, imaginando que vontade o pobre gringo teria de conhecer a terra natal dessa gente mal educada e filha da puta que se recusa a agir como alguém com modos, ou de fornecer uma informação simples àquele que está fazendo o FAVOR de ir gastar seus dólares no Brasil.

Mas a ida mensal a Toronto não foi uma terrível desgraça completa. Na volta pra casa, tive a oportunidade de conhecer ao vivo e a cores uma verdadeira lenda da comunidade metropolitana da capital de Ontário.


O maluco no meio da foto é ninguém menos que Zanta (pronuncia-se mais ou menos “Zênta”, ou seja, uma corruptela de “Santa” – gíria pra “Papai Noel”. Acho que não preciso explicar o motivo), uma figura tarimbadíssima do centro da cidade que os poucos leitores que moram em Toronto já devem conhecer.

Zanta é um sujeito de aproximadamente 30 anos que – diz a lenda – é casado e tem três filhos (ou seja, é mais ou menos uma pessoa normal). O cara sai as ruas durante o ano inteiro vestindo nada além de um calção e um gorrinho natalino, às vezes dando-se o luxo de usar um sobretudo mas sempre expondo seus músculos bem torneados ao povo que se pergunta “mas que porra é essa?“. O cara faz papel de maluco no meio da galera, pulando, correndo, berrando sua marca registrada (“YES, YES, YEEEEES!!!“), exibindo os músculos ou fazendo flexões no meio da calçada apoiando-se apenas com os dedos.

Ou seja, o cara é a maior figura. Por ser tão peculiar e insistir na maluquice há anos (apesar de já ter sido alertado pelas autoridades pra parar com a putaria), o sujeito insiste no seu showzinho e acabou se tornando uma celebridade de rua por aquelas bandas. Tanto é que até eu, que quase não ando por lá, já tinha ouvido falar no sujeito – as aventuras de Zanta já chegaram na internet. Pesquise aí “Zanta Toronto” no Google e você vai achar até entrevistas que o cara deu em rádios e tal. Tem até blogs que registram as aparições
do cara, como se ele fosse um Mewtwo.

Então, estávamos todos no carro em direção à rodovia que nos traria de volta pra roça, quando vejo de longe alguém sem camisa com um gorrinho natalino na cabeça. Comecei a rir sozinho dentro do carro, dizendo “olha lá, é o Zanta!“, mas nem a Gótica nem o Trunks estavam informados sobre o maluco. Abaixei a janela, fiz o universal símbolo do chifrinho e berrei “Right on, Zantaaaaa!

O maluco pareceu muito satisfeito com a própria popularidade, então apontou pra mim enquanto gritava “YES, YES, YES! LOOK AT THIS, CHECK THIS OUT!” e começou a fazer suas famosas flexões apoiado pelos dedos. Ainda rindo, amaldiçoei minha sorte por ter esquecido a câmera em casa. “MERRY CHRISTMAS”, desejou/gritou ele, atrasado apenas por três meses.

Quando volto minha atenção pro mundo normal, o resto dos passageiros do carro estão me olhando incrédulos, como se estivessem perguntando mentalmente “você conhece esse doido?” Aí expliquei a respeito da celebridade virtual que é o cara.

Naturalmente, eu era o único no carro que tinha passado tempo o bastante na internet pra conhecer as aventuras do Zanta. Cambada de infiéis.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)