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Postado em 4 April 2006 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

[ Update ]

Escaneei a notinha do síndico. Olha a garranchada do coitado:


Diz aí se isso não parece ter sido retirado diretamente do caderno escolar de um estivador de 45 anos chamado Francisco da Silva sendo alfabetizado através do Amigos da Escola.

Antes que perguntem – “super” é coloquialismo de “superintendent”, que por sua vez significa “síndico analfabeto com preguiça de escrever a palavra inteira”.


As caixas estavam entulhando o corredor há uns três dias. O vizinho da frente, um malandro com fama de maconheiro (toda sexta-feira o cheiro da erva vindo do apê dele dominava o corredor), cedeu o apartamento e um casalzinho se instalou no lugar durante o fim de semana. No primeiro dia não dava pra ter certeza se as caixas eram parte da mudança dos novatos ou apenas lixarada que o inquilino anterior havia deixado pra trás, mas com o passar dos dias a teoria de que o conteúdo das caixas fosse composto por tranqueiras como videocassete fabricado no começo dos anos 90 e secretárias eletrônicas quebradas ganhou força.

Sei lá por que, um dia eu tava chegando em casa e a porra da caixa me atraiu a atenção. Desnecessariamente furtivo (eram duas da manhã, quem estaria andando pelos corredores do prédio àquela hora?), joguei uma olhada de soslaio pra dentro da caixa, como quem não quer nada.

Por ironia do destino, eu acabei querendo muito o que vi lá dentro.


Dentro da caixa repousavam um PS2 e três controles. Eu não podia acreditar nos meus olhos; conheço por experiência própria o desinteresse dos gringos por itens de tecnologia com mais de 5 anos de idade (a TV antiga do meu quarto, de 29 polegadas, foi catada do lixo. Funcionando perfeitamente e tudo mais), mas descartar um videogame em perfeito estado de conservação – nem empoeirado tava, vá se foder – é algo que minha mente teve problemas em aceitar.

Perfeito estado de conservação aparente“, pensei eu. “Vai ver que eu ligo essa porra e nem imagem aparece. Ou então sobe um filetinho de fumaça do fundo do videogame”.

Só tinha um jeito de saber. Liguei a parada na TV e HA!, o videogame funcionava. Mas ao meter um jogo qualquer no drive, percebi que o jogo não era lido. Após uma averiguação mais técnica e cuidadosa que envolveu colocar o ouvido em cima do console, percebi que o motor que gira o DVD não estava rodando. A bobina deve ter estourado, ou uma solda partido, ou uma engrenagem saído do lugar, ou qualquer bobagem similar que pode ser consertado facilmente com manuais encontrados no próprio Google. Meu pai conserta aparelhos eletrônicos como ganha-pão, e coisinhas levemente mais complexas que um drive de DVD, como equipamentos de tomografia computadorizada e máquinas de raio-X, então eu estava 100% confiante de que esse videogame não daria trabalho pro véio.

Fui dormir satisfeito com a idéia de que cada televisão da casa teria um videogame ligado a ela.

É aí que a parte feliz da história acabou. O resto foi uma comédia pastelônica com teor de sitcoms.

Na manhã seguinte, um pensamento me ocorreu – e se os novos vizinhos ainda quiserem essas tralhas? Dei de ombros, me confortando no pensamento de que nenhuma pessoa que se importasse com um videogame (ainda que não funcionando perfeitamente) o deixaria ao léu, ao alcance de qualquer brasileiro. Se o videogame tá com um defeitinho besta, é mais um indício de quem o deixou naquela caixa não tem interesse de mantê-lo em casa.

Mas eu sou um paranóico do caralho, e a idéia de que eu podia ter possivelmente roubado a parada dos caras começou a me incomodar profundamente. Mentalmente, eu já visualizava o FBI chutando a porta do meu apartamento, mandando granadas de efeito moral e invandindo meu lar pra resgatar o videogame furtado.

Tomado por dúvidas, decidi que não havia nada melhor que perguntar, casualmente, se a lixarada era mesmo deles. Se eles dissessem algo que me levasse a crer definitivamente que eles não tinham interesse no conteúdo das caixas, eu ficaria com o PS2 tranquilo. Caso contrário…

Calcei-me e saí de casa pra interrogar os vizinhos. O foda é que, no momento exato que eu pus o pé pra fora de casa, uma atraente loira de uns 25, 26 anos saiu do apartamento em frente; era a nova vizinha. Me senti como uma vaca no meio da estrada, encarando os faróis de um automóvel – totalmente sem reação, sem saber se falava com a mulé, se fingia que estava só saindo de casa, se voltava pra dentro, ou o quê. A loira percebeu meu embaraço, sorriu pra mim, e foi em direção ao elevador. Após dar um tapa na própria testa e praguejar contra a própria idiotice, fui ao encalço da loira. Interceptei-a.

“Erh, ahn, oi…”
“Oh, oi!” – e sorri. Loiras sorriem demais.
“É que eu, ahn, eu tava pensando…” – o inglês começa a morrer na subida. Por que demônios a mulher tinha que ser BONITA? Me atrapalhei todo mas, tal qual um ninja, me recompus rapidamente.
“…tipo, eu vi essas caixas aí na frente do teu apartamento. Isso é lixo, cê tá jogando fora, coméquié?”
“Ah, é que eu ainda não recebi a chave da área de depósitos ainda. Quando receber, jogo tudo lá. ^_^” – e sorri de novo. Deve ser uma otaku, supus.

Nesse momento eu perdi a trilha de pensamentos. A mulé então aparentemente quer o lixo, incluindo o videogame. E agora? Tentei raciocinar uma forma de mencionar o videogame, pra medir o interesse dela nesse item em particular, mas eu não podia falar nada sobre ele. Se eu desse trela do interesse no PS2, e futuramente a falta dele fosse notada, teria sido o mesmo que tatuar “fui eu que futriquei nas suas coisas e subtraí seu videogame” na testa.

Foi nessa hora que me senti numa sitcom. Saca aquelas situações bobas em que os caras sempre se metem que, por medo de simplesmente explicar a verdade, começam a se complicar cada vez mais? Então.

Dei bom dia pra mulher e voltei pro apartamento, onde tive que tomar uma importante decisão – devolvo o videogame, ou simplesmente fico com ele e nego qualquer coisa se porventura a falta do PS2 for notada?

Trunks não queria nem conversa – ele queria ficar com o console e acabou-se. “Pessoas que deixam suas coisas fora de casa por cinco dias e esperam encontra-las todas intocadas MERECEM ter seus videogames roubados“, raciocinou ele. E eu até concordo com o moleque, embora o lado de mim que não quer ter o apartamento invadido pelo FBI e repleto de gás lacrimejante preferiu evitar uma confusão maior e repôr o videogame.

Exageros a parte, eu não podia ficar com o videogame – eu já havia me exposto e mostrado interesse nas caixas. Se a falta do PS2 fosse sentida, eles já saberiam com quem procurar. Mas por outro lado, abrir mão de um videogame grátis é uma decisão que eu não queria tomar.

Ainda sem saber o que faria, resolvi dar mais uma olhada na caixa, pra ter certeza que ninguém tinha se dado o trabalho de recolhê-la ainda. Talvez pra me reconfortar na idéia de que o negócio era realmente sem valor aos olhos dos vizinhos, e que ainda que a idéia fosse guardar tudo num depósito, a falta de um item não chamaria atenção.

Ao sair do apartamento, vejo que o síndico havia fixado uma notinha nas caixas que dizia “Por favor, remova do corredor. Ass., o síndico.

A nota aumentou a minha tensão. Agora eu teria que agir contra o tempo; se alguém visse a nota e removesse a caixa, eu não teria mais a chance de repôr o videogame. A decisão de ficar com o
console e arriscar confusão ou devolver e sair limpo da história tinha que ser tomada o mais rápido possível.

Então me compliquei mais ainda – arranquei a nota, pra me dar mais tempo pra decidir e ao mesmo tempo dando mais evidências de que alguém tava mexendo na porra da caixa.

Acabei decidindo pôr o negócio de volta.

O POBREMA É: O apartamento da loira fica diretamente em frente do meu. Se por algum acaso ela não morasse sozinha e algum hipotético morador do apartamento saísse no momento exato em que eu recolocava o videogame e os controles, a situação seria dolorosamente constrangedora. Novamente, eu poderia apenas dizer a verdade (“porra, tu deixou as coisas aí, achei que era lixo. Mas já sei que não é e tou pondo de volta, kthxbye“), mas a gente só pensa na solução mais simples quando não está vivendo a situação.

Com o videogame e os controles debaixo do suvaco, abri a porta sorrateiramente. Olhei pra um lado e pro outro, e após confirmar que a barra tava limpa, movi-me em direção à caixa. Centímetros pareciam anos-luz de distância, nanosegundos pareciam séculos. Na minha paranóia, a missão de doze segundos que seria jogar o videogame no lugar de forma que parecesse intocado pareceu demorar muito mais tempo que isso, dando ampla chance pra que eu fosse flagrado.

Devolvi a porra toda.

No dia seguinte, constatei através do olho mágico que as caixas continuavam lá. Me bateu um certo arrependimento de ter devolvido a parada, porque eu tenho 100% de certeza que a porra do videogame será jogado no lixo.

Há mais detalhes, por exemplo a empreitada do Trunks em interrogar a loira mais uma vez a respeito do PS2 e ser surpreendido pelo namorado mau-humorado dela, enquanto eu tentava abafar as risadas por trás da porta, mas tou com preguiça de digitar tudo. Preguiça.

Ao menos não foi uma perda total; troquei um controle velho meu por um controle novinho dos caras. Se eles notarem que um controle deles de repente acumulou quilos de poeira em todas as cavidades e que os controles analógicos tão prendendo, vou fingir que nunca vi a caixa to begin with.

E da próxima vez que neguim deixar videogame dando sopa por cinco dias, vou deixar minha consciência em casa antes de ir lá saquear.

A minha dúvida é – teriam meus amados leitores feito o mesmo?

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About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)