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Postado em 13 June 2006 Escrito por Izzy Nobre 2 Comentários

Apenas após ter passado o fim de semana jogando SNES numa TV que deixa o Mario do tamanho da minha cabeça, posso terminar o post sobre o prom.

Logo de cara, o dia tava prometendo ser uma merda. Eu havia ganho o Nintendo DS no dia anterior, e uma maratona de 5 horas de Super Mario 64 DS (embora não tenham feito meus olhos sangrarem como o manual do jogo adverte) me deixaram com a vista cansada e uma puta dor de cabeça que parecia querer digivoluir pra uma daquelas enxaquecas miseráveis que tenho de vez em quando, do tipo que me deixa virtualmente cego e vomitando sem parar por no mínimo três horas. Acontece que eu já havia gasto muito dinheiro com essa festa (quase 12 dólares ao todo), e não seria uma mísera perda total de visão combinada com a falta da capacidade de manter sólidos na barriga que me faria sair no prejuízo.


Nintendo DS

Como paliativo, resolvi desligar o videogame, o computador e resguardar meus olhos para a torrente de flashes das câmeras descartáveis baratas que os formandos estariam carregando durante a festa. Matei o tempo desenhando, algo que eu não fazia desde os oito ou nove anos. E eu lembro exatamente por que parei – porque sou um péssimo desenhista.

O tempo passa rápido quando você não sabe desenhar bem, e antes que eu percebesse já eram cinco horas e eu havia esquecido propositalmente de tomar banho. A consciência bateu pesado e resolvi então ao menos lavar o cabelo, embora não fosse quarta-feira. Dei-me até ao luxo de fazer a barba, um hábito normalmente mantido apenas à base de choramingação da namorada. Feito o asseio, vesti-me e prendi o cabelo num ponytail, ou “rabinho de cavalo” pra vocês que não são bilíngues e precisam procurar tradução de letras de música no Google.

Pus aqueles tênis azuis que o público ama e fui à sala desfilar pros pais, já que apenas olhos exteriores à minha cabeça poderiam detectar falta de arrumação na parte de trás da calça e tal. Ao ver o sapato azul, minha madrasta torceu o nariz de uma forma que eu tenho certeza que a fisiologia do corpo humano não poderia permitir.

– E esse sapato aí? – perguntou ela.

Levantei as mãos pro céu como um centroavante que acabou de meter o pé na canela do jogador adversário a menos de cinco centímetros da grande área na final do campeonato da gázea.

– A Becca que escolheu. Ela disse que ficaria legal, foi idéia dela.
– Mas que coisa feia da porra. Vá calçar um sapato de homem – interviu meu pai.

Supus que com “sapato de homem” ele quis dizer “calçado social mais adequado pra uma festa formal como a formatura da sua namorada”, mas com 50% menos gentileza.

– Que sapato? Só tenho outros dois: um tênis marrom mais velho que a primeira temporada de Star Trek e uma bota preta. E não acho que a ponta de metal vai combinar com a minha gravata.
– Mmpjgprhumpf
– disse meu pai, pausando o DVD no momento que o Leonardo di Caprio abria os braços na proa do Titanic e levantando-se do sofá. Ele desapareceu dentro do quarto e saiu de lá com um par de seus próprios sapatos sociais, que eram dotados de uma
cafoníssima fivelinha de metal que eu imaginei que a calça esconderia bem.

– Vê se dá em você – ele falou.

Dava. E a fivela estava stealthmente escondida pela perna da calça, como eu previ. O sapato estava levemente sujo, mas nada que uma escovada semi-competente não ocultasse.

Já todo arrumado, toca pra casa da namorada. Tavam lá os avôs da mulé, umas tias e uma mulé cujo parentesco permanece incógnito até agora, mas eu arriscaria dizer que ela era uma vizinha que se acha amiga da família. Prom é um momento altamente aguardado, é praticamente um rito de passagem aqui na Gringolândia. Todo mundo naquela choradeira, naquele clima “oh meu deus, eu peguei essa menina no colo, e agora ela tá crescida e indo pro prom acompanhada do namorado brasileiro, onde foi que erramos“. Ficamos todos no jardim, comentando a respeito de como a patroa cresceu rápido porque de acordo com seus parentes mais velhos, aparentemente o tempo passou pra ela mais rápido do que pra todas as outras pessoas do mundo. Enquanto isso, a namorada se arrumava.

A patroa fez a maior questão de promover suspense em relação ao vestido dela, como se fosse vestido de noiva. Quando ela finalmente apareceu na porta da frente usando seu vestido azul, percebi que ele era exatamente idêntico a todas as fotos que as amigas delas me mandaram após eu prometer que não diria pra namorada.

Mais choradeira dos parentes e muitos rolos de filme depois, estávamos a caminho do Tosca Hall, lugar alugado pela escola pra receber a gurizada. Não quis destruir a ilusão juvenil da turma que se preparava pra festa, portanto não expliquei pra eles o que o nome do salão significa em português.


O Tosca Hall

Dei aquela passeadinha marota pelo lugar, encontrando com amigos, conhecidos e aquela gente que você não conhece, mas sempre vê no shopping ou no cinema porque a cidade é um ovo e todo mundo sempre vai pros mesmos lugares. Bati um papinho informal e sem compromissos com a moçada, enquanto checava compulsivamente o medidor de carga das pilhas da câmera. Gadjet novo, não tava acostumado ainda com o consumo da parada.


Casey e Collin, dois semi-viados

Sabe aquele cara que todo mundo tem quase certeza que é boiola, e os últimos 10% de dúvida só se mantém porque o cara um dia disse que sonha em comer a Elisha Cuthbert? Então, Casey e Collin são bons exemplo desse tipo de gente de sexualidade misteriosa. Os caras são aqueles amiguinhos da mulherada que nunca pegaram ninguém na vida (e se a lenda for verídica, ambos já ficaram com o Dustin, o viado-mascote da galera), mas que até agora não tiveram coragem de confessar que são chegados em manjubas, o que deixa todo mundo confuso.


Jenn, Namorada, Lauren e a Barriga do Dave

Depois de socializar com a turma do lado de fora, começou a esfriar e decidimos entrar no salão. Logo na entrada, uma velha coroquíssima me olhou de alto a baixo e, notando a protuberância na minha calça, se excitou logo.

– Posso saber o que o senhor tem nas calças ein ein ein por favor ein? – tossiu a múmia.
– Minha câmera digital – respondi, com pouca esperança de que alguém em seus duzentos anos compreendesse o linguajar tecnológico.
– Hmmmm, tá certo. – e puxou o convite da minha mão. Ela conferiu a autenticidade do convite, que era nada além de um pedaço de cartolina com Wordarts protegido pela revolucionária técnica inpirateável de “anotar um número no verso”. Ela conferiu o número, me devolveu o convite e voltou-se pro próximo da fila.


“Isreal” Nobre

O papel acima estava afixado num mural com os nomes das mesas e dos convidados. Creio que já mencionei aqui antes essa obsessão gringa em escrever/pronunciar meu nome errado, e aí está a prova final de que eu não estava mentindo. Até quando eu passo meu nome pra eles em escrito, os caras me fazem o favor de escrever errado essa porra. É como se eles estivessem dizendo pra mim “ahn, não gosto do seu nome do jeito que é, acho que se eu mudar a ordem das letras ficará melhor.”

O resto da noite passou muito rápido. O jantar foi bem fraquinho (muquiranas da porra), e eu me dei à liberdade de roubar o peito de frango do prato da namorada enquanto ela discutia com as amigas a respeito dos ves
tidos alheios. Umas meninas da organização foram lá pra um púlpito e começaram a dar algum discurso muito sem sentido a respeito da graduação da molecada, sobre começo de vida adulta, blá blá blá. Não prestei a menor atenção, porque uma menina que sentava na mesa da frente da gente tava visivelmente usando cinta liga por baixo do vestido e eu não consegui tirar os olhos da perna dela o tempo todo.


Slideshow peterjacksoniano

Algum idiota do comitê de organização da festa julgou que seria uma boa idéia fazer um slideshow de duas horas com fotos tiradas durante o ano letivo, embaladas ao som de bandas consagradas como Blink 182 e Linkin Park e RBD e sei lá mais o que vocês ouvem ultimamente, só sei que tocaram todas essas merdas durante o slideshow. Lá pelas tantas eu não me aguentei e berrei “Ok we get it, you guys took a lot of pictures”. As risadas resultantes me deixaram mais satisfeito que o peito de frango fininho que eles tiveram coragem de nos servir. A namorada por sua vez não conseguiu apreciar o gracejo e cravou as unhas no meu braço, como se isso fosse liberar o poder das Sands of Time e rebobinar o jogo, impedindo a minha piadinha pertinente.

Depois da porra desse slideshow que me deixou com sono, um DJ (que pelo que me consta é aluno da escola, olha que merda) ocupou seu posto. Chutaram-se as mesas pro lado e a galera começou a dançar. Vinte e dois minutos depois o salão estava praticamente vazio, porque todo mundo preferia se mandar pra festas não organizadas pela escola onde o consumo de álcool não era apenas liberado, mas encorajado e por que não dizer obrigatório. O prom acabou meio que antes de começar.

Alguém nos convidou pra ir pra umas das trezentas festas que estariam rolando em Oshawa naquela noite, mas eu já tava cansadaço, o frango não desceu muito bem e tínhamos que acordar cedo na manhã seguinte pra viagem. Viemos pra casa.

Em resumo, prom é basicamente tudo que você já viu nos filmes e mais um pouquinho que não apareceu na edição final porque os produtores queriam manter a censura 14 anos.

Ou não, depende de que filmes você assistiu.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

2 Comentários \o/

  1. Coréia do Norte « Armazém Dom Manolo says:

    […] de Cheroks Xerox® plastificado por algum escravo. E seu nome estará escrito errado, estilo Isreal Nobre, Flavião, ou algo do […]

  2. Armazém Dom Manolo » Sobre a Coréia do Norte ou, como gênios do mal atuam. says:

    […] de Cheroks Xerox® plastificado por algum escravo. E seu nome estará escrito errado, estilo Isreal Nobre, Flavião, ou algo do […]