Hbdia
  • Feed do Hbdia
  • Twitter
  • Youtube

Postado em 23 June 2006 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

O fim de semana se aproxima, e você já está bolando formas de convencer sua mãe a te dar os dez reais que você precisa pra pagar o ingresso do XI Congresso de Pessoas que Usam o Google Como Corretor Ortográfico. E é nesse é o momento que você ergue as mãos aos céus e amaldiçoa a própria sorte pelo fato de que você não tem um emprego, e também porque a Convenção não reconhece uniões estudantis e portanto não aceita meia-entrada.

Por mais que eu quisesse postar sobre trabalho (e ultimamente eu queria mesmo, você precisava ver), eu sempre chegava à inevitável conclusão de que escrever sobre trabalho num blog endereçado a vagabundos é como discutir sobre os efeitos especiais de Matrix Revolutions com um caco de telha. Calculo que enquanto 60% de vocês nunca trabalhou, 34% encontra-se tentando fugir de oportunidades de emprego que se formam perigosamente no horizonte, 28% não perceberia que as porcentagens nessa frase estão errada se eu mesmo não dissesse isso, e os dois últimos de vocês se preparam pra comentar dizendo que trabalham sim, e que eu deveria saber disso porque você já havia mencionado seu trabalho em outros comentários que eu provavelmente nem li.

Já que vocês têm tanta experiência de trabalho quanto um PSP tem bons jogos, darei alguns conselhos inúteis e comentários pertinentes baseados nas minhas próprias aventuras pelo impiedoso mercado de trabalho.

A primeira e única coisa que você precisa saber é que todo ser humano neste planeta absolutamente odeia o próprio emprego. Não pense por um momento que atores pornôs, beta-testers de jogos da Blizzard ou até mesmo picolezeiros são exclusões da regra – se você precisa fazer alguma coisa para receber dinheiro, e chamemos essa “alguma coisa” de X (sendo X um número real diferente de zero), você odiará X com todas as forças que as leis da física permitam.. E não é à toa, já que X é o que torna sua vagabundagem incompatível com o seu amor pelo dinheiro.

Se você pensou em dizer que não odeia seu trabalho, é porque é inocente demais pra supor que minha teoria não tem corolários e outras artimanhas que me permitem corrigi-la de pronto sem jamais precisar admitir abertamente que ela estava errada. Ou isso, ou você está acessando o HBD do trabalho e tem medo de expressar sua opinião verdadeira porque sabe que será impossível esconder seus planos de explodir o prédio da empresa uma vez que todos conhecerão seu ardente desejo de ver todos seus amigos (e inimigos) de trabalho amontoados numa massa disformes de defuntos em chamas.

O que eu quero dizer é que, se você não odeia seu emprego, é apenas uma questão de tempo.

Não posso falar muito sobre os supostos trabalhos de vocês, então explicarei detalhadamente o que e por que eu odeio meu emprego.

Como todos devem saber, vendo picolés pra sustentar meu vício de McDonalds, brinquedos tecnológicos e jogos eletrônicos. De uma certa forma, vender picolés no Canadá é quase como vender gelo pra esquimó (e obrigado ao Pedro por me dar essa analogia que eu uso tanto). O lado bom do trabalho é que ele me dá uma chance de fazer algo que normalmente evito de qualquer forma – me exercitar. É quase como se eles estivessem me pagando pra que eu me mantenha em forma. Uma academia ao contrário.

As vantagens que me permitem tolerar o trampo ficam por aí. Os outros aspectos do trabalho, eu apenas odeio mesmo.

Em primeiro lugar, trabalhar com crianças é um inferno. Não um inferno qualquer como o de Dante, e muito menos como o falsamente propagandeado no filme O Inferno de Dante, mas um inferno especialmente cruel onde demônios de 12 ou 13 anos de idade que têm como passatempo te espancar com lancheiras de Pokemon recheadas de pedras. Não sei exatamente o que eu odeio mais – a gritaria desesperada que todas as crianças de uma rua fazem quando me vêem, os 50 minutos que eles demoram pra decidir que sorvete eles querem, ou o fato de que eu não posso calar os infelizes na base de tapas como eu gostaria. A impotência diante da gurizada me dá uma leve tristeza.

Em segundo lugar, o pagamento fuleiro. Não me levem a mal, com o pagamento de um dia de trabalho (eles pagam todo dia), eu compro qualquer jogo de Nintendo DS que eu quiser, mas pros padrões canadenses isso é o equivalente a trabalhar num porão chinês costurando Nikes falsificados a cinquenta centavos por dia. Meu emprego é uma bosta no que diz respeito a pagamento porque eu só recebo por comissão. É, negadinha. Teoricamente eu poderia trabalhar o dia inteiro e não receber nada. Tá, nunca aconteceu, mas eu preciso de motivos pra justificar as desculpas que dou toda semana pra faltar o trabalho pelo menos duas vezes.

Em terceiro lugar, e como não podia faltar, eu absolutamente odeio a chefia da Frosty Freeze. São dois sócios – Sean (ou Shawn, há duas grafias pro mesmo nome e eu não sei qual é a dele) e Joe. Joe é um cara gente finíssima, do tipo que você talvez até pagaria a entrada dele no cinema se ele tivesse esquecido a carteira em casa ou algo assim. Mas o Sean/Shawn, ahh, este sujeito é um excelente exemplar de filho da puta. O cara aparenta estar sempre de mau humor, costuma falar mal de alguns empregados quando estes não estão no escritório, e o pior de tudo, ele é fã de Ivete Sangalo (isso mesmo, você leu certo) e faz questão de ter os CDs da mulé tocando no escritório sempre que possível. Ou seja, sempre.

E acima de tudo, a chefia é exigente. Outro dia o Sean/Shawn/Xon tava me enchendo o saco porque alguém ligou pra reclamar que eu estava andando rápido demais numa determinada rua – no futuro, lembrarei de reduzir minha velocidade atual de dois quilômetros por hora. Este filho da puta (o que ligou, e não o Xon. Mas ambos dividem um patamar semelhante de filha da putice) decidiu que valeria a pena ir atrás do telefone do escritório da Frosty Freeze e registrar uma reclamação formal contra a minha honorável pessoa simplesmente porque ele decidiu que vencer os 10 metros de distância que nos separavam seria um favor muito grande a se pedir.

– Ô Izzy, não quero ouvir mais esse tipo de reclamação, beleza? Da próxima vez, ande mais devagar.
– Xon, o único motivo pelo qual eu andei um pouco mais rápido hoje é porque eu tava usando uma camiseta preta, o sol tava a pino e a rua desse sujeito não tem árvores. Eu estava cozinhando lá. Só apressei o passo até encontrar uma sombra.
– Bom, não podemos fazer nada em relação ao sol. Você tem que andar devagarzinho mesmo assim.

Me deu vontade de mandar o desgraçado pra puta que pariu. Oh, me desculpe por não querer fritar embaixo do sol do meio dia dentro de uma camiseta preta enquanto o pequeno Billy gasta meia hora decidindo se quer o sorvete que me renderá 30 centavos, ou o que me renderá 25 centavos.

Mas hey, ter dinheiro faz a diferença entre sair da EBgames de mãos vazias, ou sair de lá com dois jogos novinhos pro DS.


A propósito, alguém aí quer jogar Mario Kart online, ou vocês pobres lascados não têm routers wifi?

Venham vender picolé aqui.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)