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Postado em 8 July 2006 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Me diz aí – existe algo pior que garganta inflamada?

Não, não existe. Se seu corpo fosse um torcedor da seleção brasileira na Alemanha – que ainda não voltou pra casa -, inflamação na garganta seria um hooligan te atingindo embaixo do cinto com um soco inglês de chumbo. Uma moléstia que faz com que engolir alimentos se torne uma tarefa dolorosa só pode ter sido cuidadosamente manufaturada por Satanás em pessoa.

Normalmente o pior que uma doença poderia trazer é dor e mal estar, mas no caso da garganta inflamada, dor é uma coadjuvante. Como se não bastasse a sensação de ter engolido um porco espinho armado com lâminas de barbear, uma garganta inflamada faz com que sua boca salive intensamente. E isso provoca um de dois resultados possíveis – ou você precisa deixar um baldinho por perto pra expelir o excesso de cuspe, ou, se a mãe da namorada está por perto, você dá uma de macho e engole a saliva na marra. Seria uma alternativa moleza, se não fosse as inevitáveis ânsias de vômito que horas engolindo em seco acabam provocando. Não conheço a explicação oficial pra o fenômeno, mas que acontece, acontece. Após umas duas horas nesse engole-engole infeliz, o estômago se revolta e põe tudo pra fora.

Procê ter uma noção do drama, vomitei umas duas vezes desde que acordei, e ainda nem comi nada.

E foi aí que lembrei-me que nos tempos de guri a mãe e/ou avó tinham milhares de receitas caseiras de remédios milagrosos de eficácia que dependia de muita superstição. Uma dessas misturas, que tinham como alvo gargantas fodidas como a minha, constituia a combinação de X partes de limão com Y partes de mel; o famoso “Limão com Mel”, remédio rudimentar imortalizado como nome de banda de forró da minha terra.

Cansado de sentir dores lacinantes na garganta, marchei em direção à cozinha pra preparar a mistureba.


Espremi o “suco” do limão na colher, completei com uma modesta quantidade de mel, e meti na goela.

Demorou uns dois segundos pro meu cérebro processar o que tinha acabado de acontecer.

Pra quem nunca teve o prazer de experimentar a receita acima, não tente. A azedice do limão demorou um pouco pra finalmente se fazer notável, mas aqueles dois segundos foram a última trégua que a fruta me deu.

Meus olhos instantaneamente fecharam-se. A língua, ofendida pelo suco azedo e decepcionada com o fato de que o mel não realizou seu trabalho adocicante, mandou o sinal pro estômago de que aquela mistura não era bem vinda. E eu comecei a sentir aquela familiar sensação na garganta de quem está prestes a pintar as paredes da cozinha com o almoço.

Com apenas um olho semi aberto, comecei a procurar freneticamente algo pra aliviar o gosto terrível na boca. Espalmei as mãos no balcão da cozinha, procurando por qualquer coisa, e as costas da minha mão encontraram o tubinho de mel, o que o enviou pro chão. Ainda lutando contra a nausea, mandei o mel pro inferno e voltei-me pra geladeira.

Senti aquele ardorzinho característico na garganta, e sabia que se não colocasse a mão na boca, iria vomitar dentro da geladeira.

Dentro da geladeira, havia verduras, molho de tomate, mostarda, uma porra de condimentos pra churrasco. Nada doce. O único olho que eu conseguia manter aberto já estava ficando mareado de lágrimas. Se eu soubesse que limão puro era TÃO azedo, não teria me arriscado nesse mundo de auto-medicação. Da próxima vez, lembro de consultar a Wikipédia.

Já era. Não havia nada ao meu alcance que pudesse neutralizar o jato quente de comida semi-digerida que eu estava prestes a violentamente expelir da boca e/ou nariz. Larguei a geladeira aberta mesmo e, sabendo que não haveria tempo de alcançar o banheiro, posicionei-me diante da pia e preparei-me pro suplício que é invocar comida do estômago.

Abri a boca e senti aquele gostinho ácido se aproximando. Senti as contrações na garganta. Essas sensações provocaram um mal estar ainda mais pronunciado, e pela primeira vez na história alguém sentiu vontade de vomitar porque estava prestes a vomitar. Talvez eu vomitasse duas vezes.

E aí lembrei do sorvete.

No dia anterior meu pai tinha comprado uma caixa de sorvete de cheesecake de morango. Não acho que haja cheesecake no Brasil (eu ao menos nunca havia visto), então basta explicar que é um bolo com recheio macio, quase como um pudim (mas menos uniforme) e com a base feita de biscoito. Uma parada saborosíssima, e o sorvete desse sabor não deixa a desejar.

Podendo jurar que estava sentindo o vômito correndo pelo esôfago, dei meia volta e estendi a mão pro refrigerador. Extraí de lá a caixa do sorvete, e virei-me pra gaveta pra tirar uma colher. Pra meu horror, não havia nenhuma colher, ou ao menos garfo pra quebrar o galho. Estavam todos na máquina de lavar louças. E a única colher disponível estava ainda manchada pela experiência com o limão, e nem fodendo eu estaria pondo aquela merda na boca de novo.

Sem sequer pensar duas vezes, meti a mãozona dentro do sorvete. Meus dedos protestaram contra o contato gelado com a guloseima, então tirei uma porção que julguei suficiente pra contra-atacar a ânsia e enfiei na boca. Pra ter mais certeza da eficácia, meti uma segunda mãozada dentro do sorvete e mandei pra baixo, e na correria a falta de precisão me fez manchar as lentes dos óculos com sorvete.

A ânsia diminiu e em pouco tempo desapareceu, como que por mágica.

Foda-se limão com mel. Minha avó me sabotou.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)