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Postado em 5 October 2006 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Agora que estou relativamente mais descansado da sensacional noite de glória dos deuses do metal que abalou a maior cidade do Canadá e foi registrada por sensores sismológicos no interior do Tocantins, posso transcrever os eventos para a apreciação pública da Internet neste blog.

Eu estava ainda no trabalho quando Casey e Paul, os colegas de aventura, chegaram pra nos levar pra estação de trem. Praticamente larguei a vassoura ali mesmo e mandei uma desculpa corrida pro chefe, dizendo “ó, minha carona chegou, tenho que ir“. Ele deu uma olhada de soslaio na cozinha, viu que tava tudo nas ordi, e acenou desinteressadamente com quem diz “vai, moleque“. Quando eu estava pegando minha jaqueta, a chefia me interpelou.

“Show de rock, né?”
“Daqueles que a turma se esmurra e coisa e tal?”
“E há outro tipo?”
“Tente voltar inteiro, vai”

Tá bom então. Saí na chuvinha fina que tamborilava o solo canadense naquela fria tarde de domingo, cumprimentei os companheiros, e fomos pegar a Gótica no trabalho. Antes mesmo que chegássemos lá, a menina liga pro meu celular pra avisar que esqueceu os ingressos. Apesar de praticamente idolatrar a namorada que tem como hobby me presentear aleatoriamente com Nintendo DS e jogo de PS2 e ingressos pra shows de bandas (esse é o terceiro que ela me deu), o sangue que corre em minhas veias ainda é cearense, e este sangue atingiu ponto de ebulição no momento que eu consegui até imaginar a garota esboçando um ^^ enquanto dizia “esqueci nossos ingressos em casa!”, tal qual os personagens de desenho animado japonês que ela tem hábito de emular.

Puxei o telefone da mão do Casey e esculachei a menina por causa de seu esquecimento. Não demorou mais de três nanosegundos pro arrependimento bater forte, junto com a lembrança de que, por bem ou por mal, ela ainda era dona dos ingressos. Felizmente ela não se emputeceu muito e o desvio que precisamos fazer até à casa dela pra apanhar os bilhetes foi breve o bastante pra ainda conseguir pegar o trem a Toronto em tempo suficiente.

A viagem à capital da província (“província” é a forma canadense de “estado”) foi bastante monótona e marcada apenas por uma longa discussão sobre os consoles da nova geração, olhares reprovadores sendo lançados em nossa direção por causa do grande volume de palavrões que eu e meus amigos usávamos para expressar nossas opiniões, e por causa de um mendigo que dormia nos bancos atrás da gente e que usava uma caixa de sucrilhos como chapéu.

Hyperlink explicatico
Vocês devem ter notado que eu menciono mendigos canadenses com uma frequência peculiar aqui no blog. Isso se deve ao fato que aqui na Gringolândia temos uma diferente qualidade de mendigos, os mendigos LOUCOS. Tais personagens não se contentam em dormir nas ruas e desempenhar favores sexuais por crack, eles também são perdidamente malucos. Temos o Sam, que passa boa parte do seu tempo berrando contra semáforos no centro da cidade, o Dan “The Weather Man”, que usou seus talentos como ex-mecânico pra soldar uma peculiar bicicleta de quatro rodas e que a usa pra ir pedalando até Toronto quando está desocupado (uma viagem de mais de 60km. Quando perguntei pra ele o que ele faz quando chega lá, a resposta? “Ah, dou umas pedaladas por lá. Depois volto pra Oshawa.“), e um terceiro mendigo anônimo que habita o container de lixo atrás do restaurante onde minha “cunhada” trabalha.
Fim do hyperlink explicatico

Chegamos na Union Station em Toronto e pegamos um táxi que nos levaria ao The Docks, uma casa noturna que frequentemente é anfitriã de bandas de rock e apresenta o layout mais preguiçoso que eu já vi na minha vida. Parece que é 1999 de novo, quando a moda era pegar layouts prontos pro FrontPage Express e apenas enfiar conteúdo no meio, rezando pra que o texto não quebrasse as tabelas da página. E pelo jeito o webmaster do site esqueceu de rezar.

A fila não era tão longa quanto as outras filas de concertos que eu presenciei, e antes que percebêssemos já estávamos dentro do lugar. Devo dizer que, apesar de ser uma casa consideravelmente pequena pra um show de metal, eu gostei do “setup” do lugar. Aliás, não sei se vocês vão concordar comigo, mas eu prefiro assistir show num local menorzinho do que num imenso. Vi o Slipknot no Air Canada Centre e no Arrow Hall, que é uma casa menor que a primeira, e eu gostei mais do Arrow Hall. No The Docks, (ou No Docks já que o artigo em inglês se torna provavelmente desnecessário), você podia ter uma excelente visão do palco mesmo sentado no barzinho e saboreando uma pizza de preço imbecilmente abusivo. Ah, por algum motivo que ninguém jamais poderá elucidar, eles vendiam Brahma na Docks. Não apenas vendiam, como também exibiam o item orgulhosamente numa faixa que dizia “We have Brama”, pendurada em cima do freezer decorado com estampas da marca brasileira. Ah, eles vendiam também um tal de Eon, ou sei lá qual era o nome daquela porra, que o cartaz colado no lado do freezer explicava ser um produto da complexa equação matemática “Vodca + Guarana”. A falta de acento é cortesia deles.

Eis que de repente uma banda ocupa o palco, mas não era o Dragonforce. Eu não reconheci nenhum dos músicos, e até onde eu sabia não haveriam opening acts, então por um segundo pensei que os roadies decidiram passar o som de uma forma mais artística. Logo na primeira música os solos de teclado com som que se assemelha levemente com a trilha sonora de um jogo de NES me iluminou – era Horse the Band se apresentando diante de meus olhos. Alías, isso é um detalhe curioso a respeito da geração mp3 – ter quase toda a discografia da banda, mas jamais ter visto a cara dela.

Infelizmente Horse the Band não é exatamente a banda mais popular do mundo e em pouco tempo a platéia impiedosa começou a vaiar os caras em uníssono. Esbanjando espírito esportivo, os membros da banda continuaram tocando suas musiquinhas e, até onde sei, não mijaram no público nenhuma vez. O momento mais memorável da apresentação da banda foi quando um sujeito negro ostentando um projeto de cúpula capilar popularmente conhecido como “black power”, “afro” ou, quando eu era moleque, “jackson five”, e pulou no palco vindo de sei lá onde com um triângulo na mão. E ficou lá, tocando seu triângulo e “dançando” ao lado dos músicos, muito para a surpresa dos mesmos. Após o maluco deixar o palco, o vocalista confessou que não fazia a menor idéia de quem diabos era o cara, e que achava que tinha visto o cara varrendo os banheiros pouco antes do show começar.

Horse the Band termina seu setlist modest (não devem ter sido nem seis músicas, não lembro bem) e entra Still Remains. Mesma recepção amena, até que o público decide que as músicas da banda atingem todos os pré-requisitos para um mosh pit, a.k.a. “rodinha punk”.

Praqueles que nunca saborearam a experiência de um show dessa natureza, “mosh pit” ou “rodinha punk” é o momento em que metade da platéia do concerto chega à conclusão que odeia a outra metade, e que a melhor forma de expressar esse sentimento recém adquirido é esmurrar qualquer pessoa que se encontre no alcance dos seus punhos.

O mosh pit abriu EM VOLTA DA GENTE. Tipo, de repente vejo gente caindo, gente correndo pros lados, e antes que eu possa compreender o que está acontecendo, me encontro no meio de uma clareira habitadas por punks entretidos em sua “dança” característica de socos e chutes no ar. Sem mais nem essa, um cotovelo não-detectado invade meu espaço e entra em rota de colisão com meu rosto. Impacto violento contra a bochecha,
e decidi que meu lugar era do lado de roda do mosh pit. Saí sorrateiramente apalpando o interior da bochecha, tentando verificar a presença de sangue. Não tinha.

Still Remains também saiu do palco rapidinho e após uma breve espera de apenas 48 minutos, os roadies do carro-chefe da noite saíram correndo pra todos os lados como baratas quando você acende a luz da cozinha e os membros da banda começaram a ocupar seus espaços no palco.

Agora, lá no fórum neguim encheu o saco pedindo a set list. O problema é que eu não lembro de tudo que foi tocado lá (até porque já faz quase duas semanas desde o show). As únicas músicas que lembro com certeza absoluta que foram tocadas foi Revolution Deathsquad, Valley of the Damned, Fields of Despair, Black Fire e, claro, Through the Fire and Flames. Algo que eu totalmente não esperava é que as camas elásticas que uns roadies trouxeram pro meio do palco seriam usadas pelo Herman e pelo Sam, que se revezavam saltando de uma pra outra NO MEIO DOS SOLOS. Tipo, tocar como um semideus com velocidade digital estonteante não é suficiente, eles precisam fazer algo bem ridículo pra destacar o fato de que manejar a guitarra daquela forma é a coisa mais fácil do mundo pra eles.

E daí pra diante foi basicamente o que você poderia esperar de um show. Os momentos mais memoráveis foi quando o ZP (o vocalista, seu burro) arremessou uma garrafa dágua no meio da multidão e eu, exalando destreza por todos os poros, agarrei a dita-cuja in mid-air e em seguida borrifei os espectadores vizinhos com o seu conteúdo. Jogaram ainda algumas palhetas, mas nem Jesus Cristo em pessoa conseguiria agarrar uma palheta no ar no meio de um show de metal. É matematicamente impossível.

Findo o show, ainda conseguimos nos encontrar com os músicos na saída da coisa.

Aí estão as fotos asquerosas tiradas com o celular de um amigo. A definição não poderia ser pior, mas o colega decidiu passar as fotos pelo Photoshop e surpreendeu a todos multiplicando a baixa qualidade das imagens por trinta.


Namorada, Herman Li, eu e Casey


O show. Como em qualquer outra foto tirada por qualquer outra celular-câmera, não dá pra ver porra nenhuma direito e faz você questionar o propósito de enfiar uma câmera num celular in the first place.

Tinha mais umas fotos (com o baixista e o tecladista), mas eu não sei onde pus a porra dos arquivos. O que me lembra que eu preciso parar de apenas largar fotos no desktop e, uma semana depois de esquecer ter feito isso, sair deletando ícones inativos da área de trabalho.

Já percebeu que nesses posts de shows eu falo muito mais sobre o que aconteceu ANTES do show do que o que aconteceu no show em si?

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)