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Postado em 13 October 2006 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

Eu tinha escrito esse post há mais de um mês e perdi-o no meu desktop em meio a todos aqueles ícones inúteis que tornam impossível achar os aplicativos que eu procuro ou posts que eu precisava postar. Aí está.


Meus amigos, eu tenho uma notícia tristíssima para dar aos senhores. A notícia é tão aterradora e deprimente que eu acho que seria bom aliviá-la reportando uma boa notícia primeiro. Então é com orgulho que eu informo que meu PSP agora roda emuladores de Super Nintendo e que eu estou novamente tentando zerar Pitfal – The Mayan Adventure, uma empreitada que quase custou minha sanidade dez anos atrás. Desafio formalmente Jesus Cristo a derrotar o último chefão do jogo sem usar seus super poderes; suspeito que este jogo foi enviado à Terra por aquele inimigo do Jaspion para fazer crianças destruírem seus Super Nintendos em pura frustração pelo fato de que apesar de ser um excelente jogo, Pitfal exibe controles tão responsivos quanto um tijolo molhado e que tornam virtualmente impossível acertar um inimigo com uma porrada antes que ele encoste em você.

Mas isso é a única alegria que eu sinto no momento. Há uma tristeza profunda rasgando minha alma como se fossem giletes enferrujadas embebidas em urina de gato neste momento.

Uma velha conhecida nossa, que andava mal de saúde nos últimos meses, não suportou as mudanças do tempo e veio a falecer recentemente. Apesar de todos os esforços altruístas dos últimos bravos que lutavam contra o iminente destino, estamos agora sozinhos.

Esta velha conhecida se chama Internet. A Internet, meus amigos, morreu. E deixou a nós, nerds que acompanharam sua chegada nos anos 90 e sua trágica popularização nos 2000’s, órfãos desamparados. E digo “trágica popularização” porque essa foi uma das piores desgraças a atingir o planeta Terra, e sem a menor sombra de dúvidas a principal causa da morte prematura da Internet.

Aí você diz “claro que não morreu, ainda estou baixando meus hentais de bizarrice aqui no SoulSeek” e eu respondo que, assim como o Comunismo, a nossa querida Internet foi removida de seu real significado e existirá daqui pra frente como uma triste paródia do que era nos tempos de glória, uma sombra de si mesmo. Cagaram a Internet.


Quando Deus criou a Internet há seis mil anos atrás (por pedido de Adão que o convenceu a fornecer uma forma mais rápida de receber informaçõe sobre seus desenhos japoneses favoritos), o Criador deu à Rede várias funcionalidades. Além da possibilidade de encurtar a distância que separa pessoas das informações irrelevantes que elas procuram, a Internet nos deu de presente também uma forma instantânea de troca de mensagens que está atualmente substituindo os meios convencionais como telefonemas, sinais de fumaça ou arrotar palavras, e teve até o cuidado de preparar a chegada de um navegador que seria propagado entre nerds militantes como o novo ícone de adoração geral, o pilar da religião virtual que mais adquire adeptos em toda a Internet. Até mesmo a forma como as pessoas vendem e compram suas tralhas foi afetado pela chegada da Rede; pra pesquisar preços antigamente você tinha que perambular pelo centro da cidade visitando mil lojas e perguntando pro balconista se aquela Gibson Les Paul arranhada vale um descontinho. Hoje basta clicar no “Price: Lowest First” no eBay e você tem acesso às melhores barganhas da história do planeta. Compar assentos de privada semi-novos por 25 centavos nunca foi tão fácil antes.

Claro que além dessas bobagens, veio uma dádiva inédita – graças a Internet, você pode ofender pessoas que, se você fosse tentar ofender através de outro método, precisaria pagar passagens aéreas ou ligações interurbanas.

Imaturo? Mas claro que não. Caso você não saiba, usar a Internet para ofender outros seres humanos é o principal motivo que levou-a a existir por tanto tempo, e que desencadeou os grandes avanços relacionados. Banda larga foi desenvolvida pra que ofensas a respeito de qual episódio de Arquivo X foi o melhor da série fossem trocados com mais velocidade, e conectividade WiFi foi criada quando alguém percebeu que passava muito tempo fora de casa e que nessa hora não poderia se defender das injúrias sofridas no fórum de Harry Potter que ele frequenta.

Pelo amor de deus, entendam que a base da Internet é o confronto verbal. Se você está na Internet, e eu acho que você está, em algum momento – talvez até agora mesmo – você está ocupado brigando com alguém no orkut. Pouco sabemos a respeito do futuro, exceto duas coisas – 1) Jesus voltará do céu e presenteará os ateus removendo de uma vez só TODOS os crentes da face do planeta, e 2) alguém que use a Internet pela primeira vez estará discutindo com alguém em menos de dois minutos.

Infelizmente, como acontece com tudo em existência, algumas pessoas não conseguiram apreciar o privilégio que tinham. E começaram a levar as coisas a sério.

Em um texto anterior, entitulei esse tipo de gente de “Power Rangers Virtuais”. Os Power Rangers Virtuais são pessoas que transferem pra Internet toda a frustração resultante do fato de que eles sabem que jamais farão absolutamente nada de importância na vida, e que passam a buscar um propósito maior para o desperdício de oxigênio que sua respiração é através de espalhar boas obras no mundo virtual. Escrevi esse artigo sobre o fenômeno dos Power Rangers Virtuais, caso você precise escrever uma dissertação sobre o assunto pra aula de Redação e não tenha achado nenhum outro lugar de onde copiar um texto prontinho.

Voltando à meada, foi essa espécie desgraçada de internauta que cimentou o destino da nossa querida Rede. Com a popularização do acesso à Internet, muitas pessoas que jamais deveriam ter sequer estabelecido contato com outros seres humanos se viram interagindo com milhões de pessoas de uma vez. Essas pessoas se chamam “aqueles que se ofendem com facilidade e que ao invés de lidar com o problema com esportividade, buscam freneticamente pelo telefone do primeiro advogado de meia tigela que se disponha a representá-los legalmente num caso de injúria cometida virtualmente”.

Você já deve ter ouvido falar de algum caso envolvendo xingamentos via orkut ou criação de comunidades levemente ofensiva que levaram seu criador a ganhar 100 horas de trabalho comunitário ou alguma outra pena ridícula similar. Por que isso está acontecendo?

Por um motivo simples – os newbs.

Os newbs da Internet são donas de casa, professores aposentados, servidor público vagabundo e toda outra espécie de gente que não tem absolutamente nada pra fazer da vida e um QI equivalente ao de uma meia. Formou-se todo um contingente de usuários que são absolutamente incapazes de ler uma provocação e dar uma risadinha, ou pensar em responder de forma sarcástica ou algo assim. O negócio agora virou “TE PROCESSO!” E a pressão de tantos fez com que a Internet, algo que jamais deveria ser levado a sério, passasse a ser levada a sério.

Cada vez que leio uma manchete dizendo algo como “Criador de comunidade difamatória foi condenado a pagar indenização de R$ 0,50”, choro por dentro (e um pouquinho por fora também). Nada me dá mais insatisfação e tristeza do que ver o sistema judicial, algo que deveria ser o último santuário de bom senso, dando razão a idiotas que se sentem ofendidos porque alguém disse num fórum que eles são velhos e gordos e os recompensando por mobilizar todo o sistema pra extrair vingança como forma de colocar um band aid no
s seus egos. Aliás, o simples fato de que os juízes presidindo o caso não rasgam os laudos e jogam na cara do infeliz já me faz perder um pouco de fé nesse mundo.

Existe um probleminha com esses negócios. Aliás, um não. Vários.

1) Tais processos baseam-se no princípio de que a honra do ofendido foi ferida

Vamos por um segundo imaginar que “crimes contra a honra” não são um pressuposto absolutamente idiota. Digamos que é realmente possível, através de palavras apenas, destruir completamente o respeito que uma pessoa tenha por si mesma e joga-la diretamente à mais profunda depressão suicida.

Como é que alguém permite que algo que aconteceu exclusivamente no mundo virtual lhe atinja tão dolorosamente? Não existe uma voz da razão na cabeça dessas pessoas que diga “calma, tudo isso está acontecendo dentro do seu computador; desligue-o e olhe em volta – existe um mundo exterior (que não precisa ser envolvido nisso, então não invente de ligar pra um advogado)”? Talvez até exista, mas ela fala mais baixo que as outras vozes que habitam a cabeça desse povo.

2) Se hoje eu não posso xingar a Fulana, amanhã não me deixarão xingar o presidente

Eu sei que o exemplo é levemente exagerado, mas afinal de contas você está lendo isso no HBD. Se hoje decide-se que eu tenho que ser educado com todas as pessoas virtuais que eu não conheço e que não me inspiram nenhum respeito, o que impede que leis mais restritas sejam empregadas no futuro pra defender pessoas mais importantes das nossas opiniões? O que é mais importante, o bem do indivíduo (não ser “ofendido”) ou o bem do grupo (se expressar livremente sem medo de represálias legais arremessadas por aqueles que não têm jogo de cintura pra lidar com críticas)?

Alguns países como os EUA e o Canadá souberam fazer as coisas direitinho – liberdade de expressão é ABSOLUTA. A menos que você diga algo como “eu vI o fulano roubando uma loja de conveniências ontem à noite” e isso seja mentira, ninguém pode processar você por expressar uma opinião negativa sobre eles. Statement of Fact (“Eu vi o Fulano atirando em alguém”) é diferente de Statement of Opinion (“Eu acho que Fulano é um idiota”) – esse último é absolutamente impunível.

3) A pessoa ofendida provavelmente mereceu os ataques

A melhor justiça é a justiça popular. Por que perder tanto tempo com processos jurídicos lentos e burocráticos quando existe a opção de julgamento e condenação popular?

Na Internet, milhares de pessoas são julgadas diariamente. Eu mesmo estou sendo julgado por centenas de leitores sempre que atualizo essa bagaça. As pessoas deviam engolir um pouco o orgulho e aceitar que, se eles se comportam como perfeitos idiotas na presença virtual de outros, esses outros responderão com hostilidades. E a beleza da coisa é que ninguém precisa dizer “seguinte, vamos agora aloprar o Fulano. Um, dois, três, valendo!”; como que por telepatia, todo o grupo adquire simultânea insatisfação e age como um só indivíduo.

Isso é o mais próximo da idéia de democracia utópica que chegaremos. Enfiar o sistema judicial no meio para reverter a setença popular é desrespeitar a harmonia de um grupo que lida com seus párias de forma muito mais eficiente.

Mas não deixe a lógica e a razão se impor perante a idiotice da turminha que chegou querendo pôr “ordem” na Internet. Se isso é ordem (avalanches de ações legais por motivos triviais), viva a anarquia.

A Internet nasceu pura. Os idiotas a corromperam.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

Um comentário \o/

  1. Camilo says:

    pior que idiotas processando os outros por tolices na internet

    é uq o gorverno brasileiro esta tentando fazer com akeles novas leisinhas ridiculas …