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Postado em 19 October 2006 Escrito por Izzy Nobre 6 Comentários

Se eu quisesse fazer uma pergunta e ter a certeza absoluta de que a grandíssima maioria das respostas seriam equivocadas (concordância toda fodida aí, eu sei), a pergunta não seria “que Star Wars não foi dirigido por George Lucas?” nem “Por que Pinça Craniana foi banida do Extended se há cartas igualmente fodidas que permanecem perfeitamente legais?“. A pergunta capciosa mágica seria “Quem aí já teve enxaquecas?”

Aí todo mundo ia responder “Ontem mesmo tive uma enxaqueca quando estava jogando bola no campinho atrás do bar do seu João!” ou “vixi, nem me fale Kid, estou passando por uma enxaqueca agora mesmo enquanto jogo World of Warcraft!“, ou ainda “Putz, acordei hoje com uma terrível enxaqueca, quase até desisto de ir jogar Pump It Up com meus amigos do cursinho lá no Shopping!”, o que me faz pensar que alguém substituiu o significado da palavra “enxaqueca” enquanto eu dormia ontem à tarde após o almoço. Eu diria numa análise otimista e inventada que aproximadamente 80% das pessoas que afirmam ter tido enxaquecas jamais sequer conheceram alguém que sofresse desse horrível mal. Uma pergunta alternativa, uma espécie de teste pra averiguar a sua compreensão do problema seria “quantas pessoas você conhece/conhecia se suicidaram?” Se você não conheceu nenhum suicida, há grandes chances de que você é apenas mais um na multidão.

A multidão a que me refiro é a multidão dos que pensam que enxaqueca é uma simples dor de cabeça maximizada. Bom, é uma pena destruir esse mundo de fantasias de vocês, mas uma enxaqueca é algo maior que isso.

Uma enxaqueca é uma moléstia começa com um alerta inicialmente indolor – de repente, uma parte da sua visão foi substituída por uma área esbranquiçada ou borrada que te impede de usar os olhos como de costume. É sempre totalmente do nada, uma hora tou assistindo Bob Sponja ou sei lá o que passa na TV esses dias e sem o menor aviso, minha TV desaparece por trás de um borrão bem no meio da minha vista. Agora, após uns oito anos tendo que lidar com essa desgraça, eu já estou relativamente acostumado – não digo totalmente acostumado porque “acostumdo” implica em conformação, e ninguém se conforma em ficar cego – com a experiência. Mas a primeira vez? Porra, eu achei que tava ficando cego de verdade.

E isso nem é o pior. Aliás, essa última frase dá um excelente insight sobre a natureza da VERDADEIRA enxaqueca. Se alguém descreve um distúrbio dizendo que ficar temporariamente cego não é nem a pior parte, pode ter certeza que você está ouvindo a respeito de uma doença de primeira.

Não é uma cegueira TOTAL, porque eu ainda consigo ver ao redor das seções embaçadas e tal. Acontece que como elas geralmente ocupam uma área grande bem no meio do meu campo de visão, não dá pra ler, nem assistir TV, ou sequer reconhecer expressões faciais. Durante esse estágio da enxaqueca, preciso mover a cabeça em círculos quando falo com alguém pra fazer com que o rosto da pessoa se encaixe nas áreas onde ainda tenho alguma visão. É, na descrição mais otimista, um incômodo desgraçado.

Essa cegueira dura mais ou menos vinte ou trinta minutos. Depois você volta a enxergar tudo belezinha, mas o que devia ser um alívio acaba sendo na verdade seus últimos momentos de alegria e paz de espírito. Assim que a “aura” (o termo dado pra essas cegueira temporária) da enxaqueca passa, a dor mais desgraçada que você já experimentou em toda a sua existência chega chutando a porta da sua casa e pondo os pés enlameados em cima da mesinha de centro da sala. Desmarque todos os seus compromissos pros próximos dois (ou mais) dias, pois você estará ocupando rodando na cama embaixo de quatro cobertores, segurando a própria cabeça entre as mãos como se ela fosse cair caso você a soltasse e implorando pela própria morte.

E eu entendo sobre dores. Procê sentir o drama, quando eu tinha quatro anos uma queda do berço provocou a perda prematura do meu dente da frente (e uma porrada de sangue), o que me rendeu uma infância INTEIRA com aquela lacuna no meio do meu sorriso. Meu dente permanente só foi aparecer lá pelos meus nove ou dez anos de idade). Vou te contar, nada desperta a criatividade maldosa de coleguinhas de infância como um banguelinha infeliz.

Mas a dor da enxaqueca está num patamar completamente diferente. A dor da enxaqueca é como se alguém estivesse comprimindo sua cabeça com um daquelas prensas industriais igual a que matou o Exterminador no filme O Exterminador featuring o futuro governador da Califórnia. É uma dor bizarríssima, que ora faz sentir como se sua cabeça estivesse envolvida em chamas, ora faz sentir que alguém jogou um balde de nitrogênio líquido nas suas têmporas.

E quase me esqueci das ânsias. Você conhece alguma outra situação em que alguém vomita de tanto sentir dor? Ou que a vomitada é tão violenta que de alguma forma chega a aliviar a dor supracitada, ainda que apenas temporariamente? Se você nunca precisou dormir com um balde do lado da sua cama, sentido aquele terror que toda pessoa que sabe que está prestes a vomitar pequenos pedaços de seus órgãos internos sente, me perdoe a franqueza, mas você nunca teve uma enxaqueca.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

6 Comentários \o/

  1. Tintila says:

    Carái, velho!!!!!!!!
    Tô de boca escancarada até agora… parece que fui eu que escrevi esse tópico… E olha, cá entre nós, eu sei muito bem que, mesmo exagerando, você não chegou nem perto do que a gente realmente sente, até pq, o que a gente sente é INDESCRITÍVEL!!!!! Esse segredinho é só nosso, sofredores cerebrais! E aos que não sabem do que a gente está falando ou pensou: “Precisa disso tudo?” Vocês não sabem de nada! Sorte de vocês!!! Enjoy it!!!

  2. Diretor says:

    também sofro de enxaqueca (de verdade). Fico com a vista embaçada, qualquer cheiro me incomoda, som me incomoda e pra completar vomigo. A dor de cabeça é exatamente o que você descreveu, com a diferença que a minha as vezes dói apenas a metade do cranio (o lado esquerdo) enquanto a outra metade não dói nada.
    Minha solução foi dada por uma médica num posto de saúde público. Tomar ORMIGRIN (um remédio escroto que realmente funciona) logo no inicio dos sintomas e não deixar que ela se manifeste.
    Graças a isso, a tres anos estou tendo paz. Ando com uma cartela na minha bolsa, tem épocas que tenho que tomar um por dia, e tem epocas que passo seis meses sem tomar nada.

  3. KrK says:

    Sempre tive problemas de enxaqueca também. Eu consegui associar as ocorrências dela com a desidratação. Por exemplo, sempre que fazia exercícios físicos, jogava bola, etc, vinham as dores. Além disso, eu bebia muito pouca água o que também ocasionava a enxaquecas do “nada”. Quando comecei a beber muita água a enxaqueca parou. Agora ela só acontece quando jogo futebol e chego a exaustão. Tentem beber mais água. Comigo e com minha mãe deu certo.

  4. jacinto says:

    voce que escreveu este texto ou quem sente coisas que nao e real ,mais sente e esquizofrenico procure um psquiatra dor de barriga e um sintoma escutar ou enxergar o coisas que nao existe e doensa esta doensa deixa sego e causa perda de menbros como dedos , penis e cegueira ,voce entende conversa atraves de movimentos .vai la tarso

  5. Danilo says:

    E para provar como as pessoas se enganam a respeito da enxaqueca, nesse exato momento meu pai chega e pergunta:
    -O que você fazendo?
    -Lendo. -- respondo eu na maior filhadaputagem.
    -Lendo o que?
    -Um texto sobre enxaqueca.
    -Você está com enxaqueca?. -- perguntou o velho numa certa tranquilidade como se perguntasse se eu estou com dor de cabeça.

    Obviamente, se ele soubesse o que é uma enxaqueca, estaria mais desesperado.

    No mais é só isso.

    E parabéns pelo texto.