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Postado em 7 November 2006 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

Então, como eu ia dizendo antes que a inevitável rotação terrestre me trouxesse mais um aniversário, nos últimos dias diversas circunstâncias imprevisíveis impediram minha permanência nesse mundo mágico de bits, processos infundados por difamação e torrents de Naruto com legenda em espanhol que é a Internet 2.0 Shareware Version™.

Mas esse período de convivência forçada no mundo real não foi totalmente terrível. Re-aprendi nesses cinco ou seis ou sei lá quantos dias foram diversas habilidades outrora esquecidas. Por exemplo, eu lembrei o que “outrora” significa.

Trago a vocês um apanhado de minhas exeriências no mundo real em forma de um dossiê ilustrado (se eu conseguir convencer o Trunks a fazer os desenhinhos) de como sobreviver o mundo real.

Mas escrever esse pequeno manual (que não é exatamente um manual, agora que eu percebo melhor) foi um desafio por si só – como saber se minhas experiências diárias se encaixam no estilo de vida dos outros nerds vagabundos brasileiros? Afinal de contas, eu moro longe da pátria mãe, trabalho, e tenho uma namorada e até tomo banho de vez em quando. Sou provavelmente o extremo oposto do arquetipo de alguém que lê um blog sobre internet e videogame e palms e Magic.

Mas deixa de firuleiras, que se eu não terminar esse texto hoje acabo esquecendo-o no desktop até o ano que vem.

Observações HBD a Respeito de Convivência Forçada no Mundo Real

1) Interações familiares

Um monitor convencional bombardeia suas córneas com luminosidade aproximada de quinhentas mil velas. O nerd comum usa seu computador 16 horas por dia, não parando nem pra comer ou se vestir ou piscar. Pra sua visão, isso é o equivalente a apontar um telescópio astronômico pra um holofote localizado a dois metros de distância, observá-lo por dois minutos, e em seguida furar os olhos com láminas de barbear descartáveis embebidas em suco de limão.

Removida essa fonte cegante de luminosidade e em pouco tempo você perceberá que há vultos perambulando pela sua casa. Dê um tempo para que seus olhos se acostumem à relativa escuridão (luz diurna é praticamente um breu se comparada ão contraste quarto escuro + monitor ligado) e você notará que tais vultos não são na verdade vultos como você supôs inicialmente, mas seres interdmensionais que a comunidade científica convencionou a chamar de “outros membros da sua família que você não vê com frequência porque está constantemente vigiando o perfil de uma ex-namorada no orkut e tentando descobrir se ela vai praquela festa amanhã à noite”.

O tio do Homem Aranha disse que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Bem, aquele velho mereceu morrer então, porque sua teoria é tristemente fajuta. No mundo real, você ganha de presente diversas responsabilidades e NENHUM poder sequer. Explicarei melhor.

Quando seu computador está funcionando normalmente, existe uma força que impede que pratos na pia alcancem o teto ou que a cesta de roupas sujas no banheiro se transforme em um ninho de ratos. Essa força é composta por entidades múltiplas e todas têm o mesmo sobrenome que você. Sem computador e forçado a interagir com tais seres, uma parcela dessas responsabilidades domiciliares acaba caindo injustamente sobre você. Demovido de sua posição de importância, você terá que se rebaixar a posições e tarefas de subserviência como lavar louças, passar um pano na casa de vez em quando, trocar fralda de irmão pivete, essas coisas pouco prestigiosas que até então aparentemente se faziam sozinhas. Você, antes uma celebridade virtual no fórum em que você frequenta, agora limitado a limpar bunda cagada de moleque recém nascido. E nenhum dos poderes previstos na equação do tio do Homem Aranha.

Não é a toa que muitos de nós substituem o mundo real pelo de pixels.

2) Trabalho

Existem dois tipo de pessoa no mundo (tanto o tangível como o virtual): as pessoas que querem desesperadamente arrumar um emprego e seriam capaz de vender a própria alma para esta finalidade, e as que estão neste exato momento pensando numa desculpa convincente pra não ter que ir trabalhar. Devo ser a única pessoa neste hemisfério a ter passado de uma dessas castas pra outra em menos de cinco minutos. O desespero em arrumar uma ocupação se transformou em apatia no momento exato que meu chefe disse que eu estava contratado.

Antes de avançar neste item, compreendo que muitos de vocês devem estar um pouco confusos a respeito do que “trabalho” se trata. Eu suspeito que muitos de vocês lendo isso aqui são nerds profissionais em HTML, Flash e outras ferramentas que permitem desocupados com algum talento fazerem alguns serviços freelance e acharem que têm um emprego.

Pra dissipar qualquer dúvida, aqui está a definição oficial.

Trabalho é a atividade desagradável através da qual você adquire dinheiro pra ter todas as coisas legais que você poderia aproveitar mais caso não perdesse tanto tempo trabalhando. Muito similar a uma corrida com obstáculos disputadas por portadores de síndrome de Down, é uma situação triste em que ninguém ganha – não trabalhe e voce não pode comprar um Xbox 360; trabalhe e compre o 360, mas agora você não tem tempo pra brincar com ele, o que vai contra o propósito de gastar 400 dólares com o videogame ou até mesmo viver.

Nesses dias de sentidos aguçados pela falta da Internet, eu percebi que existem algumas coisas importantes que ignoramos a respeito de nossas ocupaçoes. Sintam-se a vontade para tirar proveito de minhas conclusoes.

Não importa qual seja o seu trabalho, duas coisas nunca mudam – ele será chato e, quase sempre, confuso. Não estou falando de confuso tipo “rapaz, eu tinha certeza que coloquei o bolo na geladeira”, mas confuso como a trama do primeiro Missão: Impossivel – o tipo de confusão que consome seu tempo, sua alegria de viver e sua alma.

Por esse motivo, evite parecer que sabe o que está fazendo. Chefes são naturalmente treinados para localizar funcionários que estão jogando Campo Minado ou lendo blogs durante o expediente, e eles fazem isso sondando o escritório por rostos que não exibam confusão e desespero que são familiares a alguém fazendo seu trabalho. Durante a leitura desse post, imagine que você está com diarréia e todas as privadas do universo foram substituidas por impressoras matriciais da IBM. Deixe transparecer em seu semblante o profundo terror que esse evento improvável inspiraria, e demonstre toda a dificuldade de compreender como demônios isso seria possível.

Esse exercício mental poderá salvar seu emprego um dia.

Igualmente, não sorria durante o expediente. Prestar serviço é uma das ativides mais insatisfatórias e deprimentes do mundo, perdendo até mesmo pra torcer pela Seleção Brasileira na Copa de 2006. Por causa disso, seu chefe assumirá que um funcionario sorridente deve estar fazendo absolutamente qualquer coisa no espectro de possíveis açoes, exceto trabalhando.

Mas quem é o seu chefe? Se chefe é alguém que pensa ser mais eficiente que o resto da equipe apesar de perder todo o seu tempo pensando numa forma de demitir você de uma maneira que faça parecer que você mereceu a demissão. E já que estamos falando de merecimento, é importante lembrar que aproximadamente menos de 0.006% dos chefes ão redor do mundo alcançaram sua posição por mérito próprio. Puxa-saquismo corporativo e relaçoes familiares com superiores são muito mais responsáveis por posicoes de poder do que competência.

3) E é isso.

A falta de internet me fez perceber melancolicamente que minha vida atualmente é uma monótona combinação de trabalho com convivência doméstica. Pior, meus pais viajaram (de novo) e a namorada praticamente se mudou aqui pra casa, me fazendo sentir o amargo e inevitáve
l sabor da vida de casado.

Pior ainda, da vida adulta.

Cadê aqueles dez anos que estavam aqui? Como é que eles passaram tão rápido?

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

Um comentário \o/

  1. Guilherme Carmona says:

    http://hbdia.com/wordpress/2006/11/07/670/ > o primeiro post que li do hbd. Estranho e quase perturbador ver o @izzynobre quase casado agora