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Postado em 20 December 2006 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Texto publicado há mil anos, quando eu tinha vontade de escrever todo dia.

Canada – a terra do inverno que dura quase o ano inteiro, dos abortos grátis e do hockey no gelo, esporte glamorizado pelo clássico The Mighty Ducks, seja lá qual foi a tradução que a distribuidora deu pra vocês aí no Brasil. Foi basicamente o último filme de alguma expressão que o Emilio Estevez fez; só Deus sabe como o cara esteve pagando as contas desde então.

Apesar de morar aqui há dois anos, jamais havia presenciado uma partida de hockey – a menos que você considere válidas as jogatinas que alguns moleques da vizinhança travam na frente da garagem de casa. Como os moleques não usavam equipamentos de segurança oficiais aprovados pelo INMETRO (um deles nem patins tinha, e simplesmente corria atrás da puck, e um dos jogadores provou-se ser não um jogador, mas um mendigo que passava por perto naquele momento), eu não considerei. Então reitero, nunca assisti uma partida DE VERDADE desse esporte canadense.

(Puck é a “bolinha” do hockey, tá bom. Pra não parecer um esnobe, sacrificarei estilo por funcionalidade e chamarei o puck de “bolinha” mesmo.)

Não que eu esteja resistindo à cultura dos meus anfitriões, que me aceitaram em seu país e me cederam sua(s) mulher(es) com pouca ou nenhuma resistência, tratamento que eu aposto que os noruegueses não me dariam. O lance é que, sendo nerd por natureza, esportes me interessam muito pouco. Nunca fui chegado a “esportes nacionais”, nem quando morava no Brasil. Aqui não seria diferente. Esse negócio de sair correndo atrás de bolas ou pucks nunca foi a minha praia. Aliás, nem de praia eu gosto. Não sei se tem algo a ver com esse texto, mas taí. Falei. Odeio praia.

Mas na semana passada ou retrasada essa situação tomou um Adriane Galisteu-like giro de 360 graus celsius – fui convidado pra assistir um joguinho de hockey onde participaria o ilustre e desconhecido filho de um amigo de trabalho do meu pai. Pensei em recusar, mas eu não estava fazendo nada mesmo® e aceitei a sina.

O jogo era em Toronto, e a longa viagem de Oshawa até lá me deu tempo suficiente de levar um simples Geodude nível 23 ao nível 25, a partir de quando ele muda de nome legalmente para “Graveler” e aprende Harden – que é basicamente inútil. No caminho, a Gótica que eu trazia a tiracolo me explicava um pouco a respeito do glorioso esporte que é o hockey.


Um jogo emocionante

O hockey no gelo – ao menos a modalidade que eu assistiria naquele dia – consiste em uma atividade praticada por garotos de 12 anos que se jogam pra lá e pra cá num ringue de patinação adaptado pro esporte, brandindo tacos de madeira que medem o dobro do comprimento dos seus donos, tentando desesperadamente atrair a atenção dos seus pais por mais de 20 segundos enquanto esses sentam em lados opostos da arquibancada porque estão prestes a se divorciar. Tudo num jogo de hockey de crianças de 12 anos parece cuidadosamente arquitetado pra te fazer feliz. Se você não rir das tentativas frustradas dos pivetes de acertar a “bolinha” (o que frequentemente resulta em pauladas nas pernas e/ou cabeças de quem patina nas proximidades), atente a forma em que os 30 quilos de equipamento fazem os moleques patinarem com tanta desenvoltura quanto um tetraplégico que foi jogado numa piscina com um cofre amarrado nas costas. Há ainda a comicidade não-intencional do momento em que o treinador abre a portinha lateral do ringue e, sem mais nem essa, empurra um moleque pra dentro do jogo sem o menor traço de gentileza. O olhar de desespero no rosto do coitado é a coisa mais surpreendente que eu vi desde o dia em que flagrei uma amiga de sala trepando com o namorado, e por “flagrei” leia-se “o irmão dela me contou“, e por “o irmão dela me contou” leia-se “eu inventei a história para difamá-la na escola“.

Chegamos atrasados no lugar, então não sabíamos em que time o filho do amigo do pai estava jogando. Não fazia muita diferença, porque a habilidade dos times era igualmente inexistente, equilibradamente nula. Havia, se muito, UM jogador que sabia o que estava fazendo, invariavelmente sendo seguido por todos os outros num arrastão infantil mal coordenado visto antes apenas nas praias cariocas.

Havia o time amarelo, que chamarei de Time Amarelo, e o time azul, que chamarei de Time Vermelho. O Time Amarelo trazia estrelas proeminentes do circuito de hockey de crianças de 12 anos, como o irmão daquele outro moleque e o primo do filho do cara que tava organizando o jogo. Já o Time Vermelho, que foi considerado “uma estrela em ascensão no ramo hockeístico” pelo zelador do ringue, é um dos melhores times que já jogaram hockey naquele bairro, naquele exato instante em que apenas dois outros times jogaram.


uma das muitas coisas que eu entendi assistindo o jogo é que eu não entendo absolutamente nada de hockey. Substituições são feitas a qualquer momento do jogo, basta abrir a portinha lateral do ringue e empurrar um moleque pra fora, quer ele seja parte do time, quer ele esteja apenas assistindo o jogo na arquibancada. O jogo é dividido em vários “tempos” de mais ou menos cinco minutos, e o objetivo da divisão entre tantos “meio-tempos” é inexistente. Os jogadores podem passar por trás do gol, o que pra um brasileiro acostumado com futebol parece um desrespeito às leis da física newtoniana. Brigas são perfeitamente comuns, e o máximo de punição que vi ser administrada foi uma expulsão de dois minutos, nos quais o moleque vai pra um lugar chamado time-out box ou algo assim e fica lá sentado de castigo por 120 segundos. Levando em consideração a extrema falta de talento esportivo da molecada, remover um moleque do time era na verdade uma melhoria; cada jogador enviado pro time-out box era um jogador a menos pra se meter no meio dos poucos que sabiam o que estavam fazendo no jogo. Aliás, arrisco a previsão de que, se tirassem todos os jogadores e os substituíssem com tijolos, martelos e outros variados materiais de construção, veríamos um jogo superior.


Apesar de toda a minha falta de interesse no hockey, até eu tive que admitir que um esporte que obriga o goleiro a se fantasiar de Transformer merece respeito. A tarefa do goleiro é imensamente ingrata, porque apesar de que ele usa umas luvonas imensas e protetor de testículos cuidadosamente fabricado em Taiwan, ele é basicamente um alvo humano colocado na frente do gol, à mercê dos outros moleques de pernas finas como o da foto que provavelmente não resistirão à oportunidade de descontar suas frustrações juvenis no coitado.


A pivetada aguarda ansiosamente sua vez de ser empurrados pra dentro do ringue. Reuters

Lá pelo meio do jogo, quando finalmente entendi que a menos que um meteoro caísse dentro do ringue e matasse algumas das crianças jogando nada de digno de nota aconteceria, voltei minha atenção pro episódio de South Park que eu trazia no palm. Infelizmente, eu esqueci de trazer meus fones de ouvido, e assistir um vídeo em meio à gritaria ensurdecedora do inferno que se estabelece num evento dessa natureza é uma tarefa pra seres sobre-humanos. Desliguei o palm e me vi obrigado a assistir o jogo até o fim. O amigo de trabalho do meu pai virou-se pro meu lado, apontou pra um dos moleques e disse “olha isso, olha isso!”, visivelmente animado. Nada aconteceu por uns três minutos, e o jogo acabou. No zero a zero
.

Talvez ele estava tão impaciente pelo fim do jogo quanto eu.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)