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Postado em 2 January 2007 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Aprendi uma palavra nova hoje. Nova, bonita e complicada.

Schadenfreude“. Tente pronunciar isso aí. Sério, tente mesmo. Ninguém tá olhando, não.

Eu acho que é XADENFRÓIDE, mas não tenho nenhum falador nativo da língua pra conferir a pronúncia. É uma palavra alemã, a propósito, então acho que isso significa que você tem que falar em forma de um berro rápido e seguro de si, ao mesmo tempo que ergue a palma da mão direita em direção ao céu. A palavra é incomum, mas o sentimento não poderia ser mais popular.

Segundo o Google, que jamais me falhou, schadenfreude é a palavra que os germanos dão ao sentimento de gozar diante do conhecimento de infelicidade alheia. Saca quando aquele seu amiguinho com uma namorada gostosa toma um chifre agressivo e violento, e você não consegue conter a animação e o sorriso contagiante? Então.

Haha, vou te contar, se há uma força controlando este universo e não é o tal do Karma, é a Ironia. Quem mais poderia ter incluído em seu vocabulário uma palavra exclusiva pro sentimendo sádico de diversão diante da desgraça de outros? Que outro povo teria essa mórbida idéia? Leave it to the Germans.

O motivo pelo qual essa palavra tem tanta relevância hoje é porque eu pude, mais uma vez, experimentar o schadenfreude em todo seu explendor. Foi o seguinte.

Tenho essa ex-amiga, né. Chamaremos-na de Ashlyn – o que pode me colocar em considerável problema já que ela, apesar de gringa, frequentemente dá uma checada no HBD via cortesia od BabelFish. Acontece que, dadas as conjunturas contemporâneas, os conflitos já passados e minha posição geográfica atual, eu duvido muito que ainda exista entre eu e ela algum resquício daquilo que poderia ser confundido com leve amizade. Pra situar meus queridos leitores, Ashlyn é a mesma pessoa que, em janeiro do ano passado, destruiu meu Palm TE2. Por isso “ex-amiga”.

Ashlyn é em exemplo perfeito da sub-cultura que os gringos chamam carinhosamente de “white trash”. É difícil contextualizar o conceito de white trash pra brasileiros porque nosso país é composto quase que essencialmente de all-around trash, não existe uma linha clara que nos divida como há aqui fora. Basta explicar que ela é gorda, gótica, feia, anda por aí usando maquiagem e vestuário que faria alguém pensar que ela é uma figurante de um clipe do Nightwish, vive pulando de emprego vagabundo pra emprego vagabundo, mora num apartamento absolutamente fodido, JOGA LIVE ACTION RPG DE LOBISOMEN*, acredita ter o espírito de uum lobo preso em seu corpo, lê tarot e pensa praticar wicca. Digo “pensa” porque wicca é uma religião inventada arbitrariamente nos Estados Unidos na década de 70 e que não tem absolutamente nenhum conteúdo realmente tradicional nem significado profundo nem nada. É uma religião manufaturada pela mídia supostamente underground americana da cena setentista, composta por hippies que tomaram tanto ácido que agora pensam estar em sintonia com a natureza e tal (se bem que isso já é pré-requisito de ser um hippipe, mas enfim).

Em outras palavras, Ashlyn é um verdadeiro lixo humano, um retrato preciso de tudo aquilo que eu odeio nos participantes de sub-culturas. “Hey olhe pra mim, sou punk/gótico/metaleiro/sei lá o que! Sou estritamente único no modo de copiar um comportamento pré-estabelecido e decido minhas atitudes de forma absolutamente livre de preconceitos e padrões, contanto que elas se encaixem no arquetipo que eu estou imitando no momento”. Argh.

E vocês estão se perguntando “mas por que diabos você tinha amizade com este traste”? O que me levou a ser amigo da Ashlyn é o mesmo que levava alguém a come-la – falta de opções. Ela morava perto do meu apartamento em Oshawa e eu não tinha amigos na redondeza, todos moravam perto da casa da namorada. Então eu ia mantendo uma amizade superficial com ela, tomando o cuidado de evitar ser visto com a turminha gótica/RPGista dela, e principalmente qualquer tipo de proximidade desnecessária. Aliás, esse ímpeto de evita-la só aumentou quando, durante uma festa, o bolo de banha confessou ter interesse em um menage comigo e a patroa. Cruz credo.

Sim, mas onde o schadenfreude se encaixa nisso, não é mesmo? TOU XEGANDO LAH RAPÁ.

Após a Ashlyn ter usado seu centro de gravidade pra atrair meu palm em direção ao seu pé e assim provocar sua morte prematura, minha visão dela evoluiu de “aquela menina gorda metida a esotérica com quem eu ‘hang out’ de vez em quando caso minha internet dê problema em um dia em particular” pra “um absoluto desperdício de células-tronco que poderia muito bem ter virado um fígado pra alguém que precisasse desesperadamente de um transplante”. Eu já tinha uma visão pouquíssimo lisonjeiro da menina, após o incidente eu realmente passei a evitá-la como quem evita lamber maçanetas de banheiros públicos num bairro particularmente sujo na Índia. E minha “amizade”, já superficial, deixou de ser. Se alguém mencionava a menina, eu dizia “ah, eu a conheço”, e não “ah, amiga minha”.

ENTÃO.

A namorada aparece no MSN e papo vai, papo vem, ela me confidencia que o bolo de banha havai arrumado um emprego muito bom recentemente. Sendo o saco de tecido adiposo uma highschool dropout (ou seja, aquele tipo de vagabundo bem vagabundo mesmo que nem chega a terminar o segundo grau) e seu QI com muita sorte arrisca entrar nos dígitos duplos, eu não conseguia imaginar nenhuma ocupação que ela pudesse considerar lucrativa. Talvez prostituição, mas teria que ser um tipo de prostituição alienígena em que o sujeito paga à meretriz para não fazer sexo com ele, e ao invés disso correr na direção oposta o mais rápido possível.

“Ela tá trabalhando numa empresa de finaciamento de não sei o que e não sei o que mais”, disse a namorada. Eu estava jogando Paciência metendo o dedo na tela (a melhor coisa a se fazer com um monitor touchscreen, esnobei) e não prestei atenção na explicação crucial.

A namorada então disse a palavrinha mágica. “Primerica” era o nome da empresa.

As engrenagens cerebrais rodaram com violência. O nome me era familiar. Uma googleada rápida e eu lembrei de tudo – Primerica é uma “empresa” MLM, ou seja, multi level marketing.

ESQUEMA DE PIRÂMIDE, sabe qual é? O intuito da compania não é vender nada nem prestar serviço porra nenhuma. Ao ser contratado pelos caras, a sua missão principal é contratar o máximo número possível de otários pra se “afiliar” à empresa abaixo de você. Aí você ganha uma porcentagem das vendas que eles fazem. Aí eles chamam mais gente e passam a ganhar uma porcentagem do que esses terceiros ganham.

Se você sabe alguma coisa sobre matemática básica, compreenderá que não existem pessoas suficientes no planeta pra que esse modelo econômico funcione satisfatoriamente como os caras da empresa prometem.

E a Ashlyn? Agentes duplos que dividem apartamento com ela me informam que, apesar de ter pago 200 dólares por “sessões de treinamento” e estar trabalhando lá há uns bons meses, ela arrecadou exatamente 0 dólares e 0.1 centavos. Além de não conseguir vender nada do que seja lá o que a Primerica tenta empurrar nos cidadãos de bem, ela se auto-ostracizou em seu grupo de amigos por insistir doentiamente que eles descolem os 200tão pra entrarem nessa super empresa com excelentes oportunidades.

O sentimento de alegria perante a desgraça da coleguinha foi tão grande que eu soube nessa hora exata que essa sensação maravilhosa TINHA que ter um nome próprio. E os alemães aparentemente pensaram a mesma coisa.

Isso que tu ganha por quebrar meus brinquedos, gorda fedorenta do inferno.

*Como bom nerd eu já pratiquei o saudável esporte do RPG. No entanto, Live Action RPG é apenas deplorável. É um bando de maluco realmente usando roupas que seus presonagens us
ariam e andando por aí agindo como eles agiriam. É tipo um monte de adulto brincando de faz de conta.

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About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)