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Postado em 24 February 2007 Escrito por Izzy Nobre 2 Comentários

Já faz mais ou menos umas três semanas que estou morando com minha adorável namorada, e como eu imaginava a convivência frequente trouxe bastante mudanças no nosso relacionamento. Como mencionei anteriormente, estar debaixo do mesmo teto por hiperbolicamente 24 horas por dia trouxe deveres e liberdades, como por exemplo o dever de abdicar cada centímetro quadrado do cobertor, o dever de perdoar ocasionais cotoveladas quando ela se mexe demais enquanto dorme, e basicamente o dever de ter que admitir culpa em literalmente qualquer briga que acontecer entre nós dois de hoje até o dia em que o sol virar uma supernova e a radiação da combustão de hidrogênio consuma totalmente a atmosfera do nosso planeta, o que tornará discussões extremamente curtas porque ninguém consegue simultaneamente prender o fôlego e exigir que o assento da privada seja devolvido à posição original pré-urinada. Pera, eu tinha mencionado liberdades, né? Além da liberdade de não apenas emitir gases na presença da namorada mas também encontrar valor cômico nesta atividade, não há muito que você possa fazer agora que já não podia antes.

Uma outra diferença bastante expressiva é o surgimento mais claro de limites. E assim como as funções matemáticas de mesmo nome que estudei na faculdade, os tais limites estão me dando uma surra e eu gostaria de pessoalmente assassinar a pessoa responsável pela sua criação. Isso é, eu desejava isso antes de descobrir que funções limites foram um presente de Isaac Newton para a humanidade. O veiaco foi também o inventor da gravidade, uma “teoria” que provocou a perda de um dente meu quando eu tinha a tenra idade de três anos de idade. A questão é que o cara bateu as botas há dois milhões de anos, (o que me impossibilita de extrair devida vingança) mas não sem antes simultaneamente revolucionar a ciência moderna E infernizar minha vida.

Taquepariu, como é que eu começo um texto falando sobre vida em casal e no segundo parágrafo estou dissertando sobre meu desejo de matar Isaac Newton? Minha professora de redação teria um chilique atômico, mas por outro lado eu já me vinguei dela passando pra não apenas um mas DOIS vestibulares que exigiam redações e usando vírgulas de forma indiscriminada sempre que escrevo qualquer coisa. Basicamente fiz tudo ao contrário do que ela sempre me ensinou e não apenas me vi vitorioso em dois testes de seleção pro ensino superior, como me sagrei um blogueiro de sucesso comparável apenas a um ex-participante de dois Big Brothers atrás e ainda por cima achei vinte e cinco centavos ontem no chão quando estava voltando pra casa do trabalho. “Fugir do tema” meus ovos, sua desgraçada.

Voltando pros limites, é o seguinte – quando o casal mora junto, existe um misto de “o que é meu é seu, amor” com “pera lá, essa porra aqui é minha caralho, não é porque tá no ‘seu’ quarto que você pode meter a mão sem me pedir seu filho duma puta, você não era assim quando começamos a namorar. Larga meu braço! Largue meu braço senão eu vou gritar! Puxa o gatilho se tu for homem!”. Naturalmente, esses conceitos conflitantes aparecem com frequência e é necessário um equilíbrio entre os dois. Quando é uma boa hora pra manter a individualidade e fazer questão de certas posses, e quando é mais importante manter a harmonia do casal e abrir mão de certas coisas? Bom, se você souber, deixe sua mensagem nos comentários, porque eu adoraria lê-la.

Normalmente estou muito ocupado jogando videogame ou batucando grandes sucessos de Ray Coniff na mesa da cozinha com duas canetas da Unimed que apareceram aqui em casa misteriosamente, e esses problemas ficam em segundo ou terceiro ou oitavo plano. Mas de vez em quando me vejo diante desse dilema, preso em uma situação da qual não posso escapar. Muito similar a quando Han Solo estava preso em Carbonite, mas não há nenhuma Leia pra me libertar. E eu acredito que meus amigos seriam mais inteligentes ao invés de bolar um plano que basicamente se limitava a “mandar um Jedi sem seu sabre de luz pra PEDIR POR FAVOR que Jabba libertasse seu prisioneiro”. Que diabos, George Lucas?

E ontem esse dilema me encarou nos olhos mais uma vez.

Achei ontem uma barra de chocolate na dispensa. Uma marca que minha família não costuma consumir. A marca favorita da minha namorada.

O chocolate realmente pertencia à garota, que me anunciou orgulhosa a respeito da compra dele assim como costuma festivamente me informar sobre miríade de eventos insignificantes, como por exemplo comentários detalhados sobre o tipo de brinco que uma amiga de trabalho estava usando na tarde anterior ou coisas do gênero.

A barra de chocolate me encarava, tentadora, praticamente me desafiando. “Me coma se tu for homem! Ou vai ficar com medinho da namorada chilicar?” E meu estômago, que estava do lado dela, não custou a vencer meu senso de honestidade e justiça. Apanhei-a e trouxe aqui pra baixo.


Repousei a barra de chocolate ao lado do mouse e comecei a pesar que tipo de repercussão o meu crime causaria. Eu já estava até vendo – a namorada chegaria em casa cansada do trabalho, espalharia seus pertences da melhor maneira que pudesse cobrir cada centímetro quadrado do nosso quarto, e após decidir que havia enfeitado-o de maneira consistente com a aparência que nosso quarto geralmente toma após sua chegada em casa, ela se dirigiria à dispensa pra pegar sua guloseima.


Ela não encontraria sua barra de chocolate. Confusa, ela checaria atrás do saco de arroz ou da caixa de sucrilhos. Nada. Ela empurraria os sacos de macarrão pra fora do caminho, examinaria o cantinho das caixas de gelatina, até desenvolver a teoria de que o chocolate teria deslizado pela grade de metal que faz a vez de prateleira na dispensa. Tal teoria seria desmanchada quando ela verificasse que a prateleira inferior trazia nada além de latas de café em pó, sacos de pão com validade duvidosa e alguns pacotinhos de orégano.

E ela perceberia consternada que seu chocolate foi roubado.


A identidade do meliante não poderia ser mais fácil de descobrir. Meus pais não costumam comer chocolate muito menos roubado. Trunks nasceu com um profundo senso de respeito pela propriedade alheia, então ele seria também riscado da lista de suspeitos. E tem o Kevin, coitado.


Seu delicado organismo de um ano de idade certamente não conseguiria lidar com a digestão do chocolate e ele provavelmetne explodiria numa chuva de diarréia caso ele consumisse o doce da namorada.

Não adiantaria nem mentir. Em menos de dez segundos ela saberia que eu peguei o Oh Henry dela.


com a guloseima já quase pela metade (a outra metade encontrava-se manchando minha barba, camiseta e nariz), começo a bolar um plano de escape. Dizer que não sabia que o chocolate era dela seria um apelo imediatamente desconsiderado, uma vez que Oh Henry é a marca de chocolate favorito dela. Alegar desconhecer esse fato apenas me complicaria mais – que diabo de namorado de três anos sou eu se não sei sequer identificar a sobremesa favorita da minha mulher**?


Tentar se declarar inocente por ignorância não seria uma saída viável. Não, eu precisaria enfrentar a parada de frente se quisesse não dormir no sofá do porão nas próximas noites. Pensei em aplicar a famosíssima VIRADA DE JOGO. Você sabe, a dobradinha “dribar a culpa e depositá-la sobre o acusador“. Eu já tava até pensando na minha defesa – algo nas linhas de “porra, eu sempre compro bobagens saborosas pra você, e no dia que quro comer um chocolate seu, é essa confusão toda?”

É aquela clássica tática que as mulheres dominam com maestria, mas que é quase alienígena aos machos. Eu juro pra você, às vezes estou diante de uma situação em que eu tenho quase 89% de certeza que eu estou do lado certo. Antes que eu possa explicar pra ela o cálculo que me leva a tanta confiança a respeito da minha inocência na situação, ela injeta uma retórica extremamente bizarra no dialógo e EU ACABO TENDO QUE PEDIR DESCULPA POR ALGO QUE ELA FEZ. Incrivelmente, os poucos homens que tentam apelar pra filosófica virada de mesa acabam invariavelmente sendo taxados de brutos ou arrogantes e têm como destino o sofá do porão, que é justamente o local que eu estava tentando evitar to begin with.

Não, não haveria forma de esquivar-se da punição. O advogado em minha mente jogou as mãos pro alto, jogou o paletó às costas com a mão enquanto acenava com a outra, me abandonando na situação. Então, um estalo – e se eu confortasse a namorada me comprometendo a ressarcir o dano? Um Oh Henry custa não muito mais que um dólar canadense, um valor com o qual até mesmo alguém que não trabalhava a dois meses pode arcar. Vasculhei a carteira e as almofadas do temido sofá do porão, sem sucesso – a importância de um dólar canadense era tão intangível no momento que poderia mesmo até ser um milhão de francos suíços. E nem fodendo que eu vou me submeter à indignidade de até o mercadinho da esquina debitar um chocolate de um dólar no meu cartão. Bom, antes isso que dormir num sofá de dois lugares no porão.

E isso é a minha síntese sobre a vida de casal – você precisa comprar chocolates pra namorada pra garantir que poderá dormir na sua própria cama.

* Levem em consideração que este texto foi escrito por um ex-estudante federal de Bacharelado em Física. Ou seja, sim, eu sei que a gravidade não foi “inventada” por Newton, muito obrigado pelos milhões de comentários que eu sei que vou receber por causa disso.

** “Mulher” no sentido meramente casual, não legal. Ainda não há uma aliança neste dedo que vos digita, não se empolguem.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

2 Comentários \o/

  1. Nath says:

    O chocolate realmente pertencia à garota, que me anunciou orgulhosa a respeito da compra dele assim como costuma festivamente me informar sobre miríade de eventos insignificantes, como por exemplo comentários detalhados sobre o tipo de brinco que uma amiga de trabalho estava usando na tarde anterior ou coisas do gênero.

    Pq será que a gente ama fazer isso?
    Hum…

  2. Pedro Ivo says:

    Porra, as partes que tu fala da dúvida entre comer ou não o chocolate combinam PERFEITAMENTE com a música tema do Magneto no X-Men First Class. Faz o teste aí pra ver, Izzy.