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Postado em 14 April 2004 Escrito por Izzy Nobre 3 Comentários

Antes ter ido morar em São Luís, eu ouvia muito falar que o português falado na ilha era o mais gramaticalmente correto do Brasil. Minhas professoras de português sempre diziam que os maranhenses falavam sem uso de expressões dúbias, ou estrangeirismos, ou qualquer coisa desse tipo. Eu acreditei. Então me mudei para a capital maranhense em 2000 e percebi o quanto elas estavam erradas. Acho que elas nunca foram pra lá.

Expressões maranhenses que você ouve pelas esquinas de São Luís e que chegam a irritar o ouvido:

[ “Dá-lhe” ]

Dá-lhe” significa “dar a ele”. Há algum tempo, mesmo em Fortaleza, já havia ouvido alguém falando “dá-lhe uma porrada!“, no sentido de incitar ao ato nefasto de bater em seu próximo. Tudo bem. Aí tá certinho (principalmente se o cara mereceu apanhar). O problema é que, para os maranhenses, “dá-lhe” adquiriu o significado de “bater“.

Não raro você ouve alguém dizendo “vou te dar-lhe!“, numa grotesca e erradíssima repetição de pronomes oblíquos (te e lhe) que arranham meus tímpanos. Por se tratar de uma expressão coloquial, ninguém parece saber escrever “dá-lhe” de forma correta. Então, pra avacalhar de vez, em canais maranhenses de IRC o pessoal escreve “dáli” ou “dale“. Como se não bastasse o mau uso da expressão, eles ainda escrevem errado. Dá pena.

[ “Banhar” ]

Quando estão se sentindo sujos, os maranhenses dizem que “vão banhar“. Mas banhar o quê? O gato, o cachorro, a bunda? Como vocês devem se lembrar das aulas de português da quinta série, banhar é um verbo transitivo. Isso significa (para você que é maranhense e está lendo este blog) que ele por si só não passa uma idéia de ação completa. É como “dar“. Se você diz “eu dei“, eu ficarei na mesma, pois você nao transmitiu informação alguma. A menos que você seja viado, mas aí é outra história…

Enfim, o mais correto seria “vou banhar-me“. Ou então “Vou tomar banho“, como dizem o resto dos brasileiros. Ou então apenas entre no banheiro levando uma toalha, todos entenderão a mensagem.

[ “Olhar” ]

Os habitantes da terra sagrada do Coroné Sarney e sua família não dizem “eu VI você naquela festa“, como nós, amantes da língua portuguesa. De uma forma interessantemente peculiar, eles dizem “eu TE OLHEI você naquela festa“. Bem, não acho dogmas gramaticais para justificar minha implicância com esse modo de falar. Mas que é escroto, é.

[ “Pra ti (insira aqui um verbo)” ]

Essa é a campeã. “Pra ti” seria equivalente a “pra você“. Mas acontece que “ti” é um pronome oblíquo, e pronomes oblíquos não conjugam verbos – apenas os pronomes pessoais. Então, num arroubo de falta de consideração pela língua-mãe, os maranhenses cometem esse tipo de infâmia:

Levaram o CD novo do Blink 182 para festa, só pra ti escutar”

Não sei o que é pior; a escrota estrutura da frase ou poluir os ouvidos dos participantes da festinha com o punk-rock de botique.

“Ei, eu trouxe esse bolo pra ti comer”

Veja que perigo! A pessoa que pronunciar essa frase perto de você o fará pensar que ela o presenteia com o confeito numa tentativa de obter favores sexuais.

Ou, aloprando de vez:

“Banhei apressado e vim correndo para a festa só pra ti olhar minha roupa nova”

Nojento. Nojento. Nojento.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

3 Comentários \o/

  1. UIARACÍ says:

    Acontecimento semelhante. Minhas professoras de Português também diziam a mesma coisa.Mudei para São Luís em 1980 e também fiquei decepcionada. No livro “A língua de Eulália” e “Preconceito Linguistico” os autores consideram como mito. Meu ex-marido (maranhense) ficaria com muita raiva ao ler isso.
    Abraços,
    UIARACÍ

  2. Ricardo says:

    Cara eu moro aqui a anos, vejo muito as palavras que você falou, mas não o modo que foram empregadas nas frases, “eu TE OLHEI você naquela festa“, você ta de sacanagem né? Em 19 anos vivendo aqui nunca vi alguém empregar por mais errado que seja “Te olhei” desse jeito, e etc, o resto é tipo as gírias toscas de favelados do sul, em que só a maioria que fala são digamos que do “gueto”.

  3. Arthur Nogueira (direto da ilha da Rainha da morte São Luis) says:

    Pouquisimas são as coisas boas qui no maranhão é super atrasado calor é infernal e eu acho.Eu acho ñ tenho certeza que vivemos em uma colonia porque o poder aqui é passado de pai pra filho as “muler” daqui ñ são lá essas coisas e olha que eu sou classe media em!!pior a capital tá cheio de “cabra” do interiozinho as pessoas interesantes tão tudo caindo fora!!