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Postado em 31 May 2007 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

Pare um pouco e pense aí na sua própria vida. Existe alguma coisa que você esteve fazendo constantemente pelos últimos doze anos? Bater punheta não conta.

Eu comecei a usar óculos quando estava na quarta série, com uns 9 ou 10 anos de idade, não lembro agora. A vantagem inicial de ter problemas de visão (meu oftalmologista predisse corretamente que a minha visão fodida poderia ser a causadora do meu desinteresse na sala de aula e das constantes visitas à sala da coordenação, o que me deu algum senso de impunibilidade; eu agora era a vítima) foi rapidamente esmagada sob o peso das responsabilidades e cuidados extras que você precisa ter com seu par de óculos. Não surpreendentemente, aquele meu primeiro par de óculos foi quebrado em menos de um mês após a compra, graças a uma sensacional bolada extremamente bem posicionada no meio do meu rosto.

Eu chorei de medo ao voltar pra casa, imaginando a punição que seria delegada às minhas nádegas via cinto do pai, aí descobri que meus progenitores sabiam o filho que tinham e não gastaram muito mais de 100 reais na armação mais vagabunda que a ótica oferecia. Lembrando que isso era em 1994, dólar valia o mesmo que o real, era aquela era mágica quando a classe média brasileira vivia como reis vitorianos e mandavam os filhos pra Disney como presente de Natal/formatura/sei lá o que (e passavam os seguintes 45 meses pagando a conta do cartão de crédito).

Então.


Este é meu óculos. Percebem como as pernas dele não tocam a mesa ao mesmo tempo? Poisé, o eixo do negócio tá absolutamente fodido, sem qualquer chance de reparo. Além disso, aquele familiar limo verde que se acumula nos cantinhos daquela pecinha que apóia os óculos no nariz praticamente mudaram a cor de toda aquela área. Eu ACHO que aquelas pecinhas eram transparentes quando eu o comprei.

Como eu agora estou dando alguma relevância pra minha aparência – e finalmente tenho a autonomia monetária de financiar tais luxos -, resolvi aposentar meus óculos de quase cinco anos de serviço. Pra você ter uma idéia da desgraça que esses óculos velhos devem estar causando na minha visão, é recomendado que você faça exames oftalmológicos ao menos uma vez por ano. Estes óculos que você vê acima foram feitos baseados numa prescrição ainda mais antiga.

Há um consultório oftalmológico bem do lado do restaurante onde eu trabalho, então fui lá tirar uma nova receita pros óculos novos. Pra minha satisfação, a tecnologia oftalmológica mudou muito nos últimos cinco anos, e não é mais necessário jorrar colírio nos meus olhos pra dilata-los antes do exame (e ao mesmo tempo me tornando virtualmente cego, igual aquela cliente do outro dia, pelo resto do dia).

Ao entrar no consultório, tanto as secretárias como o doutor me cumprimentaram usando meu nome e tudo, antes mesmo de ler minha ficha. Eu descobri mais tarde que eles almoçam no restaurante onde eu trabalho diariamente, mas eu não lembrava dos caras. Enfim, fiz a porra do exame, e pedi informações sobre lentes de contato. Após usar óculos por doze malditos anos, eu resolvi que já tive mais do que merecia. O doutor me deu uma porrada de conselhos a respeito da mudança, marcou uma segunda consulta pra que eu testasse as lentes, e eu me mandei.

Segunda feira eu voltei lá pra aprender a lidar com lentes de contato. Pra um nerd fascinado por tecnologia moderna como eu, o conceito de um artefato gelatinoso que é aplicado diretamente no olho e corrige defeitos de visão é uma idéia absolutamente milagrosa. Sentei lá na cadeirinha na frente de um espelho e a “treinadora”. Começou a me explicar os pontos principais a respeito de lentes de contato – que eu preciso sempre limpar as mãos profusamente antes de lidar com elas, que o soro em que elas flutuam quando estão guardadas precisa ser trocado diariamenet, yadda yadda yadda.

Aí a sessão de treinamento tomou uma curva em direção ao bizarro quando a mulé me deu as lentes e perguntou se eu me sentia a vontade manipulando meus olhos. A pergunta exata, pra que a expressão não se perca na minha tradução, foi “how confortable are you about handling your own eyes?” Na verdade não lembro se ela usou touching ou handling, mas a idéia é ainda a mesma.

Que porra de pergunta é essa? Há alguém no mundo que realmente tem isso como seu hobby, ficar futucando as próprias córneas? Como se eu estivesse no bar do seu Oliveira no sábado a tarde assistindo o jogo do Ferroriávio, e de repente pensasse “sabe o que tornaria esta experiência mais prazerosa? Se eu começasse a cutucar meu próprios olhos! Sim, isso seria extremamente confortável.”

Eu dei uma risada pra mulher, imaginando a piadinha que eu faria no blog a respeito da pergunta dela, e disse que nunca antes foi necessário manipular meus próprios olhos. Ela me deu as lentes, explicou basicamente como aplicá-las, e me deixou ao meu próprio destino, tentando enfiar aquelas coisas nos meus olhos.

A lente de contato, por mais sensacional que o conceito seja do ponto de vista tecnológico, vai contra um princípio básico mantido pelos seres humanos desde a Idade da Pedra – se algo está tentando adentrar suas pálpebras, estas se fecharam quase que imediatamente. Por mais que você tente resistir, o reflexo é absolutamente automático. E por isso, eu tenho que literalmente segurar minhas pálpebras, mantendo-as abertas enquanto empurro a parada no meu olho. O olho, coitado, não entende por que está sendo submetido a tal castigo e luta desesperadamente, tentando proteger a própria integridade. E lá tou eu, puxando meus cílios pra cima, com o olho totalmente avermelhado, tentando fazer com que a porra da lente grudasse no meu globo ocular.

Após umas quarentas tentativas frustradas, finalmente consegui anexar a primeira lente ao meu olho direito. Com um pouco menos de esforço, coloquei a segunda lente. E eu experimentei uma sensação que, de tão desconhecida pra mim a essa altura do campeonato, pareceu absolutamente estranha – eu consegui pela primeira vez em doze anos ler algo escrito numa parede sem a necessidade de apertar os olhos ou apelar pros meus óculos. Se você usou óculos por tanto tempo quanto eu e algum dia tentou lentes de contato, você entenderá exatamente do que estou falando.

E assim dei mais um passo que me distanciou um pouco mais da pessoa que eu era há alguns anos. Ainda estou no período de adaptação das lentes, ou seja, só posso usa-las por períodos curtos pra que os olhos se acostumem e tal, mas eu definitivamente não quero voltar a alternativa antiga.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

Um comentário \o/

  1. Mateus Luiz says:

    Ué, o que aconteceu com “definitivamente não quero voltar a alternativa antiga.”?? auhauhaahauh