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Postado em 28 July 2007 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

Vamos ver aqui. Qual dos trabalhos abaixo seria o mais improvável para mim?

1) Balconista de loja de games

2) Beta tester de gadgets

3) Agente de segurança de uma das maiores empresas internacionais do ramo

Se você pensou no item três, obrigado por me parabenizar na minha mais nova empreitada trabalhística.

Não tou brincando. Cansado de lidar com moleques de 15 anos e seus intermináveis e típicos dramalhões colegiais que eu já havia deixado pra trás há anos, saí à caça de uma ocupação menos estressante e talvez mais lucrativa.

E não demorou nada pra arrumar um trampo melhor. Após ouvir a recomendação de um amigo que trabalha nessa empresa há alguns meses, mandei meu sensacional currículo (vendedor de picolés E lavador de pratos!) por email e cruzei os dedos. Dois dias depois eu tava de entrevista marcada.

Como esse seria meu primeiro emprego numa empresa mais séria e reconhecida, resolvi vestir meus melhores trapos. Após moldar o cabelo cuidadosamente com o gel roubado do meu irmão e escovar os dentes duas vezes, percebi que nenhuma quantidade de asseio poderia recompensar o fato de que eu meço 1,71m e peso uns, no máximo, 60 quilos. Ou seja, se a segurança ficasse dependendo de mim, seja lá o que eu deveria estar, hmm, “segurando” estaria fodido.

Acontece que o mercado de trabalho em Alberta, a província que eu moro, é terrivelmente dependente. A área oeste do Canadá é meio deserta e muito fria, então aconteceu há algumas décadas uma migração em massa pra área mais desenvolvida (especificamente, Ontario). Com o avanço da indústria petroleira por aqui, mão de obra se tornou extremamente difícil de conseguir, já que todo mundo se mandou pro leste canadense. Por causa disso, empregos aqui aceitam praticamente qualquer pessoa disposta a trabalhar, e oferecem salários invejáveis.

E por causa disso minha complexão medíocre não foi um problema. A “entrevista” se resumiu à minha contratadora perguntando que horários eu gostaria de trabalhar. Escolhi uma agenda qualquer, e em seguida me mediram pra que eles pudessem me dar um uniforme. Walkie talkie, cassetete, colete a prova de balas (!) e aparentemente até ALGEMAS me serão dadas quando eu aparecer pro meu primeiro turno. O que é certamente uma melhoria do meu uniforme antigo, que incluia um horroroso boné com logotipo do Wendy’s e uma deprimente redinha de cabelo que eu felizmente despistei graças ao corte da minha juba.

Mas as coisas não são TÃO simples assim; antes de embarcar na minha nova empreitada trabalhística, muita burocracia se fez necessária. Pra começar, me fizeram assinar quase uns vinte contratos, e eu não estou brincando. Tinha de tudo – termo de responsabilidade em relação ao uniforme, cláusula de conduta (quatro páginas, com assinatura no fim de cada uma), uma via que eu precisava assinar como forma de admitir o risco que o trabalho naturalmente envolve, um monte de merda. Assinar tanto contrato me fez lembrar o quanto odeio e sou incapaz de reproduzir uma rubrica satisfatória. A falta de hábito com a escrita cursiva roubou toda a minha capacidade de escrever duas assinaturas semelhantes. Cada vez que assinava o papel, meu nome parecia ter mudado. Bah.

Após toda essa merda, me foi revelado que eu precisaria pegar um trem até a delegacia de polícia pra arrumar uma declaração de “nada consta”, acho que esse é o nome em português. Basicamente, a empresa não quer contratar nenhum ex-assaltante de banco ou coisa que o valha, então eu tive que ir até os gambés, esperar na fila, jogar dez minutos de Pokemon Diamond, falar com a policial que ia tratar do meu caso, tirar minhas digitais, e novamente assinar a caralhada toda. COmo eu morei em outra província há pouco tempo, os 5-0 teriam que mandar todos as requisitações pra polícia de Ontário, pra eles confirmarem que lá eu também fui um bom garoto, com ficha limpa.

Depois de todo o procedimento…

“Ok, tudo certo. Agora, você se sente à vontade em jurar sobre a bíblia que todas as informações que você deu nesse papel são verdadeiras?”

Parei por um segundo, encarando a mulher sem nenhuma expressão facial, piscando.

“Meio medieval isso, ein?” arrisquei descobrir o senso de humor da puliça.

“Ahn?”

“Bom, eu acabei de te dar várias informações que permitem a polícia de Alberta me localizar. Ou seja, não é como se eu pudesse inventar um monte de mentiras e a coisa sairia por isso mesmo. Essas informações serão averiguadas nos arquivos de relatos policiais, pra tentar encontrar instâncias envolvendo meu nome ou endereço. Os resultados serão enviados digitalmente à polícia do outro lado do país, onde o processo será repetido. No meio de todo esse procedimento tecnologico você me pede pra pôr a mão em cima de uma bíblia e JURAR que eu estou falando a verdade?”

Ela deu um sorrisinho (o que me deixou aliviado, afinal dar aquela rant poderia ter me custado no mínimo bastante má vontade dos caras se eles tivessem um senso de humor menos saudável) e explicou que têm que perguntar mesmo assim.

“Bom, eu sou ateu, então não adian…”

“Ateu?” ela repetiu, como se não conhecesse o significado da palavra.

Ah meu deus, agora pronto. Essa porra vai virar debate teológico.

“É, não acredito em nenhuma divindade. Eu posso jurar na bíblia se você quiser, mas não significará nada pra mim e não representa algo tão solene que uma mentira dita sobre ela me enviaria diretamente pro inferno”. Olhando pro teto da . Meio medieval”, repeti.

Ela riu de novo, pegou a caneta e fez uns rabiscos no meu documento.


Ao invés de “make an Oath” (“faz um juramento”), ela resolveu reescrever a frase usando “solemnly affirm and declare”. Afirma solenemente e declara.

Voltei correndo pra empresa, entreguei a papelada, recebi meu uniforme e voltei pra casa feliz porque não precisarei mais trabalhar com um bando de moleques pré-adolescentes por muito tempo.

Mas com eles vão-se também os nuggets de graça. Não dá pra ganhar sempre.

Ah, e o salário? 50% maior do que o do Wendy’s. Com cobertura médica (o que o Wendy’s não oferecia), folgas e férias pagas, e o direito de andar por aí com um colete a prova de balas.

Moving up, motherfuckers!

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

Um comentário \o/

  1. Renan de Souza says:

    não tem nenhum comentário aqui??