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Postado em 28 August 2007 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

Entretenimento é sem qualquer dúvida a indústria mais poderosa do planeta. O ramo é um gigante econômico que emprega bilhões de pessoas, envolve toda a nossa sociedade contemporânea e praticamente define o estilo de vida ocidental. Cinema, literatura, música, esportes, videogames, sexo e drogas são apenas alguns dos itens que ajudam a movimentar trilhões de dólares ao redor do planeta todo santo dia, com a mesma finalidade – diluir um pouco a concentração de momentos insuportáveis no nosso cotidiano, tornando cada dia mais ou menos aguentável e reduzindo a quantidade de suicídios a um número aceitável.

Os seres humanos estão dispostos a pagar qualquer quantia monetária necessária pra se distrair, ainda que apenas por alguns instantes. Não é à toa que a cada nanossegundo um valor equivalente ao PIB de toda a Europa + 68 centavos é gasto em alguma faceta do mercado do entretenimento. Olhe pra você mesmo – você está lendo um blog, ouvindo mp3, baixando um screener de Transformers e planejando ir ao shopping mais tarde pra comprar um cinto de rebites ou um CD do My Chemical Romance. Entretenimento ocupa boa parte da nossa atenção, e já tanto já faz parte das nossas vidas que você talvez nunca tenha parado pra pensar nisso.

Por ser uma necessidade inviolável, o entretenimento se tornou mais uma das muitas áreas em que os seres humanos investiram sua genialidade e mostraram-se extremamente eficientes, assim como as cirurgias neurológicas, o programa espacial e em pôr a culpa dos nossos erros nos outros.

Mas apesar de todos os nossos impressionantes avanços na arte da diversão, que vão desde a invenção da montanha russa até o desenvolvimento de complexos algoritmos de compressão que permitem que filmes inteiros da Jenna Jameson ocupem parcos 200 megabytes, a genialidade humana não chega nem perto de rivalizar aquela da Mãe Natureza, que desenvolveu a melhor ferramenta de entretenimento conhecida – a gravidade. A força inexorável que atrai corpos em direção ao centro da terra, provocando situações incrivelmente favoráveis para a extração de humor.

Antes de Sir Isaac Newton explicar a lei da gravitação universal, nós só podíamos apreciar a queda de um coleguinha de classe superficialmente. Joãozinho é um retardado do caralho e não percebeu que seus cadarços estavam desamarrados, trazendo seu rosto ao encontro da mesa na sua frente. Ponto final. Rir de alguém se estabacando no chão de cimento era um passatempo unidimensional. O único proveito era a forma; a imagem da queda. Não havia nenhum conteúdo, nenhuma elaboração. Uma piada visual e nada mais.

Após Newton, a ciência relacionada ao fenômeno da queda desmistificou as forças invisíveis que trabalham contra os menos equilibrados, mas a favor da nossa diversão. Agora entendemos que há uma força atraindo corpos numa proporção inversa à distância que os sepada ao quadrado, ou seja, apreciar quedas deixou de ser uma diversão das massa e pôde ser apreciada pelo corpo acadêmico sem peso na consciência por pensar que estão tomando parte em uma atividade do povão. Newton simultaneamente revolucionou a ciência e a comédia.

Outro dia eu fui relembrado a respeito da forma como algo tão simples e corriqueiro como a gravidade (ok, não é “simples” porra nenhuma) pode ter o potencial de arrancar lágrimas de riso e praticamente asfixiar alguém nas próprias risadas. Bom na verdade não foi “no outro dia”, a parada aconteceu quando eu ainda trabalhava no Wendy’s. Acontece que eu esqueci que tinha começado a escrever esse post e só retomei a continuação agora. ENFIM.

As quartas feiras eram os dias em que os fritadores (se eu posso chamar assim) do restaurante precisavam ser drenados, esfregados com esponja e sabão cáustico, e em seguida reabastecidos de óleo. E adivinha quem executava tão vital operação – euzinho aqui.

Protegido sob um longo avental de borracha (acho que era borracha) que poderia facilmente ser considerado o material mais gorduroso e seboso da face terrestre, ganhando até mesmo de outras superfícies como o interior das tubulações de plataformas petroleiras ou o rosto de um ex-companheiro de trabalho, eu tinha que me submeter à desonra de limpar aquela porcaria. Como se pode imaginar, o trabalho de drenar o óleo sujo da máquina de fritar batatas não era uma ciência exata. O chão acabava invariavelmente totalmente coberto por uma fina lâmina de óleo, reduzindo o atrito em certos locais do restaurante a números negativos. Acho que vocês já tão vendo pra onde essa história está indo.

Por causa da CALABREAGEM (um termo inventado pela minha querida vovozinha que é sinônimo de “bagunça e/ou sujeira”) oriunda da limpeza das máquinas, lavar o chão do restaurante era o passo final que não podia faltar. Acontece que no tempo que eu demorava pra ir pegar o balde e o esfregão, o trânsito no interior do restaurante não era paralisado. Todo mundo continuava indo pra lá e pra cá executando suas funções normais, andando bem do lado de fornos e chapas quentes sobre chão totalmente coberto de óleo. Era minha tarefa limpar a sujeita o mais rápido possível e impedir que alguém fosse parar dentro das máquinas que eu tinha acabado de limpar.

Enquanto estou enchendo o balde com a solução desengordurante, a Courtney passa deslizando, jogando os braços em todas as direções permitidas pelo nosso mundo de três dimensões, finalmente achando apoio numa prateleira de pão. Se recompondo, ela olha pra mim rindo e fala que eu preciso terminar logo de limpar a parada antes que alguém acabe morrendo. Eu explico que já estou tomando conta da coisa e a menina volta aos seus afazeres. Antes mesmo que eu tivesse tempo de chegar no local e retomar a limpeza, um dos outros moleques passa DESLIZANDO DE COSTAS no chão. O moleque carregava aqueles pacotinhos de ketchup dentro de uns containers de metal, que obviamente foram parar respectivamente no ar e no chão, fazendo aquela barulheira característica que containers de metal repletos de pacotinhos de ketchup fazem quando caem. Pro infortúnio do rapaz, alguns pacotinhos de ketchup acabaram presos entre o corpo dele e o chão. O invólucro que contém o condimento não foi projetado pra aguentar a pressão exercida por um canadense, e os pacotinhos explodiram pintando com ketchup o uniforme AZUL do moleque. Bom, o uniforme era azul antes de entrar em contato com superfície coberta de óleo sujo. A cor mais aproximada do uniforme do moleque sugeria que o coitado havia mergulhado numa poça de lama e em seguida participado de um combate de paintball em que apenas balas vermelhas podiam ser utilizadas. Numa cena que faria até mesmo Don Quixote de la Mancha sentir vergonha alheia, o menino tentou se erguer com as mãos, mas não conseguiu tração satisfatória e escorregou de novo, dessa vez caindo de lado na mistura de óleo com ketchup.

Eu não posso nem começar a descrever o quanto eu ri da cena sem esboçar um largo sorriso. Larguei o esfregão, me apoiei contra a parede e segurei a barriga, que rapidamente começou a doer graças às gargalhadas. A barulheira chamou a atenção dos outros funcionários, que também chegaram escorregando no chão mas que ao contrário do outro infeliz conseguiram manter o equilíbrio. Montou-se uma rodinha em volta do cara e todos simultaneamente alternavam entre rir do cara, rir e apontar pro cara, e rir, apontar pro cara enquanto se apoiando nos ombros dos outros, tanto pela falta de ar provocada pelas risadas, quanto pelo baixíssimo atrito do chão.

Eventualmente a gracinha perdeu a graça, e todos voltamos às nossas posições…

…até que alguém teve a genial de acessar as câmeras de segurança do restaurante e rever a queda. Em três ângulos diferentes, em diversas velocidades de reprodução (primeiro em velocidade normal, depois em câmera lenta, e finalmente em velocidade acelerada,
o que aumenta ainda mais o teor cômico da cena).

Até hoje me arrependo de ter me demitido sem antes obter uma cópia dos vídeos.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

Um comentário \o/

  1. […] quando eu falei que nada é mais engraçado que ver alguém caindo? No post em questão eu descrevia em detalhes a queda de um amigo de trabalho, presenciado por (e […]