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Ainda sobre pilantragem…

Postado em 22 abril 2008 Escrito por Izzy Nobre 112 Comentários

Se alguém te perguntasse qual a característica mais marcante da raça humana, o que você responderia? O nosso intelecto? Nossa capacidade de compaixão? As maravilhas da engenharia moderna? Nossa habildade de nos comunicar vocalmente? Nosso sucesso em nos organizar em grupos?

Passou longe. A característica que mais define o ser humano é que todos nós, em um momento ou outro, nos ocupamos imaginando o que faríamos se fôssemos os donos de uma fortuna de milhões de dólares.

Você deve ter feito isso hoje mesmo, até. Alguns pensam em “comprar uma casa e fazer um puxadim pra maínha”, pra parafrasear tantos indigentes habitantes do Maranhão (redundância, eu sei) que se tornaram ricos da noite pro dia graças ao seu Sílvio e sua Tele-Sena.

Outros usariam a grana pra pagar por uma formação superiora. Talvez hoje mesmo no caminho do trabalho, você fantasiou a respeito das festas putariosíssimas que você poderia anfitriar, ao invés de estar se dirigindo ao seu estágio mal pago. Ao se ver dentro de um ônibus lotadaço cara-a-cara (ou, dependendo da sua altura, cara-a- suvaco – o que é muito pior) com um mestre de obras suado e asqueroso, talvez você comece a fantasiar sobre os carros luxuosos e as motoristas topless que você contrataria pra te levar pra cá e acolá.

E quem sabe, quando acabar chegando atrasado no serviço (porque a grande concentração de pobres no ônibus bloqueou seu acesso à porta e você acabou descendo vinte quarteirões mais tarde), resultando numa espetacular e desmerecida bronca do seu chefe, todas as outras vontades materiais e carnais dariam lugar ao desejo de poder subir na mesa do chefe, mijar em cima da cabeça dele e voltar pra casa satisfeitíssimo e totalmente despreocupado com uma fonte de renda. Aliás, o cenário da mijada na cabeça da chefia é provavelmente mais popular que todos os outros sonhos.

Já eu tinha uma idéia muito mais elaborada do que eu faria se ganhasse milhões, que revela tanto as minhas raízes de semeador da discórdia quanto à minha incomparável vontade de assistir a desgraça alheia enquanto ela acontece.

Meu plano era o seguinte. Eu iria me trajar dos trapos mais arrebentados e imundos que eu pudesse encontrar na minha casa. Em seguida, me dirigiria a algum estabalecimento de venda de itens caros, como uma concessionária. Eu aguardaria o inevitável momento que um vendedor faria pouco caso da minha aparência e, quando ele estivesse próximo a acionar os seguranças, eu me aproximaria de um outro vendedor e compraria uma frota inteira de automóveis, recompensando-o com uma generosa comissão que uma gorjeta ainda mais farta.

E quando o filho da puta que me destratou me fitasse com aquele olhar tão inquisitivo quanto deprimido, eu explicaria em voz solene “Aprenda, seu filho de uma distinta meretriz, que nem sempre as roupas fazem o homem. De repente o sujeito vestido como um total fodido está na realidade bem distante disso.”

Entretanto, eu aprendi no mundo real que o inverso é muito mais comum, e que o sujeito vestido como um indigente miserável é realmente um indivíduo fodido nessa vida. E nessa hora você entende que a tal “oportunidade de investimento imperdível” que ele tenta te vender só pode ser um esquema furadíssimo, caso contrário ele não estaria vestido com algo que ele encontrou no meio do caminho até minha casa.

Esta é a história do meu envolvimento com a Herbalife. Os eventos descritos neste texto aconteceram quatro anos atrás, no comecinho de 2004, poucos meses após minha chegada no Canadá. Eu tinha 19 anos, quase nenhuma experiência de vida ou de trabalho, e estava desesperado pra arrumar um emprego. E, mais importante, eu nunca tinha ouvido falar em esquemas pirâmide na vida.

Eu era o alvo perfeito.

O nome dele era Bruce. Não lembro o sobrenome do cara de jeito nenhum. Tudo o que me lembro é que logo que o vi pela primeira vez, estacionando aquela sucata que ele chamava de carro na frente da minha casa, a semelhança com o George Costanza (do Seinfeld, lembra?) foi surpreendente. E não apenas no visual, como eu fiquei sabendo pouco tempo depois. Mas estou me apressando na narrativa. Vamos começar do começo.

Eu havia praticamente acabado de chegar no Canadá. Não estava gostando, e queria desesperadamente retornar ao Brasil. Pra isso, eu teria que correr atrás.

Saí procurando anúncios de trabalho nos jornais locais. Um desses anúncios me chamou atenção – a notinha nos classificados fazia alusão a uma posição interessante, “voltada a pessoas motivadas e sem medo de investir tempo e esforço pra estabelecer seu próprios negócios e se tornar financeiramente independentes“. O anúncio era muito vago, praticamente criptografado. Eu viria a saber no futuro que isso é uma marca registrada de golpes do tipo – é mais fácil te enrolar quando você não entende exatamente os detalhes do negócio.

Apesar disso, a idéia de iniciar um próprio negócio soava tão sedutora quanto o autor do anúncio almejara. A linha “oferecemos treinamento gratuito” afastou o medo de que minha falta de experiência seria um empecilho nos meus planos. Liguei pro sujeito.

Uma secretária eletrônica atendeu minha chamada. Deixei meu nome e meu número, e passei a esperar.

Em menos de uma hora o sujeito me liga de volta. Ele se apresenta como Bruce, e pergunta se eu estou interessado na “oportunidade de negócios” que ele postou nos classificados. Eu explico que sim, e pergunto que tipo de empreendimento é esse.

“Ah, estamos no ramo de saúde e fitness. Temos escritórios em toda a América do Norte, é uma empresa de mais de 15 mil funcionários só no Canadá, reconhecida na Dow Jones e…”

“Interessante. Qual o nome da empresa? E a propósito… qual exatamente é a posição disponível?”

O sujeito desviou das duas perguntas com precisão cirúrgica. Sem sequer perder o ritmo, ele continuou:

“…e estamos procurando por gente jovem, com vontade de aprender e liderar seu próprio negócio. Precisamos de gente motivada, inteligente, e acho que você vai se encaixar bem na nossa proposta, Izzy.”

Pra quem não sabe, “Izzy” é meu nome de guerra em território gringo. Adotei a alcunha porque os canadenses são incapazes de pronunciar meu nome da forma correta - isso é, em sotaque BRASILEIRO. Nada de rolar a língua nem porra nenhuma; eu acredito que o seu nome é mais do que apenas uma palavra grafada. O próprio SOM do seu nome sendo pronunciado é o que você está condicionado a entender como sua identidade. Ao ouvir um “Israel” pronunciado gringamente, eu não me sinto como se a pessoa estivesse se referindo a mim. Então, já que ninguém vai se dar ao trabalho de pronunciar meu nome direito mesmo, e como gringos têm uma mania incurável de usar apelidos pra tudo, virei Izzy. O termo serve pra qualquer nome que comece com Is (Isabela, Isaque, qualquer um).

Achei levemente suspeito o fato de que o cara pareceu propositalmente despistar minhas questões sobre o emprego. Mas fazer o quê? Eu não tinha nada a perder mesmo.

“Legal Bruce, parece bastante interessante. Mas eu tenho apenas 19 anos, e não tenho experiência alguma com o mercado de negócios e tal”.

Isso não incomodou o cara de forma alguma.

“Que é isso, não faz mal não. A gente vai te ensinar TUDO. Se você pudesse vir na palestra que vai rolar hoje à tarde, seria excelente!

Na época eu não sabia, mas o cara estava praticamente lendo a cartilha dos golpes de pirâmide contemporâneos. A turma que já conhece a laia entendeu o motivo do itálico naquela frase.

Nessa hora meu desconfiômetro apitou forte. O cara parecia MUITO disposto a me contratar, a despeito do fato de que ele não sabia NADA sobre mim e eu ter explicado claramente que não tinha qualquer tipo de experiência nesse tipo de negócio. Como era recém chegado no país, concluí apenas que as fábulas que ouvimos a respeito do primeiro mundo deveriam ser verdadeiras, e que de fato tem emprego pra todo mundo.

Acontece que a palestra aconteceria em Toronto. Eu morava em Oshawa, a 60km de distância. A rodovia que liga as duas cidades, a 401, é a estrada mais movimentada de todo o país. Demora mais ou menos uma hora pra ir de Oshawa a Toronto, se você estiver num horário de pico.

Expliquei a situação pro cara, pensando “bom, como o maluco mora em Toronto, agora mesmo é que ele se desmotivará em me contratar. Não tenho carteira de habilitação e nem fodendo vou viajar 60km de trem todo dia pra ir trabalhar”. Se Bruce estava decepcionado com as condições geográficas que restringiriam minha capacidade de trabalhar pra ele, o cara não mostrou isso de jeito nenhum.

“Ah, que pena. Vamos fazer o seguinte – eu posso ir até Oshawa bater um papo com você, apresentar a proposta da empresa, te dar umas dicas, te registrar e você já estará pronto pra começar!”

Por que DIABOS o cara tá tão convencido a me contratar? Batemos papo por cinco minutos no telefone, numa conversa em que eu fiz nada além de ressaltar os diversos motivos pelo qual eu talvez não seja a melhor pessoa pra posição, e ainda assim o cara está disposto a viajar 60km pra me contratar aparentemente no ato?

“Nesse mato tem cachorro”, pensei com meus botões. Mas, ingênuo e inexperiente, considerei a opção de que ao invés de um cachorro, era uma oportunidade de trabalho que se escondia atrás da suspeitíssima moita.  Afinal de contas, o que eu tinha a perder?

Nada. Mas isso é simplesmente porque eu não tinha nada a investir. Pra maioria das pessoas que se sente seduzida pelas esperanças irreais manufaturadas pelos recrutadores da Herbalife, na realidade muito acaba sendo perdido. E não estou falando apenas de dinheiro.

O tal do Bruce apareceu lá em casa no dia seguinte.

Eu não estou de putaria. Esse era exatamente o carro que o sujeito estacionou na frente da minha casa – um AMC Gremlin 1973. As únicas diferenças notáveis é que o carro do Bruce era vermelho com pintas marrons (era o epóxi cobrindo os buracos na lataria), e que esse da foto acima ainda tem as calotas nas rodas.

 Bruce saiu do carro desengonçadamente, daquela forma característica que pessoas gordas saem de carros – se arrastando pra fora, como se mal conseguissem puxar a bunda gorda pra fora do banco, se apoiando com a mão no teto do carro e tudo. Içar-se pra fora do carro devia ser o único exercício que o cara praticava.

Já fora do aparelho, o gringo puxou as calças pra cima e com a mão livre enfiou as bordas da camisa pra dentro. Maluco passou então a ajeitar os poucos fios de cabelo que lhe restavam. Tudo sem a menor cerimônia, como se eu não tivesse acabado de ver o cara chegando todo esbagalhado. Fiquei observando a triste cena do sujeito se aprumando todo bem na minha calçada, à ampla vista da vizinhança. Bateu vergonha imediatamente.

O cara estendeu o braço pela janela e apanhou uma pastinha de couro bem surrada e quase sem cor. Terminada sua arrumação, o sujeito se dirigiou a mim, com a mão esticada e um sorisso na cara.

“Izzy Nobre? Eu sou o Bruce. Muito prazer!”

Eu trouxe o sujeito pra sala. Trocamos breves gentilezas (“Bonita casa”, “Ah, obrigado”, “Tá um clima bacana hoje, né?”, “Humrum”) e então o Bruce mergulhou nos negócios.

Primeiro ele me deu um discursinho decorado a respeito de que o mercado de saúde e fitness é a maior indústria do mundo, e que é um ramo de mil oportunidades, sei lá mais o que. Nessa hora eu me lembrei que até agora não sabia o que diabos era o tal emprego, ou por que o sujeito se deu ao trabalho de vir até a minha casa pra me contratar. Àquela altura o negócio nem parecia mais uma entrevista de emprego, e sim um “sales pitch” – ou seja, alguém tentando te convencer a comprar (ou, num uso menos literal da expressão, acreditar em) alguma coisa.

Como eu viria saber em breve, no caso deles seria ambos.

Ele puxou então uns panfletinhos da pasta. Os impressos anunciavam o sucesso deste ou outro maluco africano que havia começado a trabalhar pra empresa há menos de um ano e ganhou tanta grana que recentemente comprou até casas pros familiares e coisa e tal. O cara continuou seu discursinho sobre a expansão da indústria de produtos voltados ao estilo de vida natureba.

Eu finalmente interrompi o maluco pra perguntar do que se tratava o negócio. O cara estava matraqueando por uns vintes minutos a este ponto, e imagino que o tom da minha pergunta não deixou dúvidas sobre minha impaciência. O cara finalmente largou mão da enrolação.

“Herbalife”. Uma oportunidade única, segundo as milhares de pessoas fictícias que fizeram fortunas imaginárias através dela. Os olhos do cara quase brilhavam com empolgação.

Hoje, muitos anos depois, eu teria chutado o maluco pra fora da casa assim que ele falasse “Herb…”. Lembre-se, esta história aconteceu mais de quatro anos atrás, eu nunca tinha ouvido falar em esquemas pirâmides antes na vida.

O cara explica a linha de produtos que eles vendem (sucos de fruta/ suplementos/vitaminas), e em seguida fala que a vaga que ele quer me oferecer é de “representante regional autorizado”. Um termo pomposo pra “vendedor de porta em porta” – o que ele desonestamente omitiu, mas eu viria a entender por conta própria.

 Ao invés de falar a verdade, ele explicou que o mote do negócio é “estabelecer clientela fiel através de ‘social networking’, e com isso expandir seu público alvo”. Ou seja, empurrar as tralhas pra amigos, familiares e tal. Ou seja, totalmente inviável pra alguém que acabou de chegar no país, não conhece absolutamente ninguém e nem fala inglês direito.

Ele passou a citar novamente a maravilha que é o mercado do tipo de produto que ele vende. Falou que a nova onda na América do Norte é alimentação saudável e que há uma grande demanda por esse tipo de produto natural.

Devo ter transparecido meu desinteresse em vender suquinho natureba, porque de repente ele partiu pro carro-chefe do modelo pirâmide, o que geralmente convence pobres coitados a embarcar nessa loucura.

“Ser representante de vendas da Herbalife é realmente excelente, tem gente que faz uma boa grana com isso”, ele disse, batendo com os dedos no panfleto que eu havia largado em cima da mesinha de centro “Mas o potencial mesmo é se tornar distribuidor.”

“Como assim, distribuidor?”

“Bom, digamos que ao invés de apenas vender o produto X ou Y, você venda pro sujeito o KIT DE PARTICIPAÇÃO HERBALIFE. Ele se tornará outro representante, e você ganha uma porcentagem do que ele vende. Se você for carismático e persuasivo, em breve terá montado seu próprio time de representantes, e ganhará tanta comissão do emprego deles que não precisará nem trabalhar!”

Demorou pouco tempo pra perceber a ironia da situação – ele descreve com entusiasmo como eu posso lucrar com o trabalho alheio através desse sistema, enquanto tenta me recrutar com o mesmo intuito: ganhar às minhas custas. De repente a disposição dele em vir até Oshawa deixou de ser tão misteriosa.

Nesse ponto eu ainda estava em cima de cerca. A idéia parecia muito suspeita, e a linha de trabalho era bem diferente do que ele fez parecer no anúncio do jornal. Entretanto, até aqui o negócio parecia apenas um emprego ruim. E se tem uma coisa pra qual sempre tive disposição, é tentar trabalhos mesmo que pareçam inferiores do que eu esperava. Então até aí eu AINDA estava analisando a proposta com um certo otimismo.

O cara se levanta pra ir ao carro e me mostrar a linha de produtos, pra eu me familiarizar com eles e tal. Neste ponto eu não tinha dado sinal algum de que aceitei a oferta, mas o cara parecia estar animadamente contando com isso. Logo, eu deveria conhecer melhor a tralha vendida por eles.

Sigo o Bruce até o carro dele. O infeliz abre a porta do veículo e se dobra todo pra pegar uma caixa que repousava no banco traseiro. Enquanto ele manobrava sua banha por cima dos bancos do carro e se torcia todo pra apanhar a caixa, eu pude notar um buraco no chão do carro que me permitia ver a rua. Dava tranquilamente pra passar uma latinha de cerveja pelo rombo.

Não estou inventando isso. Nessa hora todos os alarmes soaram em minha mente, o tal emprego começou a parecer mais ainda com uma furada, e eu passei a me ocupar pensando em formas de mandar o sujeito embora sem ser mal educado.

Ele me seguiu de volta pra sala. O cara começou a tirar da caixa garrafinhas de sucos e latinhas de vitaminas em pó. Ao mesmo tempo que puxava o produto, Bruce fazia declarações sobre sua suposta eficácia: este aqui rejuvenesce a pele, esse aqui filtra o sangue de impurezas, esse aqui aniquila radicais livres, esse aqui serve pra ajudar na recuperação de pacientes com câncer…

Cada afirmação milagrosa vinha após alguns segundos examinando os rótulos dos produtos com a maior cara de palerma do mundo, e frequentemente o cara se enganava e tentava corrigir sua descrições por ter lido um rótulo erroneamente, e em seguida achar na caixa o produto que ele achava já ter apresentado. “Opa, era ESSE aqui que combate calvície…”

Em outras palavras, o cara era a ilustração da incompetência. O carro fodido, a aparência desleixada, sua falta de eloquência, a inexperiência com os próprios produtos, tudo me convencia de que o cara era um inepto total, e que esse “emprego” seria uma perda de tempo. Alguma coisa vinda de um maluco desses não tem como ser boa coisa, eu pensei.

Interrompi o sujeito na cara dura.

“Mas vem cá Bruce, quanto é o salário mesmo?”

Nessa hora o cara pareceu pego de surpresa. Aquele meio segundo de hesitação me disse tudo que eu precisava saber.

Mesmo assim, o cara se recompôs e deu mais um discursinho que só poderia mesmo enganar os mais ingênuos.

“Essa é a beleza da Herbalife, Izzy. Com a gente, seu potencial não é ditado por uma cota fixa. Você ganha uma comissão de vendas e de novos inscritos. Não existe um limite pro seu potencial! Eu por exemplo me demiti do meu emprego pra trabalhar integralmente com a Herbalife!”

Bateu um sentimento horrível de pena. O cara largou um emprego garantido pra vender suquinho e suplemento alimentar pra estranhos? Pra ganhar apenas comissão de vendas?

Enquanto eu matutava uma réplica educada pro cara, ele abriu a pastinha e puxou uns papéis.

“Pra gente não perder muito tempo, vou começar a preencher seu formulário de inscrição aqui.”

Fiquei com vergonha de dizer a verdade pro cara – que eu tava achando que aquilo era uma incrível perda de tempo, e que sair por aí vendendo suco e suplemento alimentar pra amigos e/ou conhecidos (duas coisas que eu não tinha) de porta em porta me parece totalmente sem futuro.

O cara continuava preenchendo a papelada enquanto eu dava um sorriso sem graça pensando numa desculpa pra pular fora do negócio sem ser rude. Sempre tive esse problema – por causa da educação dada pelos meus pais eu sempre tento ser o mais cortês possível, o que me coloca nesse tipo de situação que um simples e mal educado “não estou interessado, favor sair da minha casa” resolveria.

“Ok, tudo tá pronto aqui. Agora só preciso dos 200 dólares da taxa de inscrição pra que a gente possa…”

Hahaha, justo quando eu pensava que não podia ficar pior.

“Taxa de inscrição?”

“Isso. Há uma taxa de apenas 50 dólares pra processarem sua aplicação. Os outros 150 dólares são pra pagar os produtos que deixaremos na sua mão. Eles têm um valor de quase 250 dólares, então aí está um lucro fácil de 100 dólares!”

“…se eu vender a caixa toda.”

O cara não identificou o tom de desdém da minha frase – a resposta dele me faz pensar que ele interpretou minha reação como empolgação.

“Poisé. E isso é só o começo! Assim que você estabelecer uma rede de distribuidores, os lucros vão…”

Fiz de conta que ele nem estava falando.

“Então se eu conseguir vender uma caixa inteira em, digamos, uma semana” – tanto eu como ele sabíamos que seria mais fácil construir um F-22 completamente funcional usando nada além de caixas de sapatos, esparadrapo e fitas cassete que vender a caixa toda em tão pouco tempo – “estarei fazendo 400 dólares por mês?”

(Tenha em mente que o salário mínimo canadense é mais ou menos 1200 dólares por mês, e qualquer pessoa ganhando menos que isso seria aconselhada por todos a arrumar um emprego melhor. Aliás, minto – ganhar apenas 1200 dólares por mês já seria o suficiente pra ser considerado um fodido)

Dessa vez minha real opinião foi captada pelo cara. Ele tentou esconder que se sentiu ofendido. Ele começou a explicar novamente que meu limite é estipulado apenas pela meu esforço e minha força de vontade, e…

Ok, sabe duma coisa? Chega de ser educado. Foda-se. Já perdi tempo o bastante com essa merda.

“Deixa eu ver se tou entendendo, Bruce. Eu vou então trabalhar apenas por comissão, vendendo produtos com promessas que sugerem conteúdo medicinal mesmo sem ter nenhum treinamento ou autorização pra isso, a única forma de isso se tornar realmente rentável é convencendo desconhecidos a vender o negócio por mim, não há nenhuma garantia que as minhas horas de trabalho resultarão em lucro, e antes mesmo de começar qualquer coisa já preciso dar 200 dólares pra vocês? É isso?”

Eu sei que eles treinam os sujeitos pra usar manobras retóricas pra varrer essas críticas pra baixo do tapete usando silogismos baratos, mas acho que o Bruce perdeu essa aula. O cara ficou totalmente sem resposta e fez uma cara que me deu muita pena. Aqueles cinco segundos de silêncio foram extremamente desconfortáveis. Meu senso de educação voltou à ativa e tratei de inserir uma desculpa secundária, pra não parecer que eu estava aloprando o negócio totalmente.

“Além do mais, eu não tenho 200 dólares pra investir nisso. Não tenho dinheiro nenhum.”

“Isso não é um problema. E se eu te der uma caixa minha? Você poderia já começar a trabalhar, e quando pudesse, me pagava os 200 dólares de volta.”

O cara tentava me convencer da idéia da mesma forma que uma criança implorava a mãe por um doce. Seria totalmente patético, se não fosse totalmente desonesto.

Perdi a bondade de vez. O cara estava realmente tentando me passar a perna. Um gringo querendo enrolar um brasileiro! Essa é boa.

“Você quer que eu venda o SEU material, pra eventualmente pagar uma dívida de 200 dólares? O que exatamente eu ganho com isso?”

Mais uns segundos de silêncio. Já chega disso, pensei. Estendi a mão pra ele.

“Bom Bruce, foi um prazer mas acho que isso não é pra mim, não”. O que na verdade significava “É uma pena que você caiu nessa. Procure outro otário pra te livrar desse lixo”. A insistência desapareceu. Resignado, o maluco começou a reempacotar os frascos humildemente. Tirou um cartão do bolso e estendeu pra mim.

“Se você mudar de idéia, aqui está meu número.”

“Não vou mudar de idéia, cara. Quero um emprego, não um bico de comissão em que eu já começo perdendo dinheiro.”

Quando terminei de falar isso, senti novamente pena do cara. O sarcasmo foi meio cruel.

Nisso, já estávamos na calçada. O cara joga a caixa no banco de trás, se vira pra mim e profetiza: “Você vai se arrepender, ‘moleque’. Tá jogando fora uma oportunidade única de fazer bastante dinheiro”.

Aquele “moleque” soou arrogante o bastante pra me fazer, mais uma vez, abandonar a compaixão. Estiquei o pescoço pro lado e, por cima dos ombros dele, joguei um olhar pra sucata estacionada na minha calçada.

“Sinceramente? Acho que a única pessoa com algum tipo de arrependimento aqui é você, Bruce”

Virei-me e voltei pra dentro de casa, dessa vez sem remorso. Desde esse dia, eu fico absolutamente surpreso que existem pessoas mais velhas e mais experientes que eu mas que de alguma forma caem nesse golpe.

Daquele dia em diante, passei a considerar esquemas de pirâmide como o Teste Definitivo de QI.

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Categorias: Geral

112 Comentários \o/

  1. Eurritimia disse:

    A minha mãe usava esses produtos da Herbalife, mas como era só placebo ela parou de usar.

  2. Fabiane disse:

    Ouvi falar de Herbalife pela primeira vez em 1995. Na época eu fazia ginástica e tomava uns suplementos brabos pra emagrecer a qualquer custo. Não foi preciso nem 3 minutos de conversa com um vendedor pra sacar que aquilo era furada. Como eu já estava no 3º período de propaganda e marketing pesquei na hora todas as técnicas de persuasão. São técnicas avançadíssimas alguns alunos fazem até extensão em neuro-linguística para passar mensagens nas entrelinhas de um comercial.

    Depois disso, nunca mais passei perto de gente que vende. Soube de várias pessoas da minha roda de conhecidos que estavam praticamente falidos.

    É o golpe mais bem montado da era moderna. Meu irmão comprou o kit e acabou engordando. A lata de shake serviu pra guardar pé de moleque depois.

  3. Neryuuk disse:

    Eu sempre vi esses esquemas pirâmide, mas nunca na minha mente se passou que seria uma pilantragem master, (apesar de eu ser um cara desconfiadíssimo, que parte do pressuposto que se eu posso pensar em algo, seja esse algo construtivo ou sacana, qualquer ser humano pode pensar e por em prática antes de mim, ou pior, em mim) mas pensando melhor agora eu vejo quão ingênuo eu era com relação a essa questão, esse post abriu minha mente pra um admirável mundo novo de pilantragens.

    brincadeirinha… não tem nada de admirável em ser um genuíno e grandessíssimo Filho Da Puta

    Blog muito bom, como sempre.
    Abraço =]

  4. Renato disse:

    Incrível! Primeiro texto com mais de 1000 palavras que eu leio com muita vontade e todinho! :D

  5. Shermilla disse:

    Já comentei em outro post, mas só pra reiterar minha indignação com a essa coisa podre que é a herbalife.

    Não caiam, crianças! Eu caí por desespero em fazer uma grana… mas nem que eu tivesse passando fome, hoje, cairia nessa.

    O cara que me abordou o fez através de minha tia, que consumia os produtos. Ela me indicou, Eu tentei. Tava sem grana, peguei um cheque da coitada emprestado. Paguei com o que vendi pra ela mesma. Minha única cliente.

    O cara e a esposa começaram a se estressar porque eu não usava a bosta do broche deles. E diziam que era por isso que eu não tinha sucesso.

    Depois de uns dias, mais irritados ainda, disseram, quase que diretamente, que eu era uma fracassada. Que quem não vendia herbalife era fracassado. Que as pessoas que tinahm sucesso, conseguiam.

    Depois, por tel, finalmente, a esposa do cara disse que eu não vendia, além de não usar o broche e ser uma fracassada, que era porque eu não participava das “estravaganzas (sei lá como escreve)”. Ao que eu respondi (sofro do mesmo problema de gentileza que você. Só que acho que mais agudo) que não o fazia pelo fato de minha família já pagar caro pela minha faculdade e que eu entrei no negócio justamente porque não tinha grana. Ao que ela, doentemente me sugeriu que então eu largasse a faculdade e usasse o dinheiro para pagar as viagens e cursos. Como eu já disse no seu outro post. A princípio achei que ela estava sendo irônica, mas percebi que não. Ela falava sério. Desliguei e disse que ela tava louca, mas de forma educada. Ela ficou perceptivelmente chateada. E eu me arrependi de não ter perguntado porque, então, ela ainda pagava a escola dos filhos dela, já que eles já sabiam o suficiente pra vender herbalife: ler e escrever…

    Oh shit!

  6. Gugs disse:

    Hahaha! eu não caí !!… mas conheço MTS q cairam.. =/ pobre deles..

  7. Edison disse:

    Muito bem escrito o texto. As sutis mudanças de sentimentos e os pensamentos reflexivos.

    Ainda bem que vc pegou um cara despreparado e conseguiu sair a tempo. Há tempos fiquei assustaod lendo esse relato.
    http://www.scribd.com/doc/14209/herbalife-a-verdade

  8. Blog do Lucho disse:

    Agora é ajuda mútua?…

    muita gente ainda cai que é o golpe da pirâmide, aquela arapuca que o Kid, do HBDia já alertou por duas vezes….

  9. Carol Animaker disse:

    Nem acredito que li isso tudo sem perceber.
    Onde será que o Bruce está agora, meu Deus??

  10. Enio Nascimento disse:

    Ai pessoal, principalmente ao autor deste blog:
    PIRAMIDE é crime, no brasil e em qualquer outro país.
    Marketing Multinivel/ NetWork Marketing
    é um esquema que empresas como Forever Living Products e muitas outras utilizam para distribuir seus produtos, sem ter que pagar pela publicidade convencionau que é muito cara, usando o famoso marketing boca a boca, que é muito mais eficáz e beneficia somente os seus melhores clientes. Este sistema que não é uma piramide, é usuado por muitas empresas e é sem duvida o negocio mais espetacular do milenio, mas dentre estas muitas empresas sempre tem as que atilizam da boa fé de mal informados para aplicar flaudes e atraves de lavagem cerebrau conseguem enganar a muitas pessoas, especialmente os que se encontram desesperado. aconselho buscar a definição de “piramide” para que não confundam a outros leitores tb desinformados.
    O que é realmente lamentável é o fato de que uma empresa tal como Herbalife atilize de este sistem de distribuição de uma manera que visa a explorar seus representantes y persuadi-los a a fazer o mesmo. Ë lamentável por que isso reflete em toda a industria do MMN devido ao fato de esta empresa estar por todos os lados.
    Mas eu gostaria de esclarecer aqui, que existem empresas que são sérias e com produtos que realmente oferecem ao usuário os resultados satisfatória para garantir o exito do negócio.
    Para quem não sabe do que se trata o NetWork Marketing ( que NAO é a Herbalife) eu gostaria de dizer o seguinte: é algo completamente possível de realizar e obter exito, se logo no começo a pessoa entender que é preciso trabalhar antes de esperar resultados. e convenhamos o seguinte; se alguém acredita que um negócio vai lhe proporcionar riquesas somente por que entrou em uma piramide, realmente este sim eu tenho que concordar que não deve ter um QI que possa ser avaliado.
    O MMN é uma sistema que tem como objetivo formar uma equipe de representantes de uma marca ou produto, o objetivo e conseguir mais gente para esta equipe, OBVIAMENTE que as pessoas chamaram os amigos e conhecidos primeiramente, dando a eles a oportunidade de començar um exitoso negocio.
    Mas não é só isso, para ter sucesso nesse negocio a pessoa necesita possuir alguns requisitos BASICOS e estar continuamente estudando o mercado e qualificando-se. Tem que ter um pouco de inteligencia financeira, ser proativo e possuir caracteriscas de liderança. Sinto informar-los a respeito da maioria dos “fracasos” nesse negócio mas eles ocorrem unicamente devido a incapacidade e falta de treinamento do novo distribuidor, que, primeiramente não entendeu o negocio, ou por que pensou que seria fácil fácil, igual os representantes da Herbalife o fizeram pensar.
    Existe uma certeza no negocio de NetWork Marketing que qualquer guru desse sistema pode te confirmar( vou citar alguns nomes para quem deseja conhecer os segredos deste negocio, Rui Ludivino e Jorge Salgado)
    A certeza que este negocio oferece é: se tu acredita que nasceu com espirito de vencedor: tu vai até o fim e consegue.
    Mas se tu é como os que chamamos de PATO, é porque simplesmente DESISTIU antes de aprender deligentemente a forma de realizar o negocio. E PIOR, depois saiu dizendo pra todo mundo que não funciona.
    Lembre-se, se não funcionou pra vc não quer dizer que não funciona.
    A empresa Forever Living Products tem mais de 9 milhoes de distribuidores e fatura bilhoes todo o ano. São caracteristicas de um negocio que não funciona????

    Se ficou alguma duvida eu responderei com prazer,só escrever à: eniocesar.nascimento@yahoo.com.br

    Um forte abraço a todos

  11. Lexico disse:

    (já passou muito tempo, mas deixa eu comentar assim mesmo)
    Cara, p/ mim, chega a dar pena mesmo, ainda que considerando a forma como tentam te converter ou a hostilidade quando se rejeita. (Mesmo no caso do Bruce). É só ver o que o Izzy colocou no post e comparar com a galera que veio aqui defender, putz… Será que só quem tá de fora que consegue enxergar o quão ridículo chega a ser?

  12. @eloimarquessilva disse:

    Cara esse negocio dos caminhoes e do cara pobre rolou com um primo meu. O cara era fazendeiro entrou numa concessionaria e o povo desfez dele ai um colega do meu primo resolveu atender e o cara tava trocando 8 caminhoes que rodavam na fazenda dele lá…