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Como os celulares com câmera tornaram o nosso mundo menos mágico

Postado em 23 April 2012 Escrito por Izzy Nobre 16 Comentários

Vocês lembram deste icônico vídeo que mostra, SUPOSTAMENTE , o Pé Grande perambulando pela floresta com a casualidade de quem vai ao mercadinho comprar cigarro?

Este vídeo é conhecido como Patterson-Gimlin film. Filmado em 1967 na Califórnia, a sequência foi alvo de intensa investigação científica (é por isso que ainda não temos uma cura pro câncer aliás). Os carinhas analisaram cada frame do vídeo pra poder decidir, com exatidão, se o negócio na cena era de fato um animal desconhecido pela ciência, ou apenas um maluco trajando uma roupa de macaco.

Essa imagem me causava arrepios quando eu era moleque. A cena em si é super trivial, o problema é que ela sempre era usada em contextos assustadores — episódios do Globo Repórter sobre mistérios inexplicados, por exemplo, com a obrigatória musiquinha de fundo sinistra. Isso é traumatizante pra uma criança.

E eu tava pensando aqui com meus botões: alguém ainda usa a expressão “pensando com meus botões”? Logo em seguida, pensei no seguinte: todos esses anos pós celulares com câmera provaram que esses supostos “acontecimentos inexplicados” são fakes safadíssimos. Pé Grande, OVNI, fantasminhas camaradas, poltergeists, tudo isso aí (em minha opinião) foi retroativamente provado como lorotas após o advento dos celulares com câmera.

Nos anos 80, sabe quando é que você tinha uma câmera ao seu alcance? NUNCA.

A câmera era posse exclusiva dos seus pais, os únicos com autorização para usa-la. Lá por 1992, eu finalmente tive acesso à minha própria camera — uma câmera azul do Mickey, que ganhei por tirar notas boas numa prova de matemática na qual eu inclusive colei (desculpa mamãe). Era uma câmera super simples, o protetor da lente era inclusive a cara do Mickey, com orelhinhas e tudo. Procurei pra caramba no Google imagens e só encontrei este adubo de pesadelos:

A propósito, vamos por favor parar de falar “A” Google?

Por obséquio? Não, e não me venha com essa de “ahhhh mas é ‘A’ empresa Google, então…“. Essencialmente qualquer coisa pode ser arbitrariamente definida com substantivos de qualquer gênero.

Por exemplo: você come no mesa de jantar, só porque a mesa é um “móvel” (portanto, masculino)? Você ouve a CD, só porque CD é uma mídia ótica (feminino)?

Você usa a martelo (se é uma ferramenta, então é feminino?) pra enfiar uma prego (que de acordo com o dicionário é uma “peça metálica”, portanto feminino) na parede?

O que estabelece o gênero de um verbete não é a forma como você pode defini-lo, senão tudo poderia ter dois gêneros — tais quais aquela “mulher” que seu primo pegou na balada mas dias depois se recusava terminantemente de comentar a respeito.

(E não venha com “ mas o google é O SISTEMA DE BUSCA e a Google é A EMPRESA “. Como expliquei acima, poderia muito bem ser A FERRAMENTA DE BUSCA GOOGLE ou O CONGLOMERADO GOOGLE”. Pronto. Se você diz “a Google” sob qualquer circunstância, as pessoas não gostam de você)

VOLTANDO AO ASSUNTO.

Câmeras, antes desta última década, eram uma parada menos presente. Sua família tinha UMA câmera, cuja operação era relegada a registrar aniversário de criança remelenta ou capturar fotos borradas dos fogos de Ipanema. Só se podia tirar 36 fotos de cada vez — um terço das quais era inutilizável por causa de um dedão na frente da lente –, e pra trocar o filme era preciso praticamente uma cirurgia de campo de batalha da segunda guerra.

Lembra do seu pai segurando o irmão mais novo no braço, com o copo de guaraná dentre o dedo indicador e o polegar, usando o dedo mindinho pra abrir a portinha que guardava o filme? Ele puxava o filme pra fora, mas ao tirar o segundo rolo do bolso, derramava guaraná no tapete do seu tio. Era uma desgraça.

Avance pros dias de hoje. TODOS NÓS, sem exceção, temos câmeras — alguns de nós temos mais de uma câmera. Eu, por exemplo, tenho quatro: a Canon SX40 que uso pra filmar o vlog, o iPhone, o iPad, e minha Sony W80 Cybershot velha de guerra. Há mais câmeras aqui em casa do que há pessoas!

E o que concluo tristemente é que se esses fenômenos sobrenaturais que víamos por fotos ou vídeos borrados de décadas atrás fossem um acontecimento legítimo, hoje em dia existiriam trilhões de vídeos no youtube mostrando fantasmas e auras e sacis pererês e seja lá mais o que. Quer dizer, até tem alguns, mas são tudo obviamente interpretações errôneas de um fenômeno comum (como lens flare) ou óbvios efeitos especiais.

Se poltergeists e o caralho fossem fenômenos reais, já haveria tanta documentação que é provável que o negócio já fosse, pelo menos parcialmente, compreendido pela ciência.

E isso é meio triste. A exploração do globo revelou que não existiam cachoeiras nos limiares do planeta escoando água pro espaço, e a existência da internet aniquilou aquelas lendas clássicas dos videogames (já que agora as histórias envolvendo o primo do vizinho do seu colega da escola são verificáveis).

Às vezes o progresso tem como custo o pouquinho de magia que este mundo tinha…

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comments

Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

16 Comentários \o/

  1. Luis says:

    firt! ótimo ter o HBD de volta 🙂

  2. Gabriel says:

    Ótimo texto, Kid.

  3. Herivelto Junior says:

    Cara, muito bom saber que você conseguiu trazer o site de volta. Parabéns a todos os envolvidos.

  4. Eduardo says:

    Sobre a “polêmica” do gênero do Google, nada melhor que o próprio site da empresa. Lá está escrito, em bom Português, “Empregos *NO* Google”. http://www.google.com.br/intl/pt-BR/about/

    Pronto, é masculino, fim da polêmica, e os chatos agora que fiquem quietos.

  5. Lucas a says:

    até entendo como tudo pode ter explicação. mas não dá pra ser tão certo de nada. você acredita piamente que estamos sós no universo absurdamente gigante e que ninguém chegou aqui recente ou antigamente? seilá izzy, a nossa compreensão do universo é baseada no que nós entendemos como universo. o próprio conceito de vida pode ser completamente aleatório, e existirem guarda-chuvas cuspidores de polônio radioativo por ai dominando uma galáxia. só tenho certeza que um dia eu vou morrer. de qualquer forma, ótimo texto.

    • Daniel says:

      Eu nenhum momento ele disse que não acreditava em alienígenas. A questão é que as pessoas, quando acreditam, pensam que eles passam constantemente aqui na Terra, mantém contato com a gente e influenciam toda a humanidade ao manipular governos e religiões. É uma teoria da conspiração do caralho, quando se é muito mais sensato esperar por provas mais concretas e definitivas para afirmar que aliens nos visitam frequentemente.

      O Universo tem bilhões de planetas e com certeza há vida inteligente lá fora. O problema é que com as distâncias é pouquíssimo provável que elas venham até aqui só para olhar de relance (ainda mais, precisando entrar na atmosfera, mesmo tendo viajado caralhos de anos luz só para chegar aqui). E também tem outros problemas como os motivos que eles teriam para nos observar, a facilidade que eles teriam em se aproximar e outras coisas.

  6. Alberson says:

    It’s good to have you back, sir.

  7. MH says:

    Olha pelo lado bom, Izzy: Essa mesma “magia” é aquela que foi utilizada por instituições controladoras como a igreja e etc pra manter as pessoas na linha… Com o avanço da informação, morre o mito.

    • Giou says:

      Mas ainda com tanta informação tem muita gente que acredita piamente nessas coisas.

      As distopias romanceadas no século XX (como os livros 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451) contavam com a ocultação de uma “verdade” para auxiliar no processo de dominação. Hoje em dia, o “sistema” (ou qualquer forma como vc quiser chamá-lo) nem precisa queimar livros e esconder ideias.

      A própria sociedade atual está tratando de acabar com o compromisso político mais radical pelo simples fato de oferecer um cala-boca bastante útil: o excesso de ludicidade na vida. Muita gente engole isso tudo acriticamente, da mesma forma como se empanturra de McDonalds.

      Assim, a mídia nem se preocupa em divulgar filmes com conteúdo extremamente crítico (o que antigamente seria alvo de censura por conter ideias perigosas), pois as pessoas não absorvem a mensagem -- e, se absorvem, ignoram e passam para o próximo entretenimento.

  8. @engdavirocha says:

    Só achei boa uma coisa do HBDia ter morrido e ressuscitado: Acabaram os comentários do livroderostos 🙂

  9. daniel placido says:

    sua bicha quando mudar o caminho do Feed ve se avisa antes kct

  10. Eu falo A Google e foda-se! Você só tá em posição pra falar isso porque aí vocês falam The Google, npe Izzy! UDHASUHDSA

  11. Fábio (@comdoistes) says:

    Mas e se os et’s, o monstro do lago Ness ou o pé grande tiverem uma capa da invisibilidade?

  12. […] vez eu falei que a abundância de câmeras basicamente matou a idéia de ocorrências sobrenaturais acontecendo ao no…, como os proponentes de tais coisas juram de pés juntos que é o caso. Se realmente fosse assim, […]