Não sei se vocês já notaram, mas eu sou aquilo que alguns chamariam de “nerd”.
Gosto de computadores, internet, brinquedos eletrônicos, Lego, camisetas com referências a jogos, revistas em quadrinhos, essas coisas sabe? Portanto, durante boa parte da minha vida “futebol” era isto aqui:
E que futebolzão aquilo era, ein?
Uma vez perguntei à minha mãe por que eu era tão desligado deste esporte de preferência nacional. Minha mãe, muito sábia, teorizou que a culpa é do meu pai, que também não se interessa pelo jogo. Não havia nenhuma influência familiar que me tornasse pre-disposto (ou predisposto? Essa reforma ortográfica bagunçou os hífens tudo né) a gostar também.
Faz bastante sentido. A influência paterna muitas vezes é crucial pra definir seus gostos na vida adulta. Meu pai sempre se amarrou em tecnologia e olha no que deu.
E ser ignorante sobre futebol, especialmente no Brasil, é algo terrível. Não sei chutar uma bola de forma aproveitável e acho que eu só fui aprender o que é um impedimento anteontem. Eu era sempre escolhido por último nas aulas de educação física e na primeira vez que tomei posse da bola (por puro acidente, porque passar a bola pra mim seria o mesmo que passar pro adversário logo de uma vez), descobri que a expressão “pisar na bola” tem raiz literal.
Eu achava que ser perna de pau no Brasil era uma merda, mas descobri da forma mais difícil que aqui fora é quarenta vezes pior. Sendo brasileiro, os gringos esperam de mim três coisas de mim, e eu falho em todas – ser um latinoamericano gostosão, sambar como um mestre-sala profissional, e jogar futebol com habilidade sobreumana.
(Ou é sobrehumana? Essa reforma ortográfica foi pra que mesmo?)
Pelo menos essa última eu posso disfarçar, já que em Calgary neva quase o ano todo e não há muitas oportunidades pra se jogar futebol. Mas no verão, quando a galera começa a combinar peladas, inevitavelmente alguém diz “chama o Izzy aí que com ele a gente detona os outros caras!”. Coitados.
Em resumo, não ligo muito pra futebol. Simplesmente não consigo me interessar.
Isso é, exceto durante a Copa do Mundo.
Durante a Copa eu visto aquela minha camiseta da seleção (assim como a bandeira nacional, é um item obrigatório pra imigrantes), perco compromissos importantes pra assistir o jogo, grito até a garganta doer quando a bola balança a rede, e até crio xingamentos nos momentos em que a seleção falha, pois os impropérios já existentes não capturam meu sentimento naquela hora.
Nos EUA a galera não é lá muito chegada em futebol, mas no Canadá (talvez por causa da natureza multi-cultural do país), há um interesse bem maior. em dias de jogo, minha timeline fica lotadaça com gringos torcendo pros seus times favoritos.
Ser brasileiro cercado de estrangeiros durante a Copa do Mundo é praticamente um presente de Natal pra um troll. Aquelas 5 estrelas na camisa nos permitem aloprar qualquer fã de futebol que não compartilha nossa cidadania. Temos carta branca pra tirar onda de qualquer um, mesmo que a nosso próprio time não esteja lá jogando tão bem (o que é claramente o caso neste ano).
Tenho alguns amigos ingleses que estão esperançosos que este será o ano que o Rooney erguerá uma taça. Ingleses são um dos poucos povos tão fanáticos por futebol quanto a gente, eles levam a coisa bem a sério e minha amiga CHOROU em 2006 quando a Inglaterra foi eliminada. Ela ficou arrasadaça, não quis nem sair de casa.
Obviamente, não perco uma oportunidade sequer de escrotiza-los:
Veja as stats que eu postei ali. A formatação não engana: eu obviamente colei aquilo do primeiro site que o google me ofereceu. Eu não sabia nem o que diabo era Copa das Confederações, não sabia nem que o Brasil tinha ganho aquilo, mas isso não me impede de usar a nossa superioridade futebolística pra tirar onda dos meus queridos colegas.
Isso é o legal de ser brasileiro em matéria de futebol – nem acompanho a coisa, mas tenho vitórias no bolso pra esfregar na cara dos amigos. Veja o contraste com o pobre Curtis: a Inglaterra nem jogou na Copa das Confederações e ainda assim ele assistiu ela toda!
E outra coisa: essa crítica de que “brasileiro só é patriota durante a Copa do mundo” é uma das maiores babaquices jamais proferidas. A gente tem que se orgulhar daquilo em que somos bons, porra. A gente vai se orgulhar de que? Do analfabetismo, da corrupção, da violência, das crianças pedindo trocado no sinal? O futebol é a única coisa (positiva) em que somos líderes, tem mais é que apreciar e se orgulhar mesmo.
Ter orgulho dos aspectos ruins do país é ufanismo vazio, no melhor espírito ditatorial “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”.
Aposto 20 reais com você que o cara que fala que “brasileiro só é patriota durante a Copa” é o mesmo que só compra um presente pra mãe no Dia das Mães.
Ah, e se você é do tipo que torce pra Argentina de forma irônica, pare. Agora.







@Cicero
Não acredito em Copa comprada pelos franceses, não. Alias, na palestra, o Prof. Oliver insinua que a Copa de 2002 é que foi comprada pelo Brasil. Segundo informações dele, caso o Brasil perdesse aquela Copa, Ricardo Teixeira seria deposto da CBF e preso por corrupção ativa e diversos outros crimes. Aí o Brasil vai lá e ganha a Copa do jeito que ganhou…
@sebastiãoneto
Não quis dizer que a Seleção Brasileira enfraqueceu. Quis dizer que o futebol praticado no Brasil e o poder financeiro de clubes e federações é que enfraqueceu. E isso influencia diretamente na Seleção.
Na Alemanha e na Espanha, 98% dos jogadores que defendem a seleção nacional, jogam no país. Há integração no trabalho dos clubes, seleções e categorias de base. Aqui, a CBF só quer para arrecadar. Ela não esta nem aí para os clubes. Tudo é largado de qualquer jeito e o Brasil só é forte, por ter muito, mas muito talento. Mas, continuando assim, isso vai acabar ruindo, mais hora, menos hora.
É preciso mais profissionalismo, responsabilidade e vontade de abraçar um trabalho de reforma, por mais difícil que seja. Coisas que jamais aconteceram ou acontecerão com Ricardo Teixeira e sua corja na direção da CBF. Enquanto as coisas não mudarem radicalmente, vamos viver só do talento. Só que talentos já exitem em outros lugares e quando eles forem em uma escala próxima a nossa, a organização que não temos é que vai fazer a diferença. Alias, já está fazendo.
Vou tentar achar a palestra ou, pelo menos, os slides, para disponibilizar aqui. Mas vocês podem encontrar textos do Prof. Oliver no site “Universidade do Futebol”.