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Dossiê da Ida ao Brasil, parte 2

Postado em 1 maio 2009 Escrito por Izzy Nobre 70 Comentários

Onde foi que eu parei, mesmo? Ah, sim:

Quando acordei, estávamos a poucos minutos de pousar em Guarulhos, São Paulo. A primeira vez em 6 anos que eu poria os pés em solo brasileiro.

Right. 

Descer do avião foi uma experiência única na minha vida. Toda aquela turma ao meu redor falando em português, a notável diferença de infraestrutura entre Guarulhos e Pearson, os cartazes e estabelecimentos com dizeres na língua-mãe… após mais de meia década isolado no hemisfério norte, essas pequenas coisinhas que temos ao nosso redor aí (e que a gente nem nota mais) faz grande diferença pra um imigrante que retorna.

O primeiro passo foi passar pela Polícia Federal. Por orientação do meu pai, despitei a fila de brasileiros e entrei junto com a noiva na fila dos gringos. Chegando no guichê, me apresentei como brasileiro e falei que estava acompanhando minha noiva, já que ela não fala português. A mulher do guichê fez sinal de “tá, tem problema não”, verificou nossos passaporte rapidamente e entregou-os de volta. Pegamos nossas tralhas e nos dirigimos à aduana.

Este momento estava sendo antecipado há semanas. Não sou um sacoleiro e não tava trazendo muamba pra ninguém (deixei isso bem claro pra todo mundo que pediu), mas na minha mochila havia pelo menos 2 mil dólares em gadgets – laptop, duas câmeras, iPhone, PSP, etc. Diz-se que limite de 500 dólares não se aplica a objetos pessoais – e por isso eu não declarei nada – mas vai que a PF decide dar uma olhadinha na minha mochila e resolve que minhas tralhas ultrapassam a cota?
 
Chacoalhei o receio, peguei a noiva pela mão e me apresentei pro policial federal diante da fila entitulada “Nada a Declarar”. O PF me olhou de alto a baixo, sorriu e, se me lembro corretamente, pediu pra ver nossos passaportes.

“Motivo da viagem?” – inquiriu o meganha, cortês porém firme.

“Estou vindo visitar minha família. Não os vejo há 6 anos” – eu disse, sorrindo.

Ele olhou nossas mochilas (tanto eu quanto a namorada trazíamos apenas uma mochila cada). Pouco volume certamente significa que o sujeito não está trazendo muamba, foi o que o PF deve ter pensado.

“E essa aí, quem é?” – ele perguntou, intrigado. Apesar do tom informal da pergunta, não houve desrespeito da parte dele. Ele fez a pergunta como se fosse um amigo meu, curioso sobre minha compania desconhecida.

É minha noiva. É a primeira vez dela no Brasil.

O polícia abriu um sorriso enquanto nos devolvia os passaportes.

Então sua família sempre esteve com você. Vai lá, meu camarada.

Recolhi meus pertences e fomos em direção ao saguão do aeroporto.

Logo à primeira vista, o que era mas notável era a infraestrutura consideravelmente inferior aos aeroportos com os quais eu e a muié estamos acostumados. Achei as escadas rolantes criminosamente estreitas também, qual o motivo daquilo afinal? Fomos ao balcão da TAM pra pegar nossas passagens de Sampa pra Fortaleza.

Eu queria ter tirado fotos de Guarulhos pra registrar os momentos lá e ilustrar esse post, mas como em sua última passagem pelo Brasil meu pai teve seu laptop furtado no mesmo aeroporto, achei que toda cautela era pouca. A namorada andava em passos rápidos do meu lado, com a mochila na frente do corpo e olhar atento. Vai, ria aí da cena.

Pegamos nossas passagens e seguimos em direção ao portão de embarque. Poucos momentos depois estávamos dentro da aeronave, aguardando a autorização pra decolar em direção a minha saudosa cidade natal.

Enquanto o avião taxiava, familiarizei a namorada com o quadro da separação social que acontece tão frequentemente no Brasil:

Não sou um especialista na geografia paulista, mas identifiquei esse aglomerado de casinhas pra noiva como uma favela daquelas que ela só conhecia nas imagens de filmes brasileiros.

Outra coisa que saltou aos olhos foi a grande diferença entre aviões brasileiros e canadenses. Esta é uma aeronave que faz vôos domésticos no Canadá:

Estofados aconchegantes e de aparência moderna, assentos largos, telas de cristal líquido em cada poltrona com uma miríade de escolhas de entretenimento – filmes, seriados, desenhos animados, canais de música -, duas fileiras de poltronas ao invés de três (o que justamente confere mais espaço aos assentos).

Este é o aparelho em que voamos de São Paulo pra Fortaleza:

Ok, talvez na foto o contraste não fique tão evidente, mas confie em mim – as 4 horas do trecho São Paulo-Fortaleza me pareceram BEEEM mais desconfortáveis do que as 4 horas de Calgary pra Toronto. Essa diferença entre as infraestruturas de ambos países foram uma constante nessa viagem, devo dizer.

Quatro horas depois estávamos aterrissando no Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza. Aqueles momentos entre a aterrissagem e a abertura das portas do avião pareceram intermináveis. Eu não via minha família há mais de meia década, eu estava agoniado pra saltar pra fora do avião e correr pro saguão do aeroporto.

Quando finalmente saímos do avião, acelerei em direção à saída da área de desembarque com tanto ânimo que deixei a noiva pra trás comendo poeira. As portas automáticas do saguão de desembarque se abriram diante de mim e lá estava minha família – ou, mais especificamente, uma fração dela: minha família materna.

Reencontrar familiares que você não via há anos é uma experiência indiscritível. A melhor forma que posso colocar esse sentimento em palavras é que pela primeira vez em 6 anos, eu me senti entre a minha gente, entre meus semelhantes.

Por mais que eu tenha me adaptado à cultura norte-americana, me relacione exclusivamente com amigos canadenses, tenha noivado uma gringa e tudo mais, no fundo no fundo o imigrante NUNCA se sente verdadeiramente em casa na nova pátria. Não é um sentimento de ressentimento em relação ao novo lar (muito pelo contrário, amo o Canadá), mas é que este nunca será o meu país de verdade. Mesmo com os inúmeros problemas que a gente enfrenta no Brasil, ele sempre será aquele lugar onde eu cresci.


Já que estamos falando de lugares onde eu cresci, eis uma das casas em que minhas estripulias infantis aconteceram – Rua Barão de Aracati No. 3000

Após muitos abraços e lágrimas dos meus avós, que se emocionam com mais facilidade, meu tio se encarregou de tomar nossas bagagens e a comitiva se dirigiu à saída do aeroporto. A alegria era palpável, todo mundo falava ao mesmo tempo e me atualizava sobre as novidades a respeito da família, da cidade, e do país em geral. Eu sorria tanto que minhas bochechas doíam. A noiva me acompanhava de perto, entendendo apenas algumas palavras esporádicas, mas muito feliz por estar lá comigo.

Assim que pus os pés pra fora do prédio, senti aquela baforada quente e úmida bem no meio da cara. Puta que pariu, como esse país é quente. Eu havia me esquecido disso.

Se enganam aqueles que pensam que o Canadá está permanentemente sob clima antártico – na primavera e no verão temos temperaturas superiores aos 30 graus Celsius e é quando a mulherada começa a sair na rua de minissaia e blusinha cavada, pra alegria da molecada. Entretanto, a atmosfera aqui é incrivelmente seca.

No Brasil, a impressão térmica é amplificada pela umidade do ar ao seu redor. Enquanto consigo encarar 35 graus em Calgary sem problema, aqueles 32 que faziam em Fortaleza quando desembarcamos estava quase me fazendo desmaiar. Em questão de segundos eu senti claramente a camiseta aderindo no corpo graças ao suor, e um banho era necessário.

Aliás, esse calor insuportável foi uma constante da minha visita ao Brasil. Quando era encorajado pelos amigos a simplesmente tirar a camiseta, eu recusava – andar topless é algo que eu não faço nem em casa aqui no Canadá. Costumes diferentes e tal.

Farney, meu melhor amigo de longa data – nos conhecemos em 1997, na sétima série do antigo Colégio Adventista de fortaleza – estava também presente no aeroporto. Eu e a noiva saltamos no carro do cidadão, o resto da família foi no carro do meu tio. Minutos mais tarde estávamos na casa da minha avó, local em que passei boa parte da minha infância.


Farney e Becca na frente da casa da minha avó


A rua, vista por outro ângulo

Acomodamos nossas bagagens, tomamos um banho merecido e saímos pra comer alguma coisa. A noiva estranhou muito a sujeira nas ruas, o mal estado de conservação das casas e prédios, e os ônibus – eles são visivelmente maiores que os ônibus daqui, provavelmente pra acomodar a população maior. O Canadá, apesar de ser o segundo maior país do mundo, tem míseros 30 milhões de habitantes.

Entre as coisas que eu estranhei foi a frequente insistência dos atendentes de estabelecimentos comerciais que você os fornecesse com o troco exato pra qualquer transação. Seja lá o que eu estivesse comprando, o sujeito do outro lado do balcão sempre perguntava se eu tinha vinte ou trinta centavos pra “interar” o troco. Esse tipo de prática aqui seria considerada extremamente mal educada. Aqui, parte-se do princípio de que o atendente tem que facilitar a vida do consumidor, não o contrário.


Feirinha de artesanato na Beira Mar

Outra coisa que me pareceu estranha é que sempre que eu dava meu Visa, o sujeito perguntava se era débito ou crédito. Eu pensava “porra, você não tá vendo o logo do Visa no cartão, não?“. Só após voltar pro Canadá é que me explicaram que no Brasil, não há cartão de débito – você acessa tanto débito quanto crédito usando o cartão Visa. Aqui, se você entrega um Visa pra alguém, a pessoa não precisa perguntar que conta você quer acessar.

Uma coisa que chocou a Becca é que onde quer que ela ia, mesmo que ela não abrisse a boca, boa parte da galera ao redor a encarava sem cerimônia e sem cortar o contato visual mesmo quando ela olhava de volta pra eles. Eu já antecipava esse fenônemo, mas não achava que seria tão geral. Era IMPOSSÍVEL andar com ela sem atrair milhões de olhares curiosos. E quando a gente conversava, então?


Praça do Ferreira, no centro de Fortaleza

Outra coisa curiosa e digna de nota foi que alguns leitores cearenses do HBD nos viram no Shopping Iguatemi mas, sendo viadinhos, não tiveram coragem de vir falar com a gente – só vieram me avisar do acontecido pelo twitter ou por email dias depois. Fazer o que, né.


Ela se arrumando pra ir pra boate

Pra não me estender mais tanto neste texto, basta dizer que essa foi, definitivamente, a melhor viagem de toda a minha vida. Rever velhos amigos e familiares que eu não via há anos é indescritível, ter grana no bolso pra sair todo dia sem se preocupar é melhor ainda.

Voltar pro Canadá trouxe uma estranha sensação de tristeza. Se por um lado eu recebi de braços abertos os velhos confortos que a vida no primeiro mundo me permite, por outro ficou galvanizada o sentimento de que o Brasil nunca mais será minha casa, e que pra experimentar essa alegria eu preciso economizar por meses e me contentar a ver a família por algumas semanas de cada vez.

Como é de praxe, todos os vídeos que eu fiz quando estava na pátria amada idolatrada salve salve viraram esse vídeozinho que você vê aí embaixo:

O resto das fotos da viagem estão aqui. Se você está curioso sobre qualquer detalhe da viagem, sinta-se à vontade pra perguntar nos comentários.

E já estou economizando os centavinhos pra voltar de novo em 2010.

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Categorias: Geral

70 Comentários \o/

  1. Guilherme disse:

    Eu SEI como é essa sensação.
    Morei quase 10 anos na Inglaterra a trabalho, e quando eu voltava de Porto Alegre para lá, eu sempre ficava uns três dias com essa sensação.

    Sorte que voltei pra cá :) No final, se você tem dinheiro para viver confortavelmente, o Brasil até que é bom.

    Mas imagino o choque que deve ter sido sair do Canadá e chegar no NE …

  2. Kim disse:

    E a lôra, achou o q?

  3. Darox disse:

    Legal o texto e o vídeo.

  4. Jonny B. Good disse:

    Cara, vc tinha que separar um tempo nessas suas vindas pra cá pra passear mais, tipo tirar um, dois dias pra ver outros pedaços do Brasilzão, pensa vcs numa amazonia da vida, ou um pantanal… as vezes vir aqui no goiazão de meu Deus e passear na (arrrammm) MAIOR estancia hidrotermal do mundo (kkkkkkkkkkkkkkkkkkk)…

    Ps.: Num enrola mt a parte 3 não, pliz!!!

    Ps²: Que tal a Becca postar ela uma historinha da viagem aqui???

  5. Maexliam disse:

    Aê garoto, foi lá e papou uma loirinha canadense, esse honra a raça brasileira.

    Pq só dá brasileira casando com estrangeiro, viu.

  6. Leo disse:

    Eu entendo esse sentimento. Ainda que meu caso seja em proporções menores. Passo uma semana, duas em Sã Paulo e chego de volta em Porto Alegre, com uma saudade imensa.

  7. Mi disse:

    Querido, realmente, a sensacao de ir ao BR eh unica!!! Mesmo sabendo que a qualidade de vida fora de la eh bem melhor, o “estar em casa” nao tem preco (ou tem,ne?)… Porem vc esta no Canada, que alem de lindo com as pessoas mais “friendly” do mundo ( na minha opiniao), vc esta relativamente perto… Ja que,um voo BR-Aus da uma media de 25 horas…
    Mas soh pra inteirar… Aqui na Australia, eles tbm perguntam se eh debito ou credito ao ver um Visa!
    e a curiosidade maior foi: no geral, o que sua noiva achou?
    boa volta!

  8. Solum disse:

    Bem maneiro teu post, Kid.
    Eu tb sou imigrante, e esse ano, apos 2 anos fora do Brasil, tb voltei.

    Eh realmente eh uma sensacao indescritivel. Ver parentes, amigos do peito. E o melhor de tudo eh ter dinheiro no bolso mesmo e curtir muito! :)

    E concordo plenamente contigo: um imigrante NUNCA se sentira em casa se nao nao terra-mae. Vai entender pq a gente sente isso, neh?

    Abracao

  9. Guilherme disse:

    caraca!
    essa é a primeira vez que comento aqui!
    mas era só pra deixar registrado o quanto acho esse site foda (provavél candidato a pagina inicial)
    e também que sei mais ou menos como voce se sente, porque sou filho de imigrantes e a gente sabe como as pessoasse sentem no fundo com relação a sua terra natal!

    E só mais uma coisa: MEU DEUS DO CÉU ! aquela menina de olhos azuis era a irma da sua esposa?!?!? quase fui ao Canadá só pra me casar com ela!!! E pode ter certeza que eu iria!

    abraços!!

  10. [...] – Postei a segunda parte do dossiê da viagem ao Brasil. [...]