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Minha primeira "suspensão": Conclusão

Postado em 20 maio 2011 Escrito por Izzy Nobre 138 Comentários

No último capítulo, a aventura terminou assim:

E além disso, eu continua pensando — quanto estrago essa criançada pode ter realmente causado em míseros 5 segundos? Por maior que fosse a fúria anarquista daquela cambada de crianças de classe média, não é como se eles tivessem destruído a sala completamente, né?

Acalentado por este pensamento, fui dormir naquele dia.

Na tarde seguinte, ao entrar na sala de aula, eu percebi o quão errado eu estava.

Então. Como expliquei, a sala virou um total pandemônio quando apaguei a luz. Eu já estava no meio da minha fuga e por isso não pude testemunhar por mim mesmo a destruição que a galera tocou. Apesar de ter ficado assustado com o barulho vindo da sala, ao fim do dia decidi que não era possível que uma cambada de pivete de 13-14 anos tivesse de fato causado tanto estrago assim.

Aliás, acho que a sala não ficou no escuro nem 5 segundos inteiros; parece muito tempo.

E, além disso, eu me evadi da escola antes que fosse possível lavrar o flagrante. Embora este raciocínio fosse falho (afinal, seria mais lógico que o sujeito que apagou a luz estava entre os primeiros a correr pra fora da sala, e neste caso ser um dos poucos que fugiu da escola apressadamente testemunhava CONTRA mim), por ora ele me acalmava.

Nunca vão descobrir que fui eu“, eu pensava. Oh, a inocência!

No dia seguinte, no pátio da escola antes de entrar pras aulas, a turma estava estranhamente silenciosa sobre o ocorrido no dia anterior. As rodinhas de conversa abordavam todos os assuntos triviais (quem da turma havia ganhado um tamagotchi nessa semana, o fato de que o amigo do primo do vizinho de um dos garotos tinha conseguido soltar o lendário combo de 99 hits do Sub Zero, e por aí vai), mas ninguém falava muito sobre o que aconteceu na noite anterior.

Aliás, eu não lembro de ninguém falar NADA. Era estranho que algo tão fora do comum tivesse acontecido há menos de 24 horas, mas ninguém estava discutindo o evento. Estariam eles evitando o assunto propositalmente? Ou a confusão não foi tão séria quanto eu imaginava — e por isso o desinteresse — ou a turma também estava apreensiva e preferia não tocar no assunto.

É bem coisa de criança isso, evitar mencionar um assunto que você sabe que pode resultar em merda pro seu lado. Lembro que de vez em quando na minha infância, meu pai estava chateado comigo na magnitude propícia para uma surra — só que às vezes isso acontecia quando não estávamos em casa. O castigo foi prometido, mas havia uma leve chance de que o velho esquecesse que tava com raiva no caminho pra casa.

Então eu voltava no carro no maior silêncio do mundo, com medo de que qualquer assunto que eu puxasse tivesse sete ou menos graus de separação com o motivo que deixou meu pai com raiva. Se ele esquecesse que prometeu uma surra, eu sairia ileso.

E era essa a impressão que eu tinha naquela tarde, no pátio da escola. Algo incrível aconteceu na noite anterior e ninguém parecia interessado em comentar o assunto. Estaria todo mundo tão preocupado quanto eu? É bem possível. Esse pensamento me confortou. “Se eu me foder, não me foderei sozinho, pelo jeito!”

Eu tava morrendo de curiosidade pra descobrir o que tinha rolado na sala, mas concluir que exibir tal interesse (especialmente quando o resto da turma parecia estar despreocupada ou tentando evitar o assunto) era dar mole. Fiquei na minha.

Bate o sinal e a gente entra na sala.

A primeira vista, notei que haviam menos cadeiras na sala. E algumas delas não eram as carteiras que estávamos acostumados — as nossas carteiras tinham acabamento liso, de fórmica azul.

Acho que era fórmica, sei lá. Eu lá tenho cara de quem entende de madeira? Era um acabamento envernizado azul. Era exatamente assim, só:

 

Só que azul

Então, várias carteiras estavam faltando, e em seu lugar haviam modelos mais antigos, de madeira marrom. Aliás, não haviam partes de metal na carteira: eram inteiramente de madeira, e davam a impressão de ser bem velhas e pesadas.

E quase todas as carteiras “novas” estavam no fundo da sala.

O cérebro engrenou enquanto eu me dirigia ao meu assento. Sem dúvida, no meio da bagunça a molecada mais TERRORISTA deu um jeito de quebrar algumas carteiras. Como eles deram um jeito de fazer isso em tão pouco tempo é difícil de entender, mas não havia dúvidas. Aquelas cadeiras marrons velhas, que destoavam completamente o visual da sala, eram o testemunho do real potencial de uma cambada de pivete no escuro.

Duas janelas estavam estilhaçadas, também. Alguns riram do estado da sala, e finalmente começaram a comentar os acontecimentos do dia anterior, mas eu me tornava cada vez mais preocupado. Por mais que eu não tivesse tido parte ativa na destruição dela, no meu íntimo eu sabia que o engraçadinho que apagou a luz acabaria como bode expiatório.

Nisso já estávamos todos sentados nas carteiras, naquela algazarra comum de sala sem a presença da professora. A primeira aula do dia seria justamente da Cibele, de biologia.

Aí eu notei que um dos ventiladores da sala, o do lado esquerdo (o que ficava mais longe de mim) havia sumido. Não dei muita importância ao fato.

Percebi também a ausência de ambos o Hugo e o Thiago “Cambota”, os bullies oficiais da nossa sala, que sentavam lado a lado no fundão. Aliás, o fato de que o mapa da sala não separou os dois nem os trouxe à frente da sala provava o quão sem moral era o sistema lá no Colégio Adventista.

Caso você esteja curioso, o Thiago Cambota foi apelidado de tal forma por ter pernas arqueadas; talvez “cambota” seja um termo cearense/nordestino pra esse defeito, não sei.

Basta imaginar o personagem que acabou virando o outro apelido dele (“Tommy dos Anjinhos”) pra entender a figura.

Ai daquele que se atrevesse a chamar o Thiago de Cambota ou Tommy, aliás. Era capaz de voltar pra casa sem as calças, que teriam como local de descanso final o telhado da escola. Sim, isso aconteceu uma vez. Coitado do Ricardo.

Os bullies da sala mediam forças chamando uns aos outros de apelidos indesejados perante a sala inteira, numa disputa de virilidade que remete aos documentários da Discovery com alces se atracando ou pavões arreganhando o rabo pra impressionar as fêmas com a sua plumagem. Uma demonstração de masculinidade e tal.

Entretanto, pra nós reles mortais, esses apelidos aloprativos dos bullies eram estritamente proibidos. Usávamos pra nos referir a eles apenas quando rodeados de colegas de confiança. Se chegasse aos ouvidos do Thiago que você o chamou de Cambota, é capaz da surra ser ainda maior pela suposta covardia do ato (afinal, você teria falado “pelas costas”).

Já que estamos entrando nesse assunto, vale lembrar que melhor que os apelidos jocosos era o clássico “filho da Fulana”. A identidade da mãe era um segredo guardado a sete chaves naquela época; se alguém descobrisse o nome da sua mãe (geralmente roubando os nossos boletins e lendo a área que menciona a nossa afiliação), jamais te chamariam pela sua graça novamente. Dali em diante você seria eternamente “Fí da Fulana”.

Aliás, mais um parêntese: O Hugo era tão filho da puta que, uma vez, ele interceptou uma troca de cartuchos de SNES que eu fazia com o Luciano. Ele simplesmente se meteu na conversa, catou a minha fita de Super Star Wars the Return of the Jedi, e não devolveu por MESES. Achei até que tava perdida pra sempre.

E, de panaca que eu era, demorei meses pra finalmente reclamar com a diretoria e reaver o cartucho.

Então, voltando à história. O Thiago e o Hugo, dois bullies que a gente nunca sabia se eram amigos ou se odiavam (tão acirrada era a sua competição pela posição de macho alfa da sala) haviam faltado a aula.

Perguntei ao Norman — acho que o nome dele era Leandro, mas a gente só chamava ele de Norman, em referência a um filme qualquer que eu nunca assisti e por isso não entendi a correlação — e ele falou que eles foram “suspensos ontem”. Aparentemente, na confusão do escuro da sala, ambos começaram a se estranhar e acabaram saindo no braço. Quem espancou quem seria um debate pra toda a eternidade, e a resposta ia depender de quem estava contando a história (Team Hugo ou Team Cambota).

Engoli em seco. Pelo jeito a brincadeira do dia anterior já começara a ter casualidades. Duas suspensões até agora.

Comecei a rabiscar o caderno pra ocupar a mente. Todo mundo já sentado nas suas carteiras, esperando a professora.

Cinco minutos do começo da aula e nada da mulher aparecer.

Dez minutos e nada.

QUINZE minutos se passam e nenhum professor na nossa sala ainda. Neste momento a baderna aquiesceu um pouco, porque até a meninada começava a se preocupar.

Nisso entra Chiquinho, nosso professor de matemática. Ele era um cara até gente boa, muito inteligente, mas por namorar (ou ser noivo, sei lá) da Socorro — a cordenadora do colégio, que tinha hilários 1,45m de altura — ele se achava coordenador por associação. Volta e meia tava dando voltar pelo pátio durante o recreio pra admoestar os brincalhões e tal. Tivesse eu naquela época a mentalidade de hoje, teria falado pro cara que a posição de coordenadora de uma escola não é que nem herpes — você não pega por comer alguém que já tinha.

O Chiquinho, severo, explica pra gente que a ausência da Cibele se devia pelo fato de que, na noite anterior, ALGUÉM (ele deu uma ênfase quase teatral no ALGUÉM) havia apagado a luz da sala, e como resultado a turma tocou o terror e a professora acabou sendo machucada por uma cadeira voadora.

Yep. ALGUÉM JOGOU UMA CADEIRA NA PROFESSORA. E não é que o machucado fosse tão grave que ela não podia trabalhar — ela simplesmente resolveu não ir pra escola, e talvez nunca mais voltasse.

O Chiquinho explicou também que foram cadeiras voadoras que derrubaram o ventilador esquerdo e quebraram as vidraças, e que as cadeiras feionas eram pra substituir as cadeiras quebradas durante a baderna.

Ele desfiou uma ladainha chatíssima e cheia das lições de moral que nós bagunceiros dos tempos de escola tavam cansados de ouvir — que estudar numa escola particular era um privilégio, que estávamos agindo como gente sem educação, blá blá blá.

Por incrível que pareça, o papo dele me acalmou. Em nenhum momento ele fez menção de punição por causa do acontecido. Achei que ia ser só aquilo mesmo — suspensão dos brigões, bronca por causa dos danos à propriedade da escola, e uma aula substituta de matemática enquanto a Cibele decidia se queria ou não continuar dando aula no colégio.

Escapei“, pensei comigo. “No final das contas não deu em nada — pra mim, isso é. Fodam-se o Cambota e o Hugo.

Nisso o Chiquinho cansa de dar lição de moral e começa a aula. Até hoje ainda lembro do assunto da aula: DIVISÃO DE POLINÔMIOS. Não era o meu forte, mas eu tava me sentindo tão aliviado com o desfecho da estripulia que resolvi me esforçar pra entender o material.

E aí aparece a Socorro na porta da nossa sala. Meu sangue congelou no ato. Lendo uma folha que ela trazia na mão, ela chamou 5 nomes. Os alunos chamados seguiram-na até a coordenação, e só retornaram depois de uma meia hora — a aula do Chiquinho já estava quase acabando.

Perguntei à Mara (que era uma gostosíssima, eu nunca perdia uma oportunidade de falar com ela) qual era o lance.

“Ah, eles nos fizeram umas perguntas lá. Queriam saber quem apagou a luz ontem”.

Senti a espinha esfriar. Pro meu horror, pelo jeito eles iriam investigar a história a fundo.

E estavam atrás da pessoa que apagou a luz.

(Opa, falei que era a conclusão, né? Na verdade, foi erro de digitação. O texto continua amanhã)

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Categorias: Geral, Minha infância

138 Comentários \o/

  1. Murilo Esteves disse:

    Realmente essa saga esta prendendo muitos seguidores , mas porra Kid manda logo o final pra gente ou ao menos não demore muito para apenas continuar a história! E eu também achava engraçado a forma como soava Pais ou Responsaveis.

  2. ana beatriz disse:

    Seus colegas eram ninjas oO em 5 segundo conseguiram quebrar janelas, quebrar o ventilador e traumatizar uma professora porra TERMINA LOGO KID

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