Minha namorada, que pouco a pouco abraça o estilo de vida nerd por influência minha, recentemente aprendeu a dominar a técnica de download via torrents. Agora são três computadores constantemente baixando mídia aqui em casa, usando todo o limite da minha banda e efetivamente inutilizando minha conexão. Se bem que, quando paro pra pensar, tudo que meu irmão e minha mulher baixam é anime, o que tecnicamente já significa que minha conexão está sendo inutilizada.
Aí está um dos meus HDs. Uso esse aí exclusivamente pra arquivar vídeos.

Sim, eu sei que 180 GB é provavelmente uma fração insignificante dos terabytes de animação pornográfica japonesa que você talentosamente esconde no PC da família, mas ainda assim é uma quantidade digna de provocar preocupação. Afinal de contas, você está olhando pra todas as temporadas completas de Simpsons, Family Guy, My Name Is Earl, South Park e uma cacetada de filmes aleatórios – incluindo o BangBros Legacy – Best Hits Collectors Edition Widescreen com faixa de comentários dos diretores. Isso é muito material adquirido ilegalmente.
Alguns de vocês provavelmente riem da idéia de encarar um tribunal por causa de algo tão trivial como um download ilegal, mas isso é porque vocês moram no Brasil. Na América do Norte, esse tipo de coisa é levada com bem mais seriedade. Se algum dia eu me visse sujeito a algum tipo de investigação por causa do material copyrighteado que passa pelo meu modem diariamente, estaria completamente fodido. A conta com meu provedor está no meu nome, o que me torna legalmente responsável pelo uso, e o simples fato de que eu possuo um HD de 500 GB serve como prova da malícia – afinal de contas, quem (além dos piratas) compra HDs com tanto volume? Como diabos alguém preencheria 500 GB de forma lícita? Os .pps que a tia Lindalva manda periodicamente, apesar dos cliparts de gatinhos de inexplicáveis 2 megabytes, não requeririam um HD massivo.
Se algum dia eu me visse diante de um juiz e tivesse que me explicar, eu poderia talvez alegar insanidade; talvez os inúmeros trackers de anime usados pela nossa conexão ajudariam meu argumento. Por via das dúvidas, resolvi começar a elaborar uma defesa legal. Comecei a pesquisar sobre o assunto. Uma descoberta levou à outra, e o resultado me deu a idéia pra esse post.
Vou deixar algo claro – eu nunca morei nos EUA. Entretanto, passei várias temporadas lá (um mês em 1999, duas semanas em 2003, alguns dias em 2004), além de ter parentes próximos (minha própria mãe e minha irmã, por exemplo) e conhecidos que moram lá e que compartilham experiências comigo. Tenho algum conhecimento empírico sobre o estilo de vida estadunidense. Se você achar algum defeito factual no texto, sinta-se à vontade pra debate-lo.
Aqui estão alguns breves motivos que tornam o Canadá melhor que os EUA.
Não há perseguição contra usuários de p2p
Quando começamos a trocar nossas primeiras mp3s há quase dez anos, a internet era análoga ao Velho Oeste como descrito naqueles filmes que passam na TNT de madrugada – uma terra sem leis e de limites ainda não totalmente explorados.
Nós, os pioneiros desse novo horizonte, sabíamos – ou pelo menos suspeitávamos – que trocar músicas no Napster era uma forma de pirataria, mas a idéia de ser realmente punido por causa disso ocupava o mesmo patamar de probabilidade de cagar uma barra de ouro maciça após uma trepada com a Megan Fox.
Tudo isso mudaria em 2000, quando Lars Ulrich descobriu que internautas estavam trocando músicas do Metallica gratuitamente através da internet. O baterista convocou seus advogados, convencido de que aquilo tinha que ser algum tipo de prática ilegal.
E era. Entra em cena a Recording Industry Association of America, mais comumente conhecida pela odiável sigla RIAA. Desde então a RIAA e seu exército de advogados lançaram mais de trinta mil processos legais contra internautas nos EUA, ganhando boa parte deles, mudando a opinião dos fãs sobre seus artistas favoritos, e arruinando algumas vidas no processo. A ferocidade com a que a RIAA persegue os piratas é tamanha que virou motivo de escárnio – em algumas ocasiões, a organização virou alvo de ridicularização após iniciar ações contra crianças e até mesmo pessoas que haviam morrido meses antes de receber as intimações.
No Canadá, a situação é diferente. Baixar arquivos protegidos por copyright não é crime (“ainda”, acrescentam os pessimistas); o crime seria lucrar com a atividade ou distribuir o material. Essa foi a brecha, e a indústria fonográfica canadense tentou convencer a lei de que uploadear músicas pra outros internautas é equivalente a distribui-la.
Não deu certo. Em 2004, o célebre caso BMG Canada v. John Doe estabeleceu o precedente legal de que upload não configura um método de distribuição – para isso, deveria haver um esforço consciente do acusado de propagandear o material. Simplesmente permitir que outros usuários acessem o conteúdo do seu HD, como decidido pela corte canadense, não equivale a distribuir.
E ainda por cima, a corte também decidiu que os provedores não são obrigados a entregar a informação pessoal de seus clientes pras gravadoras, o que impede ainda mais que a indústria fonográfica canadense imite a americana.
Nem tudo são flores, no entanto. No ano seguinte a BMG apelou o caso e, apesar de perder novamente, conseguiu uma pequena vitória a ser explorada no futuro: a corte de apelos concordou que a decisão anterior sobre a relação entre upload e distribuição foi imprópria. O juiz que declarou distinção entre os dois estava errado.
Não tenho provas sobre isso, mas gosto de imaginar que o juiz da corte de apelos sacaneou o promulgador da sentença original, sugerindo que este aprendeu Direito assistindo aqueles julgamentos do povão da TV americana – talvez a versão ripada que ele achou no Pirate Bay. De qualquer forma, até agora as gravadoras não obteram êxito em estabelecer um precedente legal favorável. É provável que tentem novamente no futuro, mas até agora eles só gastaram dinheiro. Uploadear talvez venha a causar dor de cabeça um dia, mas o download é seguro por enquanto.
E pra deixar as coisas ainda mais complicadas pra indústria musical canadense, um representante da RCMP (a FBI canadense) falou em entrevista coletiva que “download pra uso pessoal de de material sob copyright não é uma preocupação da polícia. Há muitas pessoas fazendo isso, e não temos meio nem interesse de perseguir todos eles”.
Assistência médica gratuita
Alguns países de primeiro mundo, mais especificamente na América do Norte, parecem ter um problema com a idéia de serviços estatais. Os dois ramos em que isso acontece mais notavelmente são a educação e a saúde.
Como expliquei no post anterior, não existem faculdades públicas na América do Norte. Bom, elas se categorizam como “públicas”, e tecnicamente o são, já que permitem acesso a qualquer indivíduo (ao contrário de escolas ou faculdades religiosas, que limitam o acesso a membros da fé). Mas elas não são “públicas” no sentido que gostamos. São pagas, e custam MUITO caro.
Nos EUA esse tipo de política se estende à saúde também - ninguém recebe tratamento médico gratuito bancado pelo governo. Você não será recusado na sala de emergência caso tenha quebrado um braço; o problema é que você passará o tempo todo pensando como vai pagar a dívida com que sairá do hospital.
A única forma de obter cobertura médica sem pagar por isso é trabalhando pra uma empresa que ofereça planos de saúde. E até mesmo dessa forma, você provavelmente se foderá de alguma maneira no futuro.
É que empresas de planos de saúde, sendo os bons capitalistas filhos da puta que são, elaboram diversas cláusulas secretas que os dão direito de negar pagamento das suas contas hospitalares. Teve uma doença qualquer aleatória antes de se tornar membro? Se vire, seu plano não cobre essa sua cirurgia. Seu pai morreu de ataque cardíaco? Tá lascado, pague esses remédios você mesmo. A política específica é longa e complicada demais pra explicar nesse texto, mas é essencialmente isso aí. Caso tenha interesse no assunto, o filme Sicko, documentário “mamãe-eu-odeio-a-América” mais recente do Michael Moore, explica melhor. Se você conseguir filtar as falácias do filme, isso é.
Enquanto isso, no Canadá atendimento médico é gratuito não apenas pros cidadãos nascidos aqui, mas pra qualquer pessoa que imigrou legalmente. Aliás, tenho o Governo Canadense a agradecer pelo fato de minha namorada nunca ter engravidado.
Não somos alvo de terroristas
Tanto a política externa mais gentil como o fato de que somos uma sociedade mais secular que os EUA torna o Canadá um país que antagoniza menos os valores do povo muçulmano. Ou isso, ou é que “DEATH TO CANADA” não tem a mesma métrica por isso não soa tão bem quanto “DEATH TO AMERICA”.
O Canadá se meteu no Afeganistão de forma menos agressiva que os nossos vizinhos do sul, e além disso preferiu se manter longe do Iraque já imaginando o tipo de sentimento contrário que uma invasão não-provocada resultaria. E, como podemos ver, fizeram muito bem em não se enfiar naquele vespeiro. A única coisa que se pode dizer com certeza a respeito da invasão americana ao Iraque é que é mais um daqueles eventos que servirão como catalizadores pro surgimento de uma nova geração de terroristas daqui a dez anos.
Por causa disso, os canadenses não são exatamente o alvo principal dos jihadis. Claro, teve aquele negócio em 2006, mas a única coisa que a situação provou é que o governo canadense é mais eficiente pra desmanchar planos terroristas.
Este item é auto-explicativo


Não preciso mais falar muita coisa.
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Pessoalzinho, sou obrigado a dizer que tou feliz pra cacete com o volume da participação de vocês aqui no HBD recentemente. Puta que pariu, 230 comentários? Assim vocês vão deixar os outros webmasters com – muita – inveja.
Como já falei antes, podem ter certeza que leio cuidadosamente cada comentário postado aqui. Não fique pensando que eu me considero importante demais pra ler sua opinião. Às vezes, são justamente os comentários de vocês que complementam o texto.
E cada vez que um post como esses ultrapassa a marca de cem comentários, eu sinto que o trabalho de escrever essas bobagens pra turma perder alguns momentos no trabalho não está sendo em vão.
Bom começo de semana procês, e amanhã temos mais aqui.





Reclamei de barriga cheia
… vou providenciar então assim que terminar o Rescue Me
Tks!
@jvitor http://tinyurl.com/blxxcw
Parece ter um errinho aí no link.
E, pelo menos eu, não vejo muita graça nos outros blogs.
“Aliás, tenho o Governo Canadense a agradecer pelo fato de minha namorada nunca ter engravidado.”hehehe
Como eles imperiram,hein?Monitoraram se ela so dava com proteção?
Dão pílula anticoncepcional de graça.
*impediram