Amarrado na maca com o cilindro de óxido nitroso entre as pernas e o tubo na boca, fui empurrado na calçada em direção à ambulância. A namorada seguia de perto, trazendo minhas tralhas nos braços (calças, camiseta, tênis e celular). Meu irmão a seguia, recapitulando o acontecido pra menina ainda meio desinformada.
Os paramédicos abriram as portas traseiras da ambulância e ergueram a maca, empurrando-a em direção ao interior do veículo. As hastes da maca se retrairam à medida que a maca adentrava a ambulância. A namorada fez menção de me acompanhar, mas um dos paramédicos interviu e explicou que ela precisava ir sentada na frente. Ela obedeceu.
Era a minha primeira vez dentro de uma amulância. Eu tinha uma experiência superficial com o ambiente, advinda dos filmes. Uma porrada de instrumentos médicos povoavam o interior o veículo – reconheci um desfibrilador portátil, aparelho que fui treinado a usar no trabalho. O desfibrilador estava montado numa base retrátil, que podia ser puxada pra fora pra coloca-lo mais próximo do paciente.
Havia um monte de gavetas cobrindo toda a área intera do negócio. Pra onde eu olhava, havia uma gaveta. Jeff abriu uma dessas, e puxou um pacotinho plástico. Havia uma mera semelhança com um embrulho de doce, e lembrei-me de quando eu ia no dentista e o cara me dava um pirulito.
Jeff não tinha um pirulito pra mim. Ele rasgou a embalagem e revelou um cáteter. Sua mão mergulhou na gaveta novamente, e voltou à minha vista com outro pacotinho. Ele rasgou o novo embrulho, e seu conteúdo era aquilo que é tão universalmente odiado quanto pizza de atum ou Hitler:
Uma seringa. A visão do instrumento odiável enviou calafrios à minha espinha.
Habilmente, Jeff descartou os dois pacotinhos plásticos num receptáculo marcado com o símbolo que indica dejeto hospitalar. Com a mão livre, ele depositou a seringa e o cáteter num banco ao lado.
Sob a névoa do gás, perguntei “…seringa pra que?”
Jeff agora se inclinava por cima de mim, tentando alcançar uma gaveta próxima ao teto da ambulância. Ergui um pouco o pescoço e pude ver que ele estava aparentemente procurando alguma coisa entre o conteúdo da gaveta.
“O problema do gás do riso” explicou Jeff “é que o efeito dele é muito fraco, e a pessoa adquire tolerância rapidamente. Daqui a pouco o efeito sedativo dele vai passar, e suas costas vão doer mais do que estavam doendo antes. E não queremos isso, né?”
Estranhei o tom teatral dele. Imaginei que na faculdade, os caras são instruídos a manter tom informal e amigável com o paciente, pra inspirar confiança e acalmar os acidentados.
Jeff puxou alguma coisa de dentro da gaveta, e eu não consegui ver o que era por causa do ângulo. Ele fechou a gaveta e sentou-se novamente no banco. Aí ele olhou pro objeto em sua mão, se inclinou em direção a mim e o estendeu-o diante dos meus olhos. Era um vidrinho de uns quatro centímetros de comprimento, com lacre metálico em cima.
“É aí que isso aqui entra”.
“Que é isso?” perguntei curioso. Jeff não estava brincando, dava pra notar que os efeitos do gás estava realmente passando. E rápido.
“É um sedativo um pouco mais forte. Ele vai te deixar um pouco tonto e menos alerto ao mundo ao seu redor, mas eu poderia derrubar uma bigorna na sua canela e você não vai sentir nada”.
E sem perder muito tempo, Jeff removeu a proteção plástica do catéter, exibindo a parte pontuda. Ele produziu um algodão do nada e começou a desinfetar as costas da minha mão.
Eu queria protestar o uso da injeção, mas eu não sabia o que dizer. Não queria dar uma de frouxo, mas porra, eu já estava todo fodido. Tive que ser resgatado pelo 911 por ter caído da cama. Todos os meus vizinhos me viram sendo levado pro hospital de cuecas, e eles sabem o motivo. Minhas costas estavam doendo como nunca nenhuma parte do meu corpo doeu. Precisava me furar também?
“Mas precisa mesmo?” perguntei temeroso e tentando não transparecer minha mariquice.
“Bom” respondeu Jeff num tom que indicou que minha tentativa foi falha “o efeito do gás vai passar. E quando chegarmos no hospital, você não vai poder ficar andando por lá com o tubo. Vai ter que ser intravenoso mesmo. Relaxa, nem dói”.
Whatever, pensei enquanto ele terminava de desinfetar as costas da minha mão. Olhei pro outro lado enquanto ele enfiava o catéter na minha mão. A sensação de um objeto estranho adentrando a pele não é exatamente dolorosa, é mais é agoniante.
O paramédico em seguida afixou o catéter na minha mão com fita adesiva. Ele então meteu a seringa no vidrinho, sugou uma quantia que julgou suficiente, e deu tapinhas no vidro.
“Ahahaha, igual nos filmes” falei pra mim mesmo em voz alta.
“É pra remover o ar”, explicou o Jeff. E depois conectou a agulha com a saída do catéter, e empurrou o êmbolo.
Cinco segundos depois senti o alívio. Aliás, o alívio foi tão grande que eu tive a impressão de que iria me borrar/mijar todo se não me segurasse. Minha cabeça pendeu pro lado, e eu senti sono. Jeff apanhou o cilindro do gás e o depositou em outra gaveta. Depois descartou a seringa no mesmo lugar onde havia jogado as embalagens.
Olhei pro cáteter. Apertei a pele na área onde o tubinho entrava na minha mão; era estranho sentir aquele troço embaixo da minha pele.
Notei os adesivos que o maluco usou pra firmar o cáteter no lugar. Imaginei o quão doeria pra arrancar aquela porra, que invariavelmente levaria junto todos os pelinhos da minha mão. Pra testar a aderência do negócio e ter uma idéia de quão dolorosa seria sua remoção, arranquei as beiradinhas.
“Izzy, pare de mexer no negócio!” veio a voz da namorada, que estava sentada na frente da ambulância. Eu havia até esquecido que ela estava lá.
“Como é que você está me vendo?”
Jeff apontou pra um círculo plástico afixado acima das portas traseiras da ambulância. Um círculo composto pelo que parecia várias LEDs adornava a circunferência do negócio.
“Tá vendo aquilo? É uma câmera, tem um monitorzinho lá na frente, pra eles saberem o que acontece aqui e tal”.
“Hmmm.”
“Pare de arrancar o negócio!” repetiu a namorada. Ouvi-a dizer pro motorista que eu era “igual criança”.
Deixei o adesivo em paz. Quando essa porra tiver que sair, pensei, foda-se. Vai com cabelo e tudo mesmo.
Poucos minutos após isso, chegamos no hospital.
Continua no próximo episódio





“Ouvi-a dizer pro motorista que eu era “igual criança”.”
Foi sem dúvida a melhor parte.
isso aque vai ser igual death note no final todos vão soltar um “AFFEEE” ahaehehahaeh
Cara, to esperando o próximo episódio dessa saga euheuheuhe
Abraços
Nossa, tudo isso por que você caiu da cama?? Vou procurar a parte 2 e a 1..
Eu também odeio injeção, mas como sou mulher, posso ser fresca (=D) e desmaiei quando fui tomar a segunda injeção pra alergia…
fuiz..
Awe kaidô, cade a proxima parte??? essa porra parece o 24hs, só acaba nas partes maneiras
Que que c tem na costas cara?
e se tu achou uma injeçãozinha a toa na veia ruim, imagina se tu tomasse uma raqui na espinha, hein?
vc faz xixi na cama?? oô
Decidi não confiar mais na veracidade da sua narrativa assim que vc descreveu a experiência de colocar um cateter como agoniante.
Quando eu tive cólicas renais (acredite, parece que existem pequenas criaturinhas nas suas entranhas brincando de te arregaçar com canivetes) eu quase arranquei a seringa da mão do cara e injetei eu mesma pra passar logo a dor.
Kid, se você não parar com esse negócio de “Continua no próximo episódio”, eu chamo o titio Jason Voorhees pra te dar uma lição. Sério.
haha muito boa história, um dos melhores (conjuntos de) post(s) que li aqui
Agulhas sao agoniantes mesmo. Mas quando é por uma boa causa é bom.
Não ajudei.