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Pare de “olhar pro vômito” — uma dica extremamente simples pra viver feliz

Postado em 13 December 2013 Escrito por Izzy Nobre 21 Comentários
vomito

Queria ilustrar o texto com um vômito mais fidedigno mas este é mais agradável.

Meus colegas da área de saúde irão provavelmente concordar — trabalhar num hospital te dá inúmeros insights sobre a condição humana. Nunca vou esquecer o dia em que fui ver um bebê (o atual epicentro da família, com os pais e avós orgulhosos tirando fotos, mimando, imaginando seu futuro), e literalmente logo em seguida tive que atender um senhor de mais ou menos 90 anos que chorava lamentando que não via a família há alguns meses. O velho, como tantos outros, havia sido basicamente esquecido no hospital e ia sem sombra de dúvidas morrer completamente sozinho.

E o tempo inteiro, eu não conseguia parar de pensar nessa dicotomia: 90 anos atrás, esse velhinho também foi o ponto focal, a pessoa mais importante de sua família naquele momento. E aquele bebê cujo pezinho eu acabei de furar tem chances boas de ser um dia abandonado num hospital, também.

E outro dia tive uma realização curiosa que eu gostaria de compartilhar com vocês.

Fui ajudar um amigo a fazer uma gasometria num paciente que eu já conhecia. Este sujeito tem câncer, e está fazendo quimioterapia. Os medicamentos são bem agressivos, tem efeitos citotóxicos que nos obrigam a usar luvas especiais e tudo pra lidar com esse cara. O cara tá agonizando, basicamente.

E outro efeito dessas drogas é que elas zoam completamente o sistema digestivo do indivíduo. O cara tem que tomar nutrição parenteral, porque simplesmente não consegue comer NADA sem vomitar (e esse tipo de alimentação pra pacientes com câncer é controverso, ainda por cima). Ou seja, como você pode ver, o cara tá bem fodido.

Todos sabemos que câncer é um negócio desgraçado — mas uma coisa é saber isso de forma abstrata, e a outra é ver um cara definhando miseravelmente por causa disso, vomitando o dia inteiro e tal, ali na sua frente.

Pois bem. Estamos lá com o paciente fazendo as paradas. Quando estão nessa situação, os pacientes costumam ter por perto vários pequenos receptáculos plásticos, em variados estágios de preenchimento de vômito. Em alguns você vê apenas algumas gotinhas de sputum — uma parada que, tendo trabalhado com microbiologia, posso dizer com toda certeza que é a coisa mais nojenta que sai do corpo humano –, outros totalmente cheios de vômito e quase transbordando. Alguns pedacinhos verdes, outros amarelhos, a maioria vermelho-sangue boiando na mistura asquerosa.

Temos ali uma variada coleção de material semi-digerido decorando todo o quarto do paciente, enquanto você tenta trabalhar.

E você descobre que é irresistível olhar pra porra dos baldinhos de vômito. Como o proverbial “com um olho no peixe e outro no gato”, eu fico lá com um olho na artéria e o outro no material que flutua num pequeno lago de vômito ali no potinho do lado.

kidney dish

Imagina isso aí, só que o plástico é verde. E cheio de vômito com bolinhas de papel higiênico flutuando em cima.

E como a mente é muito filha da puta, não basta você ficar o tempo inteiro olhando praquela porra de 5 em 5 segundos — começa também aquele exercício maluco de se imaginar sendo forçado a beber a parada ou coisas do tipo. “Se alguém colocasse uma arma na cabeça da minha mulher e dissesse que ia mata-la a menos que eu bebesse essa parada, eu conseguiria beber…?”

Como se ficar se forçando a olhar pra porra do vômito sem qualquer necessidade já não fosse masoquismo o suficiente.

Nossa mente tem dessas. A gente adora se chocar; este é o apelo de filmes de terror ou de brinquedos assustadores em parques de diversões. Há um acidente na estrada e você até diminui a velocidade, escaneando o ambiente intensamente, chegando até a se decepcionar um pouco quando percebe que o “show” já acabou e não tem mais ninguém estendido no chão.

Em suma, existe um mecanismo masoquista na nossa mente que nos compele a ir atrás daquilo que a gente não quer realmente ver.

regina

Alguns programas de TV inclusive devem sua audiência a este curioso fenômeno psicológico.

E aí eu tive uma súbita epifania.

O braço do paciente está AQUI. O kidney dish (o nome desses receptáculos) tá ALI, do outro lado, totalmente tangente à tarefa que eu preciso executar. Não é preciso que eu olhe pra essa porra. Não é preciso nem que eu PENSE nessa porra. Aquilo que é realmente importante está completamente desconexo às poças de vômito espalhadas pelo quarto, e eu posso executar essa tarefa sem olhar nem uma vez sequer pra coisa desagradável. Posso contorna-la totalmente.

E mais importante ainda — quando eu atentei a isso, que a execução do que realmente importa é completamente desrelacionado àquele elemento nojento da minha profissão, quando decidi prestar atenção total ao que tinha que fazer, eu percebi algo mágico.

Eu notei naquele momento que a tentação de me distrair com aqueles kidney dishes ia caindo pra segundo, e depois e terceiro planos. Tudo porque eu finalmente lembrei que eu simplesmente não tenho que ficar olhando pra eles, porque eu tenho algo mais importante bem aqui pra dar atenção.

E aí eu extrapolei isso pra outras situações na minha vida e percebi uma direta e curiosa correlação.

Todos nós temos “potinhos de vômito” ao nosso redor. Uma discussão no trabalho, briga com a esposa, término de namoro, uma conta mais alta do que de costume que te pega desprevinido, um desaforo no trânsito — coisas desagradáveis, que nos distraem e nos chateam, mas que são totalmente tangentes ao que você REALMENTE tem que fazer (estudar, trabalhar, se exercitar, escrever posts pro blog, gravar vídeos pro canal…).

Por motivos inexplicáveis, a nossa mente gosta de focar obsessiva e masoquisticamente nesses potinhos de vômito, e muitas vezes em detrimento do que é REALMENTE importante. É nessas que você decide pular a academia porque um colega de trampo falou alguma merda que te deixou totalmente de mau humor. Ou desiste de estudar porque brigou com a namorada e agora “não está com cabeça pra isso”. Quantas vezes um “potinho de vômito” roubou sua atenção de algo que era realmente importante…?

Se você chegar à mesma conclusão que eu — que esses “potinhos de vômito” são tão tangentes às coisas que você de fato precisa fazer que podem ser ignorados totalmente, pelo menos durante aquele momento –, você perceberá que tem o poder consciente de simplesmente parar de olhar pra eles.

Especialmente porque você não quer REALMENTE ficar pensando no namoro que acabou, na bronca que você levou do chefe, do desaforo que ouviu no trânsito. A gente se fixa nessas merdas porque, como já ilustramos, a mente é bem filha da puta. Ninguém quer realmente ver um corpo ensanguentado estendido no chão e ainda assim a gente sempre investiga uma cena do acidente.

Pare de olhar pro vômito. E sua vida será mais produtiva sem esse vômito te distraindo.

Seria fantasioso achar que uma epifania simples dessas vai ser capaz de te tornar um ubermensch mental, inabalável pelas intempéries da vida. Ser tão desapegado assim seria ótimo, mas não é um objetivo realista.

Ainda assim, se você conseguir ignorar ao menos momentaneamente os “potinhos de vômito” ao seu redor pra focar no trabalho/dieta/exercícios/estudos/seja lá o que for, este texto terá valido a pena. Da próxima vez que algo te chatear a ponto de te distrair do que é importante, tome a decisão consciente de não olhar pro vômito.

E lembre-se sempre: existem 7.12 bilhões de pessoas no mundo. Por que deixar UMA estragar seu dia, quando ela é uma fração tão insignificante da humanidade?

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comments

Categorias: Lição de Vida

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

21 Comentários \o/

  1. Concordo contigo, é preciso ser eficiente nesse caso em fazer o bem maior que é ajudar o paciente. E metaforicamente ignorar o desvio da mente para o objetivo central e ficar se martirizando com o que não nos trará nada de bom.

    Pare de olhar para o vômito!

    =)

  2. Nino says:

    Boa reflexão!
    Apesar de que algumas coisas ruins, não são exatamente esses potinhos e merecem visão e reflexão!

  3. Raphael says:

    Cara, obrigado. Estava precisando ler isso nesse momento. (Não estou brincando)
    É do tipo de coisa que a gente sabe, fala pros outros, mas no momento em que o “vômito” ta na nossa frente tudo some da cabeça. Acho que com o tempo pode virar um hábito, basta de certa forma exercitar.

  4. Vinícius Martarello says:

    Parabéns pelo texto, depois que li percebi que eu faço MUITO isso, vou tentar melhorar nesse ponto.

  5. André Henrique says:

    Boa Izzy, Obrigado pelo texto. Eu sou uma pessoa que encasqueta bastante com coisas pequenas. Tipo passar de ano, mas nao passar em primeiro lugar na turra(o que seria algo bom, proximo ano vou prestar enem e estou me focando em ficar bem colocado na classe), mas tipo, isso nao é o mais importante, o importante é seguir em frente e continuar estudando, e eu passei, em quanto eu to de boas aqui em minha ferias a maioria de meus amigos ainda estão se fodendo na escola. Isso é só um exemplo. Eu sou o tipo de doido varrido que fica dando atenção demais a problemas pequenos, ai por um problema besta perdo o dia inteiro, vou fazer qualquer merda, jogar video game, ficar a toa na internet, sem produzir nada de bom. Vou tentar usar essa tática que você inferiu nessa situação do vomito. Obriga Sr Izzy Nobre

  6. Marlon Christian says:

    Hey Izzy, bom texto 😀

    Quanto a parte sobre o nosso masoquismo em vermos coisas ruins, como acidentes e os vômitos dos pacientes que estão em uma situação ruim, me lembrou algo que eu ouvi uma vez bem interessante.

    Dizia que nós gostamos de ficar observando essas coisas numa forma (egocêntrica, porque o ser humano É egocêntrico) de tentar comprovar a nossa existência, do quão bem estamos em relação aos outros, algo como: olha esse acidente, poderia ter sido eu mas estou aqui vivo.

    Eu acho bem válido, não sei se você concordará, mas =]

  7. Willian says:

    Olha, acho que este foi o melhor post que eu li no seu blog.
    Parabéns, e obrigado!

  8. bertim says:

    Quase parei de ler seu texto quando vc colocou um artigo de 1990 como referência. Bjs

  9. Boris says:

    Bom texto, Izzy. A parte do paciente de câncer teve um efeito um pouco mais forte comigo porque vi minha mãe há uns meses na exata mesma situação de não poder comer (ou beber) nada sem vomitar, e não é algo fácil de ver um ente querido enfrentando por tanto tempo… Mas em relação ao assunto, eu já venho utilizando de certa a forma a política de não olhar toda hora pros “potinhos de vômito” há um tempo, mas é surpreendente como a maioria das pessoas adora um potinho desses. Se agarra com ele e só falta desmaiar com o cheiro e não larga. Eu fico bobo.

  10. Elis says:

    Hbd motivacional… mas faz sentido

  11. Yuri says:

    Ótimo texto, realmente estava precisando disso, estava começando a deixar de lado outras coisas que eram também importantes, ou até mais, por causa desse masoquismo maldito.
    Sou meio paranóico, e tenho na maior parte do tempo, o pensamento de que alguma merda, em alguma hora do dia vai rolar. E então eu me apego a essa “merda”.
    O farei, tentarei deixar de ser tão masoquista assim.
    (Sinto muito pelos sacos de vômito, e bom.. pelo cara também”

  12. Bernardo says:

    ”Há um acidente na estrada e você até diminui a velocidade, escaneando o ambiente intensamente,”
    --
    Se tem algo que me deixa puto é isso, o trânsito já ta engarrafado e as pessoas deixam ele mais lento ainda pra ver um acidente que tu pode ver todo dia pela TV no noticiário.Povo maluco. ¬¬

  13. Gustavo C. says:

    Cara, este é um ensinamento Zen, essa disciplina da mente, focar toda a atenção, cuidado e dedicação naquilo que é útil e presente. E é bem difícil às vezes..
    A parte do acidente me lembrou um trecho de “O Livro dos Erros”, do Mário Goulart:
    “O diretor Barry Sonnenfeld, de A Família Addams, define o que é terror: Macabro é você estar na cama, numa noite de chuva, como convém, ouvir um carro cantar longamente os pneus, fechar os olhos, enlevado, preparar-se para estalar os dedos ao ouvir o estrondo – e aí não acontece nada, só o silêncio. Macabro é você ficar decepcionado com a batida que não houve.”

  14. Bruno says:

    Excelente texto. Tento levar a vida assim… as vezes é complicado, mas tento sempre lembrar que “hoje pode ser meu último dia, pra que perder meu tempo com isso?”

    outra coisa… mesmo depois de quase 14 anos, esse tipo de alimentação ainda é controverso? Digo, desde lá já não foi confirmado a sua ineficácia ou eficácia?

  15. Gustavo C. says:

    Mas sabe o que é foda? Quando os baldinhos de vômito não estão paradinhos, bastando não olhar.. foda é quando os baldinhos de vômito vem e caem em cima da nossa cabeça.. =/

  16. Vinícius says:

    Fui forçado a escrever, por que a vida é realmente uma grande ironia, acabei de ler seu texto (muito bom por sinal) e os comentários, porém me dei conta de que estou fazendo isso no meu serviço e ainda tenho tarefas para realizar. Ou seja Izzy, seu site e blogs em geral são os meus “potinhos de vômito” no horário de expediente. Gosto muito do seu conteúdo produzido (vídeos, textos, podcast) e muito obrigado pelo tapa de luvas bem na minha cara através deste texto.

  17. Gustavo says:

    Cara, que grande texto! Curti!

  18. Darox says:

    Muito bom.

  19. Carlos Alberto says:

    Izzy, eu ja li um texto de psicologia sobre pensamentos obssessivos e as vezes quanto mais agente pensa em esquecer coisa ruim mais agente pensa na coisa ruim e não esquece, porque o fato desesperado de esquecer o pensamento faz com que agente pense em esquecer constantemente e isso acaba sendo lembrado constantemente de tanto querer esquecer e uma coisa ironica.
    Explica exatamente essa coisa de ‘olhar pro vomito’ eu não copie o texto porque escrevi o que lembrei.

  20. David says:

    De manhã, 7:44… super atrasado, venho aqui e leio esse texto… Pode ter certeza que vc ajudou a melhorar o dia de alguem nessa manhã que ja ta toda fodida.
    Ótimo texto, parabéns.