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[ Resenha de livro ] Ponto de Impacto

Postado em 27 February 2012 Escrito por Izzy Nobre 13 Comentários

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O Dan Brown é um exemplo perfeito do tipo de cultura popular “pobre”, digamos assim. O cara faz um sucesso absurdo, mas as obras são claramente fracas — quer dizer, são claramente fracas de acordo com a opinião dos críticos metidos a serem do contra.

Pelo menos era assim que eu encarava o autor. Lá pelos idos de 2004, quando o Código da Vinci explodiu em popularidade e era comentado por todos os blogueiros famosos da época (todos saíram de atividade e desapareceram, o que me leva a pensar que morreram de AIDS), uma coisa era constante: as críticas que o autor recebia dos caras.

Lembro-me particularmente deste texto do (creio) finado Jesus, Me Chicoteia. Foi este texto que trouxe a parada ao status oficial de “fenômeno cultural” pra mim; se o Marco Aurélio estava falando sobre a parada, então há de merecer alguma atenção.

Só fui lê-lo uns três anos mais tarde. Não achei o livro tããão ruim assim; pensei que ou minha tolerância era mais alta, ou que talvez eu tenho um mau gosto do caralho mesmo.

Aí li Anjos e Demônios, e O Símbolo Secreto depois disso. E uma coisa tornou-se dolorosamente óbvia — a primeira é que as críticas que li anteriormente a respeito da literatura danbrowniana são completamente justificadas (e um pouco gentis até). E a segunda é que este filho da puta escreveu o mesmo livro TRÊS VEZES.

Acompanhem esta descrição (que BIZARRAMENTE se aplica aos três livros):

  • Um intelectual proeminente é assassinado e não apenas isso, mas ele é assassinado de forma ritualística (a única exceção é O Símbolo Perdido, em que o cara não chega a morrer. Mas o começo é essencialmente idêntico, mesmo com essa distinção);
  • Tal forma ritualística assinala o ressurgimento de uma antiga sociedade secreta;
  • Por motivos que desafiam qualquer tipo de lógica, o próprio Robert Langdon passa a ser acusado do crime (novamente, preciso ser honesto — esse fator não está presente em Anjos e Demônios);
  • Uma parente do finado une-se ao Robert, para ajuda-lo a desvendar o mistério;
  • O objeto de estudo da tal parente, veja que conveniente, é relevante para a solução do mistério;
  • Por trás dos panos, há um enigmático assassino;
  • Um policial durão atrapalha continuamente os esforços do Robert e da menina lá que é parente do morto;
  • Em um determinado momento você começa a achar que o policial é que está por trás de toda a pataquada (porque os livros do Dan Brown são obrigatoriamente whodunnits com tramas intercambiáveis);
  • E o cara que você MENOS ESPERAVA, e que em algumas situações até ajudou os protagonistas, é que era o filho da puta. E no melhor estilo “vilão do Batman”, ele tinha originalmente um propósito nobre.

TRÊS LIVROS COM A MESMA TRAMA. Isso é um nível impressionante de preguiça, quase um achievement por si só.

Quando reclamei a respeito disso, disseram-me que os outros livros do Dan Brown — aqueles em que ele não tenta convencer os leitores de uma história alternativa que nunca aconteceu — eram mais aproveitáveis. Por isso decidi ler Ponto de Impacto.

Eis a sinopse: um meteorito foi encontrado enterrado na neve numa geleira ao norte do Canadá. Cientistas da NASA (junto com um time de cientistas “civis”, pra garantir objetividade) vão lá e encontram fósseis de seres não-identificados. Enquanto isso, um senador que se prepara para disputar a Casa Branca contra o atual presidente usa e abusa dos recentes fracassos da NASA como símbolo de tudo que está errado com a administração presidencial atual.

De alguma forma achar um meteorito com resquícios de alienígenas justifica torrar bilhões do orçamento americano na NASA, e valida toda a gestão do atual presidente…? O livro tenta arduamente provar que o tal meteorito significa a reeleição inevitável do presidente, e que o senador que vivia esculachando a agência espacial se fodeu.

Não há uma conexão lógica entre os dois pontos, é uma idéia ridícula — tão ridícula quanto a premissa de que o tal senador usava apenas e simplesmente esse ponto contra a NASA como sua plataforma de campanha presidencial.

Por mais que pareça exagero, se você parar pra pensar o Tiririca se elegeu com uma campanha que fazia mais sentido que isso. Apelar pra votos galhofísticos de “protesto” me parece mais sensato do que a idéia de que um cara esperava ganhar a eleição presidencial apenas porque prometia fechar a NASA.

Quando surge a suspeita de que há algo de errado com o meteorito e que ele talvez não seja bem o que aparenta ser (justificando o “Deception” do título original; Deception significa “enganação, trapaceagem”), evidentemente a suspeita cai sobre o presidente, ou alguém de seu gabinete. Afinal, são eles quem mais lucrariam fabricando esse papo de meteorito com esqueletos aliens neste universo esquisito em que achar alienígenas garante a reeleição do presidente que apoiava a NASA.

Como é um livro do Dan Brown, OBRIGATORIAMENTE os fatores familiares aparecem. Assassinos contratados por um supervilão que só se revelará nas últimas páginas e um plot twist previsibilíssimo (sabe a pessoa que você MENOS ESPERAVA ser o vilão? Adivinha!).

O livro é extremamente imbecil. Pra você ter uma idéia, a “cena” em que os protagonistas desvendam TODA a lorota do meteorito é, sinceramente, a versão literária desta cena clássica do filme do Batman dos anos 60:

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Se você não fala inglês, aprenda.

Sério. É DESSE JEITO que os protagonistas desvendam toda a trama. Os quatro estão num helicóptero indo de sei lá onde pra quem se importa, e vão (puxando apenas de memória) vários fatores que explicam como o meteorito poderia ter sido forjado. E uma vez que alguém sugere uma hipótese, os outros personagens — e de fato, o próprio livro — aceita-os como a única explicação e pronto.

Isso pra não mencionar os plotholes e inconsistências do enredo. Estabelece-se no livro que o tal senador que zoava a NASA fazia tal porque recebia incentivo financeiro de agências espaciais civis, para quem o fim da NASA significaria o fim do monopólio em tecnologia e exploração espacial. A idéia central dissaí é que a NASA e o governo americano destruíam a possibilidade de uma alternativa à agência proibindo vôos civis. Só a NASA poderia colocar satélites comerciais em órbita, por exemplo.

A narração do livro dá um motivo bem imbecil pra justificar a idéia de que é melhor deixar essas coisas apenas na mão do governo mesmo, e que permitir que empreendedores comecem a oferecer serviços de lançamento de satélites e coisas do tipo seria uma catástrofe porque…  haveria muito lixo espacial? Não, sério, ESSE é o argumento.

Acontece que se o livro estabelece claramente que empresas espaciais civis não podem existir porque não são permitidos pelo governo. Existe uma proibição de vôo espacial, só a NASA pode exercer essa função. Então, por que exatamente existem empresas espaciais civis para se opôr à NASA, se a porra do livro estabelece que a existência dela impede que tais empresas existam?! Num trecho do livro os caras dizem “porra, colocar um satélite em órbita pela NASA custa caríssimo ao governo, na mão da gente é X milhões mais barato!”

COMO É QUE VOCÊ OFERECE TAL SERVIÇO, COMO É QUE VOCÊ TEM A INFRAESTRUTURA PRA ISSO E ATÉ UMA ETIQUETA DE PREÇO SE VOCÊ JÁ ESTABELECEU QUE ESSA INDÚSTRIA NÃO EXISTE JUSTAMENTE PORQUE A NASA E O GOVERNO AMERICANO CRIARAM UM MONOPÓLIO ESPACIAL, SEU DAN BROWN CORNO.

O livro é uma bela merda. A técnica de foreshadowing usada pelo Dan Brown nunca foi muito bem elaborada — sabe quando Q mostra um gadget pro James Bond e você sabe imediatamente que ele se meterá numa situação em que a traquitana se tornará convenientemente relevante? É nessas aí — , mas nesse livro é particularmente absurda. No ato final do livro, os caras vão pra um barco que tem 1) uma imensa redoma de vidro no chão, para observação da vida marinha abaixo do navio e 2) está bem acima de um ponto quente do oceano que atrai tubarões.

A forma como esses elementos são introduzidos na narrativa é tão DO NADA (os caras tão sendo perseguidos por assassinos mas um dos protagonistas para pra assustar os amiguinhos com os tubarões) que meu cérebro interpretou as passagens como “chão de vidro e tubarões ein, LEMBRE-SE DISSO!

É uma bela bosta de livro. Há o tal plot twist do vilão inesperado, e há também um sub-plost twist depois disso (em que o sub-vilão, o senador lá, acaba pagando o que deve à sociedade) que é tão absurdamente óbvio que faz você achar que o Dan Brown julga que sua clientela tem os poderes de observação de uma criança cega.

Em resumo, o livro não convence de jeito nenhum. Em vez de mergulhar na história, como acontece naturalmente com um bom livro, você tem que ficar forçando a suspensão de descrença o tempo inteiro, porque todas as premissas que o livro apresenta são imbecis. Pra cagar em cima de tudo, nem as cenas de ação fazem muito sentido. Pra você ter uma noção do nível “Inspetor Buginganga” de absurdismo do livro, uma das protagonistas escapa da morte certa usando um martelo e um iceberg pra mandar um sinal de SOS a um submarino.

Nem os Escoteiros Mirins do Duck Tales tentariam te convencer de algo tão sem sentido, seria forçar a amizade. As cenas de ação do livro são de dar desânimo; numa delas, o cara usa uma garra robótica daqueles submarinos pra pesquisa marítima pra agarrar o braço de um SUPERSOLDADO ARMADO que está atacando os outros personagens.

O problema é que eu já vi inúmeros vídeos dessas porras de submarinos e esses bracinhos obviamente se movem de forma extremamente lenta e desengonçada. Lembra de Titanic? Tentei pintar a mentalmente a imagem de um bracinho robótico desse capturando alguém que não seja uma criança de colo. Simplesmente não dá, é forçar a amizade e a boa vontade do leitor.

Dan Brown é um escritor de merda. Se você vier postar nos comentários que gostou dessa merda de livro, saiba que sua família tem vergonha de você.

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Categorias: Livros

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

13 Comentários \o/

  1. cara!!!! sou seu fã ahhuahuauhhua…
    pensei que era so eu que achei isso do livro kkkk
    minha amiga me emprestou dizendo que o livro era muito bom e tals mas num vi graça nenhuma. Pelo contrario, estou puxando coragem pra termina de lê-lo xD

    Amei sua resenha comentada!!!
    Abraços…

  2. Não li esse porque enjoei da fórmula mágica do Dan Brown depois de ler Anjos e Demônios (que é até legal, vá lá) e Fortaleza Digital. Esse segundo já não foi tão bacana porque a todo momento eu fazia comparações com o primeiro e via que a trama era, em essência, a mesma.

  3. Vinicius Meneses says:

    Primeira vez no seu blog, pensei que você postasse opniões construtivas.

    Ja tem muita gente falando merda no Face e no Twitter, é uma pena ver mais um site depressívo que só sabe reclamar.

    decepção =/

  4. Pedro says:

    ahsuahsuhah muito bom, eu li 3 livros dele, e na hora que voce disse do mesmo roteiro nos livros, me veio um BOOOOOM no cerebro fenomenal. É simplesmente igual pra tudo realmente. Fortaleza Digital segue o mesmo ritmo, herói, sabotador, o impossivel, o inacreditavel e o fim igual a todos os outros.
    holy crap, mas eu até que não me arrependo, eles por mais que sejam iguais foram me fazendo indo atrás de outras coisas, livros, conhecimento sobre outros assuntos, no fim eu tirei proveito. Não exatamente da leitura, mas do que ela trouxe posteriormente.

  5. Marcellu Freire says:

    EU GOSTEI! Foi o primeiro livro do Dan Brown que eu li. Talvez só por isso eu tenha gostado. É bem rápido de ler (li em 2 dias). Como aquele filme pipocão de 80 minutos, que vc assiste pra se divertir.
    Depois a fórmula foi decaindo pra mim, até eu desistir de ler o código davinci.

  6. Gustavo says:

    Li o Fortaleza Digital, me agradei por se tratar de uma trama em torno de um instituto que lida com segurança de TI (minha área de atuação). Mas realmente tudo é sempre muito igual, o assassino é um FDP que era bonzinho e você acaba se ligando no meio da história por conhecer o estilo do escritor, mas perto de muita coisa que vemos por aí, não esta no Top dos piores livros não (apesar de ser fraco e repetitivo).

  7. Leandro says:

    Legal a sua crítica, é uma opinião interessante. Mas você fez muita força para criticar o Ponto de Impacto. Por exemplo, você disse que o autor aplicou como justificativa para manter o domínio espacial nas mãos do governo a geração de lixo espacial. Isso não é verdade. A NASA é um centro de alta tecnologia e sua manutenção era muito importante para a segurança americana. Se a NASA fosse privatizada os interesses passariam a ser somente comerciais tornando possível a venda de tecnologias de ponta para países que estivessem dispostos a pagar. O espaço não estava fechado para empresas privadas como você citou, apenas era dificultada sua ações já que a NASA sempre fornecia serviços muito mais baratos. Não tinha como concorrer. O trecho que você comparou preços entre a NASA e empresas privadas não era relativo ao preço de venda do serviço e sim de custo. Mesmo produzindo um serviço mais caro a NASA vendia mais barato, ferrando as empresas privadas.
    Não é grande coisa, mas é muito melhor do que você sugere.

  8. Philipe P. Souza says:

    Hahahaha… Não achei o livro tão ruim assim. É Regular. Acho que ele até certo ponto consegue fazer o leitor se interessar pela hitória de cada personagem.

    Só achei que no final das contas, a farsa foi muito mal construída… Porra, se a NASA fosse confirmar vida extraterrestre, será que eles deixariam aquelas hipóteses em aberto? Teria que varrer tudo antes de ver, analisar e confirmar em duas semanas. Não sei quantas semanas de teste, tudo confirmado, aí a porra da galera lá do nada começa a questionar.

    Fora isso, o papel da assessora é bem ridículo. Ela entra lá na NASA da maneira mais absurda, entra nos elevadores com conversas e papos ridículos, entra na sala do coordenador lá, descobre a mentira sobre o tal PODS e… Nada. No final não contou porra nenhuma pra ninguém, fodeu o Senador e plau. A descoberta só não fica em aberto porque o Administrador da NASA se arrepende do nada e fala para o presidente.

    Mas apesar disso tudo, achei regular.

    Abraço!

  9. Marcos says:

    Muito ruim sua resenha, argumentos mal embasados.

    Quando eles descobrem a farsa não foi do nada no helicóptero, teve o lance dos plânctons,do exame da rocha, a tentativa de assassinato…e outras evidências q nao lembro pq tem tempo que li.

    O Leandro aí já corrigiu seu engano com a história da NASA, o que cá entre nós, se vc não entendeu uma parte fundamental do livro vc nao tem muita moral pra escrever nao.

    Eleições se ganham e se perdem por muito menos do que cortes exorbitantes de bilhões de dólares ou nas implicações científicas de encontrarem vida extraterrestre.

    A parada do submarino a mulher sabia que o submarino podia estar por ali, e se uma tripulação ouve um barulho em um lugar remoto onde acabaram de fazer uma descoberta de grandes proporções vc acha q eles n iriam la checar? E detalhe, n era um simples barulho, era um pedido de socorro em código morse.

    Curti o livro, sei da fórmula do Dan Brown e não vejo problema, muitos outros livro do genero tmb seguem essa fórmula.

  10. Savio Luan says:

    Oi. Ponto de Impacto foi o primeiro livro que li de Dan Brown, faz algum tempo, e gostei. Eu não tinha lido muitos livros até então, e apenas achei que todos os outros livros dele seriam bem melhores, e decidi comprar tudo de uma vez. Li Fortaleza Digital ZZzzzZ e to lendo Anjos e Demônios ZZZzzzZ Tudo muito sem sentido e previsível. A sorte é que são livros bons de vender ou trocar.

  11. Adson says:

    Eu li só o Anjos e Demônios do Dan Brown, ele foi o primeiro livro ficticio que li inteiro, antes nunca tinha pegado em livros de estória inventadas antes, eu tinha 15 anos de idade (comecei a ler tarde) e não li nenhum outro livro dele. Sinceramente gostei do livro, porém era pelas questões de ligações históricas, por causa daqueles rituais que aconteceram no meio do livro e a coisa da anti-matéria, resumindo: gostei das tragêdias. Na verdade, li ele apenas por querer aprender a escrever melhor, pois eu tinha em mente escrever um livro (até hoje vivo fazendo mudanças nele e nunca acabo), sendo bastante honesto, algumas coisas nesse meu livro até lembram o Anjos e Demônios, mas na verdade meu(s) livro(s) lembram mais animes do que Dan Brown e minha metodologia é diferente, até pelo motivo de ser um livro de sobrenatural. Tinha vontade de ler outro livro dele, mas como vou ler a mesma coisa praticamente, não estou mais querendo.

  12. juliano cesar de oliveria says:

    Oi adorei, muito obrigado…mas se vc gosta de situações inusitadas, vc vai amar o livro reverso…ele traz revelações das escrituras sagradas nunca antes reveladas…. e ainda poem em cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos…..e ao mesmo tempo inverte de forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos..acesse o link e digite a palavra reverso e de uma conferida na sinopse do livro…ha a capa do livro é linda ela traz o universo de fundo..www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?

  13. Carlos Ashitaka says:

    Ola Izzy
    Quer ler uma boa trilogia? “Millennium”, de Stieg Larsson.