Hbdia
  • Feed do Hbdia
  • Twitter
  • Youtube

2 situações de infância que resultaram em soco na (minha) cara

Postado em 4 December 2011 Escrito por Izzy Nobre 8 Comentários

Se você chutasse (baseado no meu preparo físico de comedor profissional de pudins) que eu não sou muito adepto a conflitos corporais, você acertaria.

Não é nem só a adiposidade, aliás. Sim, nos últimos anos eu adquiri as proporções de um boi de engorda ou um dirigível sendo inflado. Entretanto, houve uma época em que eu pesava uns 50 quilos no máximo, e mesmo naquele período eu evitava a qualquer custo altercações físicas.

RISOS

50 quilos? Só se eu estivesse me pesando enquanto carregava sacos de compras.

Não que eu fosse completamente contra todo e qualquer tipo de violência ou algo assim; como tantos outros moleques criados à base de televisão e videogame, eu acreditava plenamente que jogar Mortal Kombat e assistir Power Rangers me imbuía da capacidade de executar habilmente os movimentos dos meus heróis, o Ranger Verde e o Subzero.

99% das briguinhas de amigos começava com um ou ambos fazendo esse gingado do icônico ninja azul — que, caso você não saiba, tem sincronia PERFEITA com Shoot to Thrill do AC/DC. Duvida? Liga teu iTunes aí.

Mas uma coisa é brincar de lutinha com os amigos usando técnicas adquiridas tentando zerar Ultimate Mortal Kombat 3; outra coisa totalmente diferente é uma legitima briga de rua sem limites. Numa situação controlada como as briguinhas entre amigos baseadas no que sabíamos dos games e da TV, — que a gente insistia ser equivalente a praticar uma arte marcial –, nao havia tanto que podia dar errado.

Já numa verdadeira porrada de rua com desconhecidos, não há redes de segurança, e pode acontecer que eu descubra da pior forma possível que meus braços têm a densidade e resistência de batata palha.

Por isso eu nunca me meti numa briga real. Já tomei, no entanto, dois fenomenais socos na cara. E agora contarei pra você essas duas histórias.

1) Soco na aula de inglês

Como tantas outras crianças brasileiras de classe média alta, eu cresci com um domínio razoável do inglês. Muita atenção neste momento: isso não significa que eu “falava inglês”, como muita gente que se encontra na mesma posição alega no perfil do Facebook ou no Orkut.

99% das pessoas que dizem falar inglês no Facebook usam a interface traduzida

Crescer ouvindo música gringa, jogando videogame, assistindo filme legendado e fazendo uma ou outra viagem aos EUA significa que você tem uma familiaridade com o idioma e é capaz de interpretar frases simples e/ou compreender um gringo que fale devagar. Isso não é equivalente a “falar inglês”, e eu aprendi isso da pior maneira quando vim pro Canadá em 2003.

Eu sempre achei que falava inglês, até imigrar pra cá e descobrir que dominar o idioma vai muito além de conseguir traduzir a letra de uma música ou conseguir ignorar a legenda em alguns trechos de um filme. Só adquiri fluência uns 4 anos mais tarde.

Aliás vou falar algo que me renderá alcunha de (mais) babaca (ainda), mas lá vai: nunca conheci alguém que não tenha morado no exterior e fale inglês fluente. Se é um pré-requerimento eu não sei, mas a verdade é que isso me causa a impressão de que é impossível adquirir fluência sem se imergir na cultura gringa.

Caralho, esse desvio de tema quase virou um texto separado.

Então, quando eu era moleque essa leve habilidade com o inglês fazia todos ao meu redor (e eu mesmo até) achar que eu falava inglês pra caralho. E eu me dava bem nas provinhas de inglês de colégio, que são ridiculamente água-com-açúcar.

O resultado disso é que eu virava rapidinho o favorito de todas as professoras de inglês. E elas me davam pequenas tarefas idiotas que, na cabeça da criança retardada, é um sinal de afeição e importância.

Por exemplo: entregar as provas da turma. Em vez de passar de carteira em carteira entrando as provas da turminha, a professora me alistava pra tarefa. Lá ia eu, imbecil, me sentindo um total vencedor simplesmente porque a mulher tava com o pé doendo e não queria passear pela sala toda pra entregar provas pra uma turma que ela já havia desistido de se esforçar pra ensinar.

Pois bem. Havia um rapazinho, creio que seu nome era Tiago, que me atormentava na escola. Na época ainda não tinham inventado o “bully”, então eu o chamava de “filho da puta” mesmo. Era maior que eu, mais forte, e metido a engraçadinho. Obviamente, as gracinhas dele envolviam truculência.

Um belo dia eu resolvi que seria engraçado rasgar a prova dele. Tal qual o sujeito que marca um encontro com a amante em sua própria casa quando sua esposa assiste novela na sala, meu plano não era perfeito.

Fui de encontro à minha patotinha e falei, triunfante, “vou rasgar a prova deste filho duma puta“. A molecada protestou, dizendo “hahahaha, não faz isso cara, hahahaha, tu vai apanhar!

O problema é que as risadas anulam completamente o conselho de não fazer a traquinagem. Ávido pra fazer a turma rir (que é, veja só, o motivo pelo qual o HBD existe),  triturei a prova do Tiago diante meus coleguinhas.

E o cara, que sentava no fundão e raramente voltava sua atenção para a frente da sala, me flagrou fazendo isso. Ele apenas berrou, lá de trás, que ia “afundar minha cara“.

Tiago era um homem de palavra. No final daquela aula, eu imaginei que tinha vantagem estratégia por sentar-me mais próximo à saída. Ledo engano; Tiago apressou o passo em minha direção e me interceptou quando eu estava a poucos metros da liberdade. Interessantemente, eu vi o punho dele antes de ver o cara.

Eu estava bem do lado do quadro negro (criançada, google o termo. Acho que isso nem existe mais) quando a mão cerrada do moleque conectou com o lado esquerdo do meu maxilar. Projetando toda a força do corpo contra a minha cabeça, o golpe bateu em cheio no queixo, forçando meu rosto a mover-se na direção do impacto. Larguei a mochila durante o susto.

Num cantinho isolado da minha mente, que assistia o evento de forma objetiva e desconectada (“olha lá, dois moleques brigando”), uma súbita realização — levar um soco no rosto provoca imediatamente uma dor aguda no ouvido do lado oposto. Lembro de ter achado esse fato extremamente curioso, e supus que isso se deve às conexões que os órgaos da cabeça famigeradamente dividem.

Acontece que o golpe não foi certeiro; o impacto um pouco abaixo do meu queixo. Por isso, o punho do cara continuou a trajetória, seu antebraço raspando contra meu queixo até sua mão enfiar-se contra a lousa atrás de mim, fazendo um barulho estranho. Ele saiu correndo da sala (covarde que era, suponho que ele não queria dar chance para meus broders se meterem no meio) e faltou 3 ou 4 dias de aula.

Todos achávamos que o moleque havia sido suspenso. Na realidade, ele fraturou o punho por causa do golpe contra o quadro negro.

Ele acabou sendo expulso poucos meses após isso. A ironia do destino é que ele havia feito outra prova de inglês antes de ser chutado pra fora da escola (era o Evolutivo da Parangaba, colegas cearenses), prova que eu novamente fui encarregado de entregar. Rasguei-a novamente, rindo pra caralho.

2) Soco no ônibus

Essa aqui foi mais sinistra porque eu não fiz nada pra provocar a agressão. Estava eu num ônibus com dois chegados, voltando do cinema onde havíamos acabado de assistir o indescritível Me, Myself and Irene. Estou falando sério quando digo que não consigo descrever o filme, só vi uma vez e não lembro de absolutamente nada sobre ele. Só sei que tinha o Ace Ventura lá, o Bill Carrey.

Então, a gente adentra o ônibus e percebe rapidim que tava rolando algum tipo de confusão lá dentro. Um grupo de rapazes no fundo do ônibus berrava contra uma turma sentada na frente do coletivo. O fato de que os sujeitos estavam todos mal vestidos e suas aparências lembravam muito aquela de corintianos não melhorava a situação.

O ar tava tenso e eu e meus colegas decidimos telepaticamente tirar as pulseiras e os relógios, e esconder nossos Nokias 3310 nas meias.

Sentamos em bancos próximos a uma das saídas do coletivo, já imaginando que em algum momento da viagem seria necessário fugir subitamente.

As provocações continuaram voando de um lado pro outro no ônibus, mas a situação começou a se acalmar. Me acalmei um pouco.

O que acabou acontecendo é que um dos vagabundos (visivelmente embriagado, o que confirma minha suspeita em relação ao seu time favorito) decidiu que não iria descer do ônibus sem antes machucar um dos passageiros. E adivinha quem foi o escolhido?

RISOS

Os meliantes sinalizaram para que o motorista estacionasse o ônibus na próxima parada. Um a um os futuros presidiários desceram do ônibus; o último na fila, no entanto, andava devagar e inspecionando todos os passageiros no seu caminho.

Peraí, negada” Disse o vagabundo, com o rosto perto do meu (eu estava sentado naquelas cadeiras mais altas). Meus olhos lacrimejaram com o vapor de cachaça exalado pelo sujeito, cujo nome jamais conhecerei mas que hoje provavelmente atende por Detento 43781-87. Eu olhava pra baixo, fingindo que não era comigo. Quanto mais removido da situação eu pareça, melhor, pensei estupidamente.

“Vou colocar esse aqui pra dormir!”

Antes que eu pudesse levantar a cabeça pra averiguar a situação, me veio o punho fechado no meio da cara. Num sinistro repeteco daquele soco que tomei na sala vários anos antes, o murro do vagabundo apenas raspou contra meu queixo. O soco enterrou-se contra minha clavícula, resultando numa dor desgraçada. O cara tentou socar de novo, mas eu desviei e o punho cerrado dele pegou no meu bíceps — que, considerando a situação, foi a melhor e única forma que eu tinha de me defender.

Doeu bem menos que levar um soco diretamente na mandíbula, uma dor que eu infelizmente a essa altura já conhecia.

E aí o destino novamente pareceu exercer sua vingança — o desocupado, que estava bêbado, tropeçou quando descia do ônibus.

E caiu DE BOCA no meio-fio da calçada. Toda a população do ônibus todo olhou pelas janelas enquanto os companheiros do sujeito o levantavam do chão, a calçada tingida de vermelho com o sangue do rapaz.

Eu me divirto com o fato de que nas únicas duas situações em que fui agredido na vida, o universo encarregou-se de foder os sujeitos muito mais do que eu seria capaz com os próprios punhos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

Categorias: Minha infância

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

8 Comentários \o/

  1. O mais incrível foi: Um dia o Evolutivo expulsou os vagabundos…

    Na minha época, creio que uns 3 anos depois de ti, um pirangueiro explodiu uma bomba no pátio e nada aconteceu..
    E havia a fama de que um maluco só seria expulso se MATASSE alguém…

    Enfim,

    Ótimo texto, como quase sempre.

  2. Helio says:

    foda
    eaheuahe

  3. Vitor says:

    Sacanagem você comparar corinthianos com pirangueiros , como fortalezense você deveria estar ciente de que estavam mais para arruaceiros da Cearamor e/ou Leões da TUF. Os corintianos são menos mal-vestidos HAHAHAHAHAH

  4. Patrick says:

    kkkkkkkkkk
    Bom texto Izzy. 😀

  5. bru machado says:

    queria ver as imagens… aqui estão quebradinhas.

  6. Hahahahaha, muito bom! Ri demais no final, o universo é foda! Conheci o teu blog e o vlog através do 99Vidas, nem acreditei quando vi que o HBD é o seu blog…

    Lembro que lia o HBD há muitos anos atrás, e nunca esqueci de um post que vc escreveu falando sobre um dia que tentou fotografar uns golfinhos, dizendo que acabou “esquecendo de viver” aquela tarde inteira de tão concentrado que estava na tarefa…tomei aquilo como filosofia de vida, cara! Desde aquele post eu sempre tomo cuidado pra não deixar esses momentos escaparem. Ironicamente, eu sou fotógrafo ushusahasuhasu

    Um abraço!

  7. Gabriel says:

    Jim Carrey, broder!

  8. Carlos Alberto says:

    Uma boa coisa que aconteceu é que nessas situações as vinganças aconteceram 🙂