Hbdia
  • Feed do Hbdia
  • Twitter
  • Youtube

Postado em 15 December 2004 Escrito por Izzy Nobre 5 Comentários

Voltei ao tempo áureo da minha infância.

Após jurar para o site que só manteria os jogos por 24 horas e que possuo os respectivos cartuchos dos games que estava prestes a roubar, baixei um emulador de Super Nintendo com uma cacetada de ROMs que há dez anos atrás transferiram meu dinheirinho do lanche na escola diretamente para os bolsos de donos de locadoras de Fortaleza.Emuladores não são nenhuma novidade, claro. Lembro de ter vendido dois disquetes com um zip da ROM de BlackThorne pro meu primo por 5 reais em 1999, quando a onda de emulação ainda era algo mais conhecido por nerds que fuçavam a internet em busca de formas de conseguir coisas grátis que de outra formas teriam que ser pagas. Obviamente meu primo nem se deu conta de que aquilo podia ser pego na internet com facilidade; pra todos os efeitos aquilo era um cartucho de SNES em disquetes de computador. Cheguei a comercializar ROMs nas escola por algum tempo – junto com outras coisas ilegalmente adquiridas na internet -, mas isso é assunto de outro post.

Como eu estava dizendo, emulação não é nada recente, já tem pelo menos uns 10 anos nas costas. Acontece que logo no início os computadores não eram rápidos o bastante para “imitar” o funcionamento dos consoles. Além disso, no começo a emulação era usada com propósitos mais úteis: imagine que você tem um PC com win3.1 e precisa rodar um programa de OS2. Com um emulador, você não precisaria comprar outro computador só pra usar o tal programinha. Nos últimos anos nossas máquinas cresceram e ficaram fortinhas, e a emulação ganhou o mundo dos games, o que fez as gamehouses gritarem em uníssono “caralho, agora mesmo que aqueles brasileiros não compram jogos originais!

Acontece que jogar emulador num teclado é o equivalente gamístico a costurar com luvas de boxe. Um teclado não foi feito para ser espancado furiosamente pelas mãos ávidas (e naturalmente acostumadas a movimentos ritmados) de crianças de 13 anos. Não é à toa que aqueles controles eram praticamente caixas pretas; já vi um controle de SNES ser jogado na parede, perder um dos botões e continuar funcionando normalmente. Um teclado dificilmente teria essa resistência. Já fodi um teclado antigo de tanto jogar Mortal Kombat 4. Os direcionais e o A, que quando esmurrados de forma correta faziam o Subzero congelar seus inimigos, pararam de funcionar.

Então, para intensificar a experiência nostálgica – e não destruir meu teclado -, comprei um fabuloso Nexxtech PS2 Gamepad. O controle é no modelo do PlayStation, mas funciona perfeitamente como um de Super Nintendo – basta ignorar um dos Ls e Rs.

Então decidi a fazer algo que jamais sonhei que um dia seria capaz. Uma realização que minhas modesta situação financeira nos mid 90’s não permitia. Algo que iria me ajudar a ser uma pessoa melhor; uma cruzada de auto-conhecimento.

Resolvi ver todos os fatalities de Mortal Kombat 3.

O aprendizado de fatalities naquela época eram praticamente uma disciplina sagrada de tempo integral nas locadoras da época. Ordens monásticas (leia-se “os guris que tinham grana pra comprar revistas de macetes”) treinavam pupilos escolhidos a dedo. Estes se tornavam mestres exímios do desmembramento e profanação do corpo humano, e também aprendiam a fazer fatalities.

Saber executar os comandos que abriam aquelas animações sangrentas era um motivo de orgulho e uma razão para respeito. Aquele que aprendia um novo fatality chamava os amigos, orgulhoso, apenas para dizer, ao fim da apresentação: “Não vou te ensinar.

Estes malditos moleques que dominavam os segredos milenares dos fatalities não os compartilhariam com a turma nem sob tortura. Duvido que um padre inquisidor conseguisse fazer um daqueles miseraveis confessar o Animality do Liu Kang em Mortal Kombat 3. Mesmo que fosse queimado vivo, o cara teria o prazer de saber que só ele conheceria a combinacao magica que faz seu chinezinho ninja virar um dragão pixelizado e comer o torso do inimigo derrotado – não sem deixar os braços, que por um bug na animação ficavam pairando no ar, sem qualquer ligação com seu corpo recém digerido. A turma da locadora, que assistia à disputa mortal, ia ao delírio.

Mortal Kombat não tinha nenhum compromisso com realismo, e essa era a beleza do jogo. Estou cansado de dar murros nas pessoas e elas não voarem até o outro lado da rua, espirando sangue que evapora segundos depois. Mortal Kombat libera indivíduos outrora aprisionados por tirânicas leis da realidade. No jogo, você tá saltos mortais triplos sem qualquer equipamento para o impulsionar, solta cubos de gelo das mãos, cospe fogo, vê mulheres seminuas – venhamos e convenhamos, isso era uma irrealidade para crianças de 13 anos -, some pelo chão e reaparece milésimos depois, dando uma formidável voadora na arcada dentária de seu oponente… As opções são ilimitadas; conheço esse jogo há anos e até hoje ainda me surpreendo quanto o lutador controlado pela inteligência artificial do jogo comete alguma putaria que eu ainda não tinha presenciado.

No videogame, sanei minhas necessidades de fugir da realidade. Drogas o caralho, me dê um SNES com uma fita de MK3, de preferência pirata, com aquela clássica etiquetinha descascando nos cantos.

Mas enfim, eu nunca fui eleito como um escolhido para ser educado nos caminhos do fatalities. Não havia recursos para o treinamento: eu não tinha meu próprio videogame para treinar, não possuia as revistinhas, não tinha amigos espertos.

Hoje, a era da informação, eu cato todos os truquezinhos de todos os personagens de todos os jogos da série. Basta desviar dos anúncios que imploram para que eu aceite aumentar meu pênis. É estranho a forma como esses pop ups em particular PERSEGUEM você. Pense comigo, se você tivesse um pau pequeno, será que eles precisariam empurrar a mercadoria?

Então, eu salvei uma página de fatalities, imprimi e agora estou presenciando todos eles, no conforto da minha casa. Nem precisei xerocar revistinhas de ninguém, a tática alternativa daqueles que tinham menos poder aquisitivo – ou roubar as tais revistas, alternativa dos que tinham pouco poder aquisitito E vergonha na cara.

Ah, se eu tivesse esse poder de informação naquele tempo… Os “reis” da locadora teriam se prostrado aos meus pés, escrito poemas em minha homenagem e pago horas de jogatina como tributo.

E eu, compadecidamente, me transformaria num dragão e não deixaria nada como sobra além de suas pernas e bracinhos voadores.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

Categorias: Minha infância

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

5 Comentários \o/

  1. Carol says:

    Eu tinha um amigo que sabia todos os fatalities. Caralho, ele sabia MESMO todos os comandos, inclusive uns que abriam opções de jogo que hoje eu nem me lembro mais pra que serviam… E não é só no MK, toda porra que eu jogava ele sabia como passar, sabia os macetes, sabia onde tinham coisas escondidas… Em todo jogo que a gente jogava ele me humilhava belamente… Ainda me vingo dele um dia.

  2. kelven says:

    Tóaprendendo us fatalits se alquem quiser me ensinar eu asseito o convite!

  3. Argus says:

    Vamos rir, pessoal!

  4. Eduardo7777 says:

    Kid eu odeoite o seu puto d emerda