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Castanha

Postado em 15 April 2006 Escrito por Izzy Nobre 12 Comentários

Hoje lembrei que havia prometido um texto a respeito de violência infantil há algum tempo, na sequência de um primeiro post sobre o assunto. Pra refrescar a memória de vocês – e pedindo licença pra repostar o texto original -, aí vai aquele primeiro post.

Não sei se vocês já perceberam, mas existe um inerente fascínio infantil por violência.

Quando eu era guri e ia a uma locadora, o primeiro lugar que eu ia era à sessão de terror. Terrores sobrenaturais não era o que me atraía, o que eu queria mesmo ver era sangue. Procurava entre as fitas a capa cujas imagens tivessem a maior quantidade do líquido vital. Achava o maior barato ver aquelas maquiagens que simulavam cortes e buracos na pele, que nos filmes invariavelmente esguichava plasma suficiente pra abastecer dois bancos de sangue em algum país africano.

Não sei se isso acontecia com todo mundo, mas era assim comigo. Se todos somos vítimas dessa estranha atração, está explicada a origem dos estranhos jogos infantis que envolvem violência gratuita entre moleques de treze anos.

Sem dúvida você já deve ter visto uns joguinhos desse tipo, onde dez ou mais crianças decidem duas ou três regras que apenas “legalizam” a troca de sopapos, dando algum tipo de pretexto para o ato. Se não, os meus amigos eram uns doentes que devem estar até hoje pagando por ajuda psicológica.

Quando eu era criança, havia duas brincadeiras (se é que posso chamar aquelas demonstrações de ódio de brincadeiras) que atraíram minha atenção muito mais do que o pega-pega ou esconde-esconde – com exceção às ocasiões em que a Fernanda, uma irmã gostosa de um dos amiguinhos do bairro, brincava com a gente. Não me entendam mal, ser agraciado com o direito impune de encher um desafeto de porradas (ainda consentindo em ser sujeito ao mesmo tratamento) é uma beleza, mas não se equivale à diversão se se espremer pra caber num lugar apertado junto com a Fernada, sob a convincente alegação de que “esse é o melhor lugar, eles nunca vão achar a gente aqui, hihihihi!”

Mas então, as porradas.


Uma das brincadeiras se chamava, inocentemente, “Castanha”. Os mais ingênuos de vocês poderão supor logo de cara que o jogo se tratava de arremessar castanhas uns nos outros, mas isso apenas prova que sua criatividade para violência é muito limitada, ao ponto de aceitar sugestões por causa do mero nome da brincadeira. Castanha era muito mais profundo que arremessar hortaliças (não sei se uma castanha é uma hortaliça, mas direi aqui que é pois nunca pude usar essa palavra num texto) no olho de um coleguinha.Castanha era um jogo simples, a despeito de que para algo ser considerado um “jogo” deve haver algum sistema de pontuação ou competição real. Por definição, Castanha não era um jogo muito mais do que era um método de tortura. A brincadeira era simples e consistia de apenas duas etapas simples:- Localizar alguém que acabou de se sentar na sua cadeira.

– Correr até o indivíduo que acabou de se sentar e enchê-lo de porradas.

Só isso. Incrível como algo tão simples conseguiu mandar tantas pessoas pra diretoria da escola. Havia variações nas regras básicas, mas a idéia principal nunca foi alterada: corra pra cima de quem se sentou e projete partes do seu corpo (mão, pé, cabeça, bunda, vai ao gosto do freguês) com violência contra o infeliz.

Ninguém estava imune, pois o privilégio de participar da brincadeira era dado a para todos todos, quer eles desejem brincar ou não. Era praticamente uma emulação da democracia adulta a qual nos acostumaríamos um dia, como o voto obrigatório.

A única forma de se excluir do jogo era sendo portador de alguma deficiência extremamente debilitante, (o que o salvaria das porradas mas não das piadas extremamente maldosas) ou não ir à escola. Sendo impossível passar um dia inteiro sem se sentar na cadeira, aqueles que optavam participar das aulas tinham uma única forma de se salvar das bordoadas: qualquer pessoa que desejasse sentar a bunda na cadeira deveria dizer, em alto e bom som para que todos ouvissem, “castanha” (daí o nome do jogo).

Nunca saberei por que escolheram essa palavra. O que sei é que esse verbete mágico salvou os órgãos internos de muita gente. Digo isso porque em algumas ocasiões, o som resultante de um murro nas costas dava a impressão de que os pulmões do sujeito foram atingidos pela mão cruel do indivíduo que administrou a punição naquele que foi burro o bastante pra esquecer de “pedir permissão” pra sentar (que frase longa, que horror).

Nenhum momento era sagrado. Você poderia estar emprestando uma fita de SNES pro seu amigo que senta atrás de você, e logo em seguida sentar-se sem pronunciar a palavra redentora (por esquecimento ou pela ilusão de que prestar um favor ao amigo o livraria do espancamento); levava porrada a despeito de qualquer coisa.

Eu estudava no Colégio Adventista; lembro-me de uma ocasião em que um garoto entrou na sala durante o momento da oração diária (eles nos obrigavam a orar no começo do horário letivo). Todos (ou quase todos) de cabeça baixa, falando pra Deus algo que ele supostamente já deveria saber mesmo, quando o moleque sentou-se na cadeira. Alguém estava de olho na situação e não perdoou o erro. Um baque surdo ecoou na sala, seguido de vários outro, menos potentes mas mais numerosos. A classe inteira abriu os olhos; o moleque recém chegado na classe estava debruçado no chão, e seus cadernos e livros espalhados pelo piso da sala. O carrasco voltava silenciosamente pra sua cadeira, com um olhar de “missão cumprida” no rosto, provavelmente pensando em contar vantagem sobre o fato de que ele foi o único a ver o menino que sentou sem dizer “Castanha”.

Ah, tinha outra brincadeira. Mas esse post tá grande demais, conto no futuro.

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Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

Categorias: Minha infância

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

12 Comentários \o/

  1. Thiago Neres says:

    Hauiehaeuiheuiaheuieheuiehuihea… que sem noção ^^

    Conta a outra no próximo post da categoria Minha Infância?

    😀

  2. Carol says:

    Você também teve o “prazer” de estudar num Colégio Adventista? Me lembro até hoje do Croquete de legumes e da porra da carne de soja. Ahh, a carne de soja… Tinha gosto de detergente. Como eles tem coragem de servir uma coisa dessas numa escola? Por que eles não servem isopor ou jornal velho ao invés de carne de soja?
    E, sim, eu também sempre tive (e tenho) fascínio por violência… Eu via um leve humor nas pessoas se fodendo e gritando por socorro. Era legal…

  3. RoadHouse says:

    o post é antigo mas vale o comentário: em Manaus a brincadeira era a mesma só que ao invés de se dizer “castanha” se falava “caju” perceba a relação entre as duas palavras…

  4. vitor says:

    cara esa brincadeira e loyuca mais ja brinqueei sim soq ue era rapido pra siar das pancada.

  5. Armando says:

    Na minha época era diferente, mas como sou um pouco mais novo, acho q aprimoraram a brincadeira. O UNICO alvo da brincadeira era o saco do pobre coitado q sentava. Era comum esperar que no recreio, o infeliz desse aquela bela mordida no sauíche recém-comprad e sesentasse, sem chance de defesa para os seus descendentes. Bons tempos… na faculdade ninguem brinca disso… mó paia…

  6. IsraeL says:

    Caralho velho! Brinquei disso ate no 3o ano no Colegio Militar. Lá a gente também tinha o “Hoje não”, que vc deve falar para a outra pessoa quando o ver pela primeira vez no dia, e caso voce nao dissesse voce levava porrada. Soh que os covardes chegavam sorrateiramente por trás arregaçando o socão nos pulmoes, dizendo que eu nao falei Hoje Nao, na covardia… Teve uma vez q fomos fazer um trabalho na madruga, qnd deu 00:00 o povo começou a se esmurrar dizendo hoje não. Bons tempos =D

  7. Catarina says:

    Brinquei muito disso também. No meu colégio, era quando sentava e levantada. Pra levantar tinha que dizer Caju, só pra complicar mais a coisa. Eu sempre me confundia e dizia Castanha quando levantava. Então, sempre levava porrada dizendo castanha ou caju.

  8. needj says:

    eu era espanca diariamente por aqueles moleques fedorendos!

  9. Pedro says:

    Por aqui em Fortaleza ainda bricavam disso ano passado, mas era “Castanha e Caju”. Sentar: Castanha. Levantar: Caju.
    Sinto muita pena do povo que se esquece de falar Caju.

  10. Michael Corleone says:

    Sempre tinha alguém querendo “colar castanha”
    e vc só saía da brincadeira s equem colou com vc aceitasse.

    podia te rum post sobre corredor polonês

  11. Daniel Melo says:

    Eita porra Izzy achei hoje esse post, já em 2014.
    Sou de Fortaleza, tenho 32 anos, morei até meus 28 na Serrinha, hoje moro no Eng. Luciano Cavalcante.
    Castanha era uma “brincadeira” quase que obrigatória para qualquer cidadão nascido nos anos 80. Como era bom fazer soar com a mão aberta um sonoro um “pow” no meio das costas de um individuo desatento que acabara de sentar na carteira escolar vindo de casa ou do recreio mesmo.
    Demos e recebemos muitas vezes e a brincadeira se extendia além dos muros do colégio, na minha rua, na locadoura estávamos todos atentos a quem chegava por trás da gente. porque acontecia muito de você chegar na locadoura, por exemplo, e pedir castanha pros colegas presentes, mas pouco tempo depois você levava uma bordoada segura de um outro colega que chegou depois e obviamente não estava lá quando você pediu castanha. Isso era foda maluco!
    Outra diversão similar (não sei se você participou desta, ou se existe outro post sobre), era o CAFUTE. Cafute compartilhava do mesmo principio da castanha, porém, a punição para quem sentava sem dizer “cafute” era um escalpelante puxão nos cabelos do otário kkkkkkkkkkkk. cara isso deixou muito maluco desorientado.
    Ah so pra registrar domigno fui à Feira da Parangaba com minha mulher e lembrei de você e do Jurandir Filho.
    Abraço ai parceiro.

  12. Daniel Melo says:

    Eita porra Izzy achei hoje esse post, já em 2014.
    Sou de Fortaleza, tenho 32 anos, morei até meus 28 na Serrinha, hoje moro no Eng. Luciano Cavalcante.
    Castanha era uma “brincadeira” quase que obrigatória para qualquer cidadão nascido nos anos 80. Como era bom fazer soar com a mão aberta um sonoro um “pow” no meio das costas de um individuo desatento que acabara de sentar na carteira escolar vindo de casa ou do recreio mesmo.
    Demos e recebemos muitas vezes e a brincadeira se extendia além dos muros do colégio, na minha rua, na locadoura estávamos todos atentos a quem chegava por trás da gente. porque acontecia muito de você chegar na locadoura, por exemplo, e pedir castanha pros colegas presentes, mas pouco tempo depois você levava uma bordoada segura de um outro colega que chegou depois e obviamente não estava lá quando você pediu castanha. Isso era foda maluco!
    Outra diversão similar (não sei se você participou desta, ou se existe outro post sobre), era o CAFUTE. Cafute compartilhava do mesmo principio da castanha, porém, a punição para quem sentava sem dizer “cafute” era um escalpelante puxão nos cabelos do otário kkkkkkkkkkkk. cara isso deixou muito maluco desorientado.
    Ah so pra registrar domigno fui à Feira da Parangaba com minha mulher e lembrei de você e do Jurandir Filho.
    Abraços!