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"A Imagem da Besta", o filme que mais me assustou na vida

Postado em 9 October 2006 Escrito por Izzy Nobre 6 Comentários

A maioria dos leitores do HBD deve saber do meu histórico religioso, que vez ou outra é mencionado quando eu preciso tornar minhas opiniões idiotas sobre o assunto um tanto mais válidas através do processo falacioso de apelo à autoridade. Porém, tal qual o Wolverine, sou canadense e meu passado no que diz respeito a esse assunto é nebuloso e nunca foi satisfatoriamente explicado. Pouco se sabe sobre a minha infância religiosa e sobre os mecanismos que me libertaram da crença cristã.

Até hoje. Como o download da ISO de Wipeout Pure pro PSP tá demorando horrores, resolvi usar este tempo livre e ocioso pra tecer mais um episódio de minhas memórias infantis. Assim, quando eu finalmente lançar meu livro que terá como tema esse assunto, vocês não precisarão compra-lo.

Quando nasci, meu lar abraçava a fé católica. Vale lembrar que os Nobre até então eram apenas eu, minha mãe e meu pai. Mais ou menos na época que o Trunks veio ao mundo, meus pais decidiram que catolicismo não era mais tão divertido como antigamente e resolveram fazer um upgrade pro protestantismo. Meus avós – católicos roxíssimos do tipo que toda sexta feira abre as portas da casa pra que os idosos das redondezas compareçam à sua novena/vigília ou sei lá qual é o nome daquele evento social em que 16 anciões do bairro rezam em uníssono até que algum lembre que a novela está pra começar – obviamente rejeitaram a migração da pequena família Nobre à crença protestante, mas ninguém realmente dá a mínima pra o que os mais velhos falam e Papai e Mamãe Nobre continuaram sendo crentes como pretendiam.

Graças a amizades em lugares altos na hierarquia da congregação, em pouco tempo meus pais se viram profundamente envolvidos com o funcionamento da igreja. Minha mãe, música desde a juventude, passou a aprender aquelas canções religiosas bem chatinhas pra tocar na igreja nos domingos. Meu pai, bom, não lembro exatamente o que ele fez pela denominação, mas algo importante foi, porque em algum tempo o meu velho foi reconhecido com o imponente título de PASTOR da congregação (que era uma variante da Assembléia de Deus chamada Assembléia de Deus Betesda que, segundo a lenda, foi fundada na tentativa de alcançar a região burguesa da gloriosa capital cearense).

Então, como eu ia dizendo, meu velho foi “presenteado” com a direção de uma igreja. O que eu não esperava é que a tal igreja se localizasse no coração do Conjunto Ceará, um bairro nada prestigioso. Auto-plagiando-me de um outro texto, aqui está uma boa descrição do lugar.

Pensem aí no bairro mais sujo das redondezas de Calcutá, e em seguida imaginem um caminhão-pipa cheio de esterco, muco, placentas, cadáveres em avançado estado de decomposição e cópias do último CD do Los Hermanos explodindo bem no meio dele, espalhando a repugnante mistura por todo lado. Esse é o Conjunto Ceará.

Eu, um típico filho da classe média brasileira que tinha até então vivido a base de nuggets, danoninho e refrigerante no almoço, me vi vítima da trágica relocação ao centro do bairro mais nojeira que minha cidade natal tinha a oferecer.

Esse é basicamente o resumo de como minha família passou de católicos não-praticantes a evangélicos líderes de uma congregação. Mas e qual o meu relacionamento com a fé que eu herdei dos meus pais? Vamos com uma palavra só pra ser conciso?

Indiferença. É esperar demais que um garoto de 10 anos compreenda que até mesmo suas atitudes mais trivias (como, sei lá, tocar uma punhetinha tranquila no aconchego do armário da vizinha enquanto ela troca de roupa na sua frente) seriam responsáveis pela definição de seu destino eterno. Por mais que eu ouvisse e lesse a respeito da coisa, o mundo espiritual simplesmente não me interessava de forma alguma. Eu estava muito mais preocupado com os mais badalados lançamentos para o SNES e na súbita constatação que garotas tinham peitos do que com algo que aconteceria com a minha alma dali a décadas.

Até o dia em que meus pais resolveram me convencer na base do medo.

Era 1994, e uma seçãozinha de cinema havia sido marcada na minha casa praquela noite. Éramos os felizes donos de uma TV de 29 polegadas, o que na época era o equivalente a uma Ferrari construída em ouro puro recheada de diamantes, caviar e boosters de Magic de Eras Glacias ainda lacrados. Por causa disso, meus pais não desperdiçavam oportunidades de reunir os amigos pra assistir filme lá em casa.

A turminha da igreja tava toda lá, e mamãe já começava a distribuir um lanchinho pra galera quando meu pai pôs a fita no video-cassete. “A Marca da Besta”, ou algo que o valha, era um filme dos anos 70 que eu aposto que se fosse assistir hoje em dia me traria lágrimas aos olhos e dor nas bochechas de tanto rir. Mas, no auge de meus 10 anos, a trama era a coisa mais aterrorizante que eu vi até então. E falo isso sem exagero nenhum agora.

A fita relatava a suposta volta de Jesus (anunciada aos seus seguidores que já morreram há quase dois mil anos; apesar de andar na água e ressucitar mortos, Jesus não era lá o cara mais pontual do mundo) e o celeuma absoluto que se instaurará no planeta quando a crentaiada for “arrebatada”, como eles dizem, em direção ao céu.

Não quero me alongar nos detalhes da fita porque o post já tá ficando mais longo do que eu esperava e acho que a ISO de Wipeout Pure já completou, mas permitam-me atiçar a sua curiosidade dizendo que havia até guilhotinagem de crianças na fita. Mermão, eu cresci assistindo filmes como Exterminador do Futuro e Aliens, mas aquela porcaria cristã mal filmada e mal atuada me deixou aterrorizado. O maior medo de uma criança é se ver perdido dos pais; aquele filme conseguiu de uma tacada só me pôr o receio de que eu estaria permantemente separado dos meus pais (que eram “mais crentes” do que eu e portanto merecedores de um ingresso no arrebatamento, ao contrário deste que vos escreve) E que o mundo se tornaria uma putaria tão fenomenal que até cabeças infantis rolariam nas guilhotinas dos aliados do Anticristo.

(A propósito, não foi até pouco tempo atrás que eu finalmente confrontei minha mãe por injetar terror em minha mente pueril, o que em retrospecto apenas me deu mais munição pra detestar a religião cristã com todas as forças.)

Graças ao medo da danação eterna, me vi sem opção a não ser aceitar o amor de um Deus que me condenará ao fogo infernal a menos que eu o ame de volta. E passei a prestar mais atenção nos cultos, nas pregaçães do meu pai, nas entrelinhas daquelas passagens bíblicas tão sem sentido cuja leitura pode implicar em quarenta interpretações diferentes e ainda assim mutuamente corretas. E passei a ir à igreja com frequência maior.

Inicialmente, eu me sentia como se tivesse removido um peso das minhas costas. “Pronto, não vou mais pro inferno, que beleza!” era um pensamento confortante, ainda que viesse com o peso de adicionar compromissos religiosos chatos à minha atarefada agenda de jogar videogame e arrumar confusão em canais de IRC – o que foi o precursor do HBD que você lê hoje. A diferença é que eu não podia usar palavrões, uma vez que isso é algo absolutamente reprovável pela cultura cristã. O estigma do uso de palavrões é tamanho que eu evitei durante toda minha infância e me lembro EXATAMENTE a primeira vez em toda a minha vida que falei “porra” – foi durante a final da Copa de 1994, quando o Taffarel permitiu o primeiro gol italiano. E falei um porra baixinho, discreto, na esperança que ninguém ouviria.

Agora imagina aí a complicação de irritar estranhos no IRC sem poder usar palavrões. Foram aqueles dias que treinei minha retórica e argumentação, que hoje podem ser postas de lado no lugar de um simples e direto “vai tomar no seu cu, filho duma puta rampeira de beira de estrada!”.

A fé cristã reaquecida veio também com um medo fatal de Jesus. Isso mesmo; por causa das doutrinações paternas, meu maior medo de infância era Jesus. Tou falando sério. Meu infantil medo do escuro se devia ao fato de que, ao contrário do bicho-papão e lobisomens, Jesus era não apenas “real”, mas onipresente. Ou seja, eu “SABIA” que ele estava no quarto comigo, e isso me fazia mijar as cuequinhas de medo porque, afinal de contas, o cara é filho de Deus. O que o impedia de me punir pelos meus pecados pueris ali mesmo, partindo minha cabeça ao meio com sua Metralhadora Divina? Eu tinha pesadelos horríveis com o Filho de Deus, acordava no meio da madrugada totalmente banhado por suor (mas por outro lado, eu morava no Ceará, então não posso culpar Jesus inteiramente por isso), e ia dormir na cama do Trunks.

Ah, e um detalhinho que jamais revelei a ninguém – o trauma com a figura religiosa me causou enurese noturna por uns quatro anos. Dê uma googleada aí e ria da minha cara.

Mais ou menos nesse tempo eu arrumei minha primeira namoradinha, que era filha de um casal de relativa importância no micro-cosmo da igreja que meu pai liderava. Aliás, graças à magia do orkut, reestabeleci contato com a garota recentemente. Como eu ia dizendo, arrumei uma namorada que frequentava a igreja, então finalmente havia um motivo pra ir aos cultos além do menos agradável “se eu não fizer isso todo domingo serei jogado no inferno”.

Em muitas formas, a minha vida cristã foi de muita importância para a minha digi-evolução em direção à nerdice profunda. Crentes e nerds compartilham muitas características – ambos são mal vistos pela sociedade, se interessam em livros que ninguém mais em todo o planeta acha interessantes, passam horas debatendo as aventuras de personagens sobrenaturais com super poderes, se vestem mal e, acima de tudo, não trepam. Crentes têm até mesmo a sua própria versão de adágios supersticiosos nerds – como o célebre “A Paz do Senhor, irmão!”, que é uma forma resumida do “Que a Paz do Senhor preencha sua vida e impeça que você vá pro inferno, apesar de que o próprio é a única força responsável por realmente enviar alguém ao inferno então a frase não faz muito sentido”.

É um “May the Force be with you/Live long and prosper” religioso que trocávamos durante as “confraternizações”. A “confraternização” era aquele momento em que, seguindo a deixa, minha mãe tocava alguma musiquinha de cunho levemente social como a Queeeeeeeeero/Te dar a Paaaaaz/Do meu Senhoooooor/Com muito amoooooooooor (sim, essa é a letra genuína da música) e a igreja inteira se levantava das cadeiras e saía apertando a mão de todo mundo e recitando o “A Paz do Senhor, irmão!”, como uma forma de simular uma camaradagem absolutamente inexistente e partindo do pressuposto que se você apertar a mão do sujeito energicamente e talvez pôr a outra mão em cima das duas ou usá-la pra dar um tapinha no ombro do cara, Jesus vai pensar que vocês são realmente coleguinhas.

A única coisa que eu realmente sinto falta dos tempos de igreja é a sensação de pertencer a um clubinho exclusivo, e qual clube poderia ser mais seleto e prestigioso que o grupo dos que não queimaram no inferno durante toda a duração do universo? O hábito de frequentar igreja dava também um significado aos domingos. O que antes era apenas um dia de evitar assistir TV aberta se tornou um dia pra ir à “casa” de um ser invisível pra tentar ao máximo provar a ele que você acha que o cara é foda.

Mas quando paro pra pensar, o que fiz foi trocar tudo aquilo pela habilidade de fazer sexo não-matrimonial e falar palavrões.

Acho que foi uma boa troca.

[ Update ] Muita gente queria mais informações sobre o filme cristão que eu mencionei nesse post, então resolvi dar uma googleada milagrosa e descobri o nome da fita – Image of the Beast, que é a terceira parte de uma série iniciada com o Thief in the Night. Com a palavra, um usuário do IMBD:

I saw this movie when I was a child and it terrified me. I still vividly recall images of the Rapture, the Mark of the Beast and the horrible fate of those Left Behind. It’s the perfect movie to show your kids if you’re a religious fanatic and you want your kids to start wetting the bed and crying in their sleep (…) It actually sowed the first seeds of my disbelief and started my move away from Christianity. If you have to resort to terrifying people in order to convert them instead of using rational discourse it doesn’t say a whole lot for your belief system. This movie relies on the worst sort of emotional manipulation to convey its message. I didn’t see the others in the series but since this is the best of the bunch I probably wouldn’t bother with the others. I watched this movie again recently and I didn’t find it terrifying at all, just really overwrought and annoying. If you like those cheesy Left Behind Books, you’ll probably like this version of the Revelation fantasy. Oh, and the acting is really awful.”

O cara falou praticamente TUDO que eu escrevi sobre o filme, mas em inglês.

Em posts futuros, elaborarei melhor o que me distanciou da religião cristã, e os efeitos resultantes da minha “saída do armário”, como alguns gostam de falar.

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Categorias: Minha infância

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

6 Comentários \o/

  1. Camilo says:

    ainda estou em fase de transição … : /

  2. Lucas says:

    Há um certo tempo uma parte da minha família descobriu que eu era Ateu, isso não me trouxe problemas até que eles tiveram o trabalho de “Tentar me Converter” e foi para o formato de “Cristão Exemplar”.
    Sempre vi contradições, pelas vezes que li a bíblia ora ou outra perguntava para os meus ávos “mais e aquilo que cai na prova, é mentira?”(fiz um trabalho com a Teoria da Evolução na 7ª serie e um da Teoria do Big Bang na 8ª) e outras perguntas mostrar que havia algo errado.
    Não vi o filme, mais digo que minha infância foi bem estranha, me apaixonei por Video Games e desenhos animados ainda na infância como uma grande maioria, só que não podia ver em casa em específico uma coisa que baixei recentemente para ver como era, o nome era Cavaleiros do Zodiáco ou “desenho do Diabo” diacordo com meus pais.
    Ainda tenhos membros da minha família mandando sugestão de comunidades no orkut(que não sabem ou não perceberam que tá desativado) com orgulho religioso.
    Isso é o que tenho para falar.

  3. Issue says:

    Queeeeeeeeero/Te dar a Paaaaaz/Do meu Senhoooooor/Com muito amoooooooooor
    CARALHO: UM FLASH DA MINHA INFANCIA! UM NAO, VÁRIOS VÁRIOOOOOSS D:
    *corre*

  4. Jany Caetano says:

    Caralho, eu lendo, rachando de rir e lembrando de como foi a minha adolescência de co-líder do grupo de jovens da Catedral. Cara, sério, é uma das sensações mais libertadoras do mundo quando lembro o modo como saí do grupo.

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Eu não podia sair como amigos sem serem do grupo, falar palavrão e td e qq coisa q eu fizesse, teria q ter aprovação da freira responsável, caso contrário, eles viriam falar com a mamãe contando uma história mais fantasiosa que Superman, e o pior, mamãe acreditava neles.

    XD

    Mas enfim, saí com meus 17 anos, mandando todo mundo pra puta que pariu e hj em dia tô mais relax podendo fazer minhas babaquices sem ter que prestar contas ao grupo seleto! Mas ainda acredito que Jesus é meu champz!

    =)

  5. Elis says:

    “Minha mãe, música desde a juventude (…)”
    LOL
    Você quis dizer musicista, o feminino de músico.

  6. Rosângela says:

    “A diferença é que eu não podia usar palavrões, uma vez que isso é algo absolutamente reprovável pela cultura cristã. O estigma do uso de palavrões é tamanho que eu evitei durante toda minha infância e me lembro EXATAMENTE a primeira vez em toda a minha vida que falei ‘porra’”.
    PQP Izzy, me encontrei nesse trecho (mentira, em vários!) Boa parte do que vc escreveu relata a infância de muita gente. Adorei a descrição do Conj. Ceará hahahaha…