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A morte de um videogame

Postado em 19 março 2008 Escrito por Izzy Nobre 78 Comentários

Alguém mais aí tem saudade do tempo em que consoles não se auto-destruiam?

Eu tenho.

Meu primeiro console foi um SNES usado que meu pai comprou de um amigo de trabalho. Posso honestamente dizer que aquele foi o melhor presente que eu ganhei na vida inteira. Primeiro porque foi totalmente inesperado – foi a única ocasião na minha vida em que meu pai se motivou a me dar um presente fora da época de fim de ano, quando eu tipicamente ganho presentes (aniversário em novembro, Natal em dezembro). Ele foi visitar o tal amigo em Brasília, e voltou com o console debaixo do braço.

E o segundo motivo é porque era, afinal de contas, um SNES. Eu ganhei a parada em 1998 se não me engano (ou seja, muito após o auge do console), mas àquela altura eu já havia passado literalmente anos jogando os clássicos do SNES. Eu morava bem na frente de uma locadora, e todos os amiguinhos da época compartilhavam meu interesse em joguinhos. Após a escola, toda a molecada do bairro convergia pra locadora. Mesmo que não tivessem dinheiro, iam pra assistir os amigos jogando, conversar sobre os lançamentos, fantasiar sobre jogos que claramente nunca iam existir (“imaginaí um Super Mario World, mas com o Sub Zero!”) ou – mais frequentemente - insistir pro amigo pagante pedir outro controle pra jogar como segundo player em International Superstar Soccer.  Minha existência orbitava ao redor de um console que eu nem tinha. Imaginem ai ganhar um inesperadamente.

O console era de terceira mão e tinha sinais claros de muito uso. A carcaça tinha aquele característico tom amarelado, tal qual aqueles monitores de tubo antigo que você vê em lan houses de baixa categoria. Algumas beiradas do console estavam amassadas, indício claro de quedas e maus tratos. Mas os danos eram apenas estéticos – o meu SNES funcionava perfeitamente e durou firme e forte, até o trágico dia em que eu o derrubei no chão.

Tenho certeza que se eu disser pra vocês que o dia em que eu quebrei meu SNES foi o dia mais triste da minha vida, vocês não vão pensar que é exagero. Então aí vai: o dia em que eu quebrei meu SNES foi o dia mais triste da minha vida.

Eu e meu irmão estávamos jogando Donkey Kong Country 2. Como vocês nerds devem saber (e aí vai uma pequena explicação pros que não sabem), a série DKC era fortemente inspirada mas mecânicas de Super Mario World, e o sistema multiplayer dele não era tão diferente. Assim como em Super Mario, o multiplayer de Donkey Kong não era simultâneo – o seu amiguinho ou irmão menor ficavam com o controle inerte na mão até que você morresse, então aí era a vez deles. A diferença estava no fato de que, mesmo inativo, o seu bonequinho seguia o bonequinho do colega pela fase inteira, pra tomar a vez dele quando este decidisse não desviar de um inimigo e morresse graças à própria burrice.

Esse sisteminha era diferente de Super Mario, em que o Luigi esperava “fora da fase”, digamos assim, até que o Mario batesse as suas botinhas italianas. A diferença tornava o jogo mais dinâmico e imprevisível, uma vez que o jogador inativo poderia a qualquer momento ser jogado no meio do jogo. Não era necessário nem morrer, aliás – o botão Select, se não me falha a memória, dava a vez pro jogador inerte trazendo o bonequinho dele pra ação.

Então. Entenderam?

Pois bem. Estávamos eu e meu irmão (meu irmão e eu?) jogando esse clássico da infância dos anos 90 quando eu me atrapalhei com os controles e mandei meu macaquinho de cara com um inimigo espinhudo qualquer. Morri, e meu irmão finalmente ganhou uma vez pra jogar. Como bom nerd viciado nas diversões eletrônicas, eu tinha uma habilidade sobrehumana nos controles do jogo, e por causa disso não era raro meu irmão passar a tarde inteira apenas me assistindo jogar o negócio. Quando ele finalmente ganhava a oportunidade de brilhar na tela, o moleque ficava todo contente, se aprumava na cadeira, e se concentrava todo no jogo.

Eu, é claro, precisava de uma forma de sacaneá-lo gratuitamente pela pequena vitória adquirida como uma forma de menosprezar seu esforço e minar sua auto-confiança. Afinal, é pra isso que irmãos mais velhos servem. E eu descobri a forma perfeita de me vingar – ir ao banheiro/quarto/qualquer outro cômodo da casa, mas passando NA FRENTE do moleque, obstruindo a TV. Obviamente, timing era essencial – a idéia era executar a manobra em momentos cruciais da fase, como aquela parte em que aparecem mil inimigos na tela e você precisa de cada grama de destreza manual e coordenação motora pra escapar ileso. Esperei o momento certo e me levantei da cadeira, pronto pra passar na frente da TV e sacanear o coitado sem nenhum motivo em especial.

Mas algo deu terrivelmente errado.

É engraçado que em momentos desse calibre, apesar de estar lá no meio da ação, você não consegue lembrar exatamente do que aconteceu. É como se sua mente estivesse se recusando a processar a informação que te dá conhecimento do evento. Eu não me lembro EXATAMENTE de todos os detalhes do acidente. O que eu me lembro é que eu estava indo pro meu quarto, pensando em procurar minhas figurinhas metálicas que brilhavam no escuro (um brinde que vinha dentro de pacotes de Cheetos na época) pra observar a arte e organiza-las enquanto meu irmão não morria no jogo. Eu havia colado algumas ao interior do meu armário, mas aí decidi que preferia colecioná-las e parei de fazer aquilo. Ia organiza-las alfabeticamente, pra impressionar meus amiguinhos. Eles diriam ”eu estou colecionando aquelas figurinhas que brilham no escuro!” e eu diria “pfff, se vocês fossem ao menos sofisticados estariam organizando-as em ordem alfabética” e aí pescaria a minha a coleção do bolso da calça.

Algo deu errado. Tremendamente errado.

Senti algo macio embaixo do meu pé. Meu passo empurrou o tal “algo macio” ao chão, mas não sem oferecer alguma resistência. E aí senti que aquela tensão que o “algo macio” oferecia inicialmente ao meu peso, provocada por algum peso atado à outra ponta, subitamente cedeu. Como se de repente  não houvesse mais nada pesado na outra ponta. Ouvi um barulho de coisa caindo no chão, e de plásticos se quebrando.

Foi como se de repente eu estivesse vivendo meu pior pesadelo. Me virei pra entender o que diabos tinha sido aquilo, mas na minha mente eu sabia exatamente o que havia acontecido. Eu havia pisado no fio do controle do meu irmão, e com isso trouxe o videogame ao chão.

A tela da TV parou imediatamente de exibir as cenas do jogo, e agora mostrava apenas estática. No chão estava meu SNES, luzinha apagada, aparentemente sem vida. A fita havia sido cuspida pra fora por causa do impacto e jazia perto da porta da cozinha.

Meu irmão segurava o controle com a mão mole, vacilante, alternando o olhar entre o videogame e eu. Eu imagino que pra um moleque mais novo, seu irmão maior é aquele “pai em miniatura”, a figura autoritativa a quem se procura quando precisa de ajuda ou consolação ou garantia de segurança. Meu irmão não falou nada, mas seus olhos diziam “pelo amor me Deus, me diga que ele não está quebrado“. Coincidentemente, isso era o que eu estava dizendo a mim mesmo.

Esqueci absolutamente as figurinhas. Como um salva vidas que se atira pra salvar um folião bebâdo que se afoga na orla marítima de Fortaleza durante as celebrações do ano novo, voei em direção ao SNES. Inspecionei-os por vários ângulos, tentando compreender a extensão do dano. Minhas mãos tremiam. Apanhei o cartucho, coloquei-o de volta no console (não sem antes dar aquela sopradinha de boa sorte) e, com muito medo do possível resultado, liguei-o à TV de novo.

Horrorizado, percebi que a TV continua a emitir apenas estática. Desliguei e religuei o console diversas vezes, tentei dar tapinhas, tentei essencialmente tudo que estava ao meu alcance. A TV insistia em exibir apenas estática.

Quando finalmente ficou estabelecido acima de qualquer dúvida que nosso SNES havia morrido, um silêncio sepulcral abateu a sala. Foi como se nossos pais tivessem morrido.

“O que a gente vai fazer agora, Israel?” – perguntou o moleque, com cara de choro, acalentando o controle do videogame, agora inútil, na mão.

“Não sei, Daniel. Não sei.”

O moleque continuava segurando o controle, olhando pra TV e lentamente apertando alguns botões, com semblante de total desalento.

Minha mente viajava a mil quilômetros por hora no momento. Sabe o Deep Blue, aquele computador colossal que a IBM fez especificamente no intuito de jogar dinheiro fora derrotando campeões de xadrez? Li numa Superinteressante que aquela máquina ”pensa” na ordem de tipo, setenta bilhões de cálculos por segundo, pra analisar todas os lances possíveis num tabuleiro de xadrez. Então, naquele momento eu me tornei um Deep Blue, computando simultaneamente mil e uma formas de explicar o acontecido pros nossos pais E convence-los a comprar um novo videogame.

Infelizmente, a situação que tínhamos em mãos produzia resultados mutualmente exclusivos, auto-derrotantes: se eu explicasse que havíamos quebrado o console, podia esquecer a esperança de ganhar um novo. Se falasse a verdade, ia ficar sem videogame. Se mentisse… provavelmente ia ficar sem videogame também.

Resolvi contar a verdade. Como você pode imaginar, não ganhamos outro SNES. Meu próximo console foi um Playstation 2, em 2006, muito anos depois do evento trágico que me excluiu das rodinhas de debate e apreciação de videogames na escola.

Hoje, uma década após da tragédia que levou meu maior hobby embora, meu irmão e eu discutimos o que aconteceu. Chegamos a um consenso de que, se tivesse sido ELE  o causador da morte prematura do nosso console, eu jamais teria deixado ninguém esquecer da história e o culparia pra sempre. Por ser o irmão mais velho, na época ele nem se atrevia a ficar com raiva de mim. Irmão mais velho nos olhos de um pivete de 10 anos é tipo uma poderosa figura intangível, um vice-pai, uma força da natureza quase. Não adianta ficar com raiva.

***

Há uma década, consoles já velhos pra época aguentavam toda sorte de porradas e maus tratos e só cediam quando a cacetada era tamanha que até o cartucho do jogo levantava vôo. E com todos os avanços tecnológicos que conquistamos nesses anos, onde chegamos?

Consoles cuja CPU e GPU foram retardadamente colocadas muito próximas uma da outra e acabam se torrando. Ou, pior ainda, a funcionalidade online mal acabada faz hardware se destruir.

Meu Xbox 360 já precisou de reparos duas vezes. O meu Wii morreu essa semana. Na mesma nota, meu Windows Vista precisou de formatação já que o Explorer tava totalmente fodido (abrir pastas e renomear arquivos causava total congelamento do sistema), e de tanto instalar bobagem no meu iPod touch, esse precisou de uma formatação também. Ah, e eu perdi a câmera digital que ganhei de Natal da namorada. Nada a ver com os consoles, mas isso talvez prova que eu realmente preciso ir a um pai de santo como o leitor de nome impublicável sugeriu.

A questão é que antigamente era preciso um irmão sacana pra acabar com a vida de um console. Hoje em dia eles fazem isso por si só.

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Categorias: Minha infância

78 Comentários \o/

  1. mms disse:

    alias, só vou levar o micro e o CDX pra espanha :y:

  2. Alex disse:

    Lembro da vez que minha irmã desligou meu NES pra ver Malhação. E eu estava na ultima fase de SUPER MARIO BROS 3!!!

    Foi a primeira e última vez que cheguei lá… Eu devia ter uns 10 anos (tenho 20 hoje), lembro disso até hoje.

    Que triste… =/

  3. Davi disse:

    Tenho un nes, snes, n64, ds e psp. Com cereteza, o melhor que tive até hoje foi o SNES. Esse era bão.

    Meu nintendin é todo remendado. Já troquei a fonte, consertei os dois controles e troquei o adapatador RF. Mas ainda funciona normalmente!

    Um quase desastre aconteceu com meu n64. Tava levando ele para casa do meu primo que mora em outra cidade. Ele tava em uma outra caixa até que quando eu desci do ônibus, pisando o 1° degrau, o fundo da caixa abre e ele sai quicando os degraus e depois fica ralando no passeio. Gelei. Mas por incrível que pareça, ele ainda funciona normalmente! Acredite se quiser…

  4. Maria Victória disse:

    teu irmão te respeitava?
    orra.
    minha pirralhinha me respeita quando quer.

  5. Patrick disse:

    Cara, fantástica a sua história! eu to morrendo de rir aqui. Eu tinha um snes, e lembro que minha vo derramou suco de laranja nele.. depois de muito secador de cabelo ele voltou a viver ^_^

  6. foxhound disse:

    “(não sem antes dar aquela sopradinha de boa sorte)”

    “O que a gente vai fazer agora, Israel?” – perguntou o moleque, com cara de choro, acalentando o controle do videogame, agora inútil, na mão.”

    “O moleque continuava segurando o controle, olhando pra TV e lentamente apertando alguns botões, com semblante de total desalento.”

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkCara, muito bom!! Dei muita risada. Não tem como não associar as nossas “tragedias” semelhantes.

  7. DU0 disse:

    Tenho um Dynavision [digamos que é um clone superior do NES, pois suporta todo tipo de cartucho, silencia a tv quando desligado e umas cositas mais]. O ano de fabricação dele é 1988. Funciona perfeito até hoje o_o
    Mas sou um gamer pobre tb; depois dele em toda a minha infância, só fui comprar um videogame novo a 1 ano atrás e foi um PS2 -.-’
    To juntando dinheiro pra comprar um X360 mas tá foda. Ta custando uma média de 2000 reais. Maldito brasil >_>

  8. jo@o disse:

    LEMBRO COMO SE FOSSE HOJE O DIA EM QUE MEU ATARI MORREU LIGUEI ELE NA TENSAO ERRADA E ELE PEGOU FOGO !! FOI A PIOR COISA EM QUE ME ACONTECEU, FOI DIFICIL ME RECUPERAR. ISSO ACONTECEU EM 1996 DEPOIS DE 12 ANOS EU COMPRI UM PLAY 2 !!!

  9. Reragon disse:

    historia mais triste que eu ja lia.
    Sem zoa.

    =(

  10. Fernando disse:

    Puta velho!!!Sou técnico em eletrônica especializado em videogames(acho q nem preciso falr o porque…)e concordo,cegamente,com duas afirmações citadas no conto(da cripta?)e em um comentário feito.

    1º:”A sopradinha da sorte” é sagrada antes de encaixar todo e qualquer cartucho de Snes.Sério,em serviços própios realizados por mim mesmo sempre dou essa famosa e quase q “automática” sopradinha.

    2º:Boa Fabiana(após mais de 1 ano,mas dane-se hoje q cai de para-quedas nesse post).Com certeza só quem vivenciou o era SNes pode se auto-intitular um gamemaníaco,viciado,secura,capela(esse em particular me indentifica por ter ouvido,e muito na infância),e afins.

    E tenho dito!

  11. wesley disse:

    Eu tenho uma fita original do super nintendo (donkey kong),ela funciona mais quando eu seleciono o jogador o jogo não inicia entra em uma tela azul da nintendo e não sai disso ,isso é problema na fita ou no meu videogame?

  12. Camilo disse:

    consoles hoje ficam cada vez mais descartáveis ….

  13. @solinthesky disse:

    Quase chorei com esse texto, meu primeiro também foi um SNES, me lembro até hoje, de minha mãe chegando com a caixa em casa, eu tinha 10 anos *-* foi o melhor natal da minha vida até hoje.

  14. Joel Suke disse:

    Me lembrei aqui da época que possuía meu PS1 antigo, vulgo tijolão.

    Nessa época tinha o boato de que o PS1 esquentava muito e isso causava travas nos jogos. Daí acontece que um amigo meu disse “tu tem que arrumar uma maneira de resfriar teu PS cara”.

    Beleza, fui lá e coloquei meu console dentro da geladeira. Acreditem se quiser.

    Deixei lá por meia hora, fui tirar ele. Ele ficou preso em alguma coisa, dei uma puxada com mais força e ele caiu a uma distância de uns 4 metros.

    Na hora eu gritei “naaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaao” (Darth Vader). Mas o rapaz voltou a funcionar normalmente não sei como.

  15. Diego Marwell disse:

    O que mais chamou minha atenção no post foi: Eu moro em Brasília e em 1998 meu pai vendeu meu SNES pra um amigo de outro estado, na promessa que eu ia ganhar um console “mais avançado” (coisa que nunca aconteceu, claro ¬¬’)…
    P**a coincidência!!!! O.o

  16. Eu ganhei o meu SNES num concurso de desenho em 1999, daquele modelo novo, mais redondinho. Foi um dos dias mais felizes da minha vida também. Imagine a alegria da criança que antes vivia jogando no SNES do meu tio. Ainda guardo aqui comigo, funciona embora eu não jogue mais nele.

    Que triste mesmo essa história. Isso pra uma criança é um tremendo baque mesmo. :(