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Da arte de implorar por jogos

Postado em 23 junho 2008 Escrito por Izzy Nobre 155 Comentários

Ei seus viados, já ouviram falar na EB Games? Não? Calma que eu explico. Com foto e tudo, olha só:

A EB Games é uma popular loja de jogos que era uma franquia da Electronic Boutique, que eu acredito que faliu há algum tempo. Nunca mais vi uma Electronic Boutique em lugar algum, embora haja EB Games em qualquer shopping. Ouvi falar por aí que a rede americana Gamestop havia comprado a EB Games; isso explicaria por que o departamento de jogos não sumiu junto com a Electronic Boutique.

A EB Games não é uma loja de jogos como as outras; o foco dela é venda de jogos usados. Ou, como os cartazes informam eufemisticamente, previously enjoyed. Há jogos lacradinhos também, naturalmente, mas são os jogos usados que ocupam espaço proeminente nas prateleiras da loja. E há um bom motivo pra isso.

A beleza desse sistema é que você tem acesso a jogos originais por uma fração do preço convencional, com garantia de um mês. Se por algum motivo o jogo der pau (algo que normalmente se percebe nas primeiras horas de jogo), leve de volta e receba seu reembolso. Eu particularmente jamais precisei usar o sistema de devolução, até porque os critérios dos caras em relação a discos arranhados são espartanos – um risquinho de nada no seu DVD do My Little Pony Barnyard Adventures já desqualifica a troca do jogo. Afinal, se eles aceitarem qualquer jogo fodido, quem fica no prejuízo são eles quando cliente aparece pra pedir o dinheiro de volta.

Por causa do meu péssimo hábito de comprar jogos assim que eles são lançados, ultimamente não costumo comprar jogos usados (os DVDs usados só começam a aparecer na prateleiras algumas semanas após o lançamento; tempo demais pra esperar enquanto o resto dos habitantes da internet se divertem com o jogo). A exceção é quando encontro um jogo usado cujo novo preço causa interesse que a etiqueta original não conseguiu despertar, como foi o caso do novo Trauma Center pro Wii, que eu fisguei por míseros 9 dólares, ou Spider-man 3 pro Xbox 360, que custou ainda menos – 8 dólares. Originalzim, na caixa, com manual e tudo. Quem acompanha meu flickr deve ter visto no dia que comprei.

Gamer brasileiro pobre no exterior deve fazer a maior festa na EB Games, eu imagino. Embora eu não consiga imaginar um cenário verossímil que explique a presença de um gamer pobre no exterior.

Outro dia eu estava numa EB Games com a minha namoradinha – que ultimamente abandonou a sutileza e passa a declarar com todas as letras que pretende se tornar a Sra. Nobre muito em breve, HELP – e notei uma curiosa comoção acontecendo na seção de jogos da Nintendo.

Uma mulher que aparentava ter uns 35 anos tava ladeada de dois pirralhos catarrentos, um de 8 e outro de 13. A propósito, acho que nunca mencionei isso, mas tenho um talento sobrenatural pra descobrir a idade de transeuntes. Através de brilhantes técnicas de dedução, estabeleci que a mulé era mãe dos dois moleques. E em menos de 5 segundos decidi que odiava profundamente os três.

O moleque menor, que parecia o mais catarrento dos dois, segurava No More Heroes. O outro guri, que demonstrava características distintas de uma homossexualidade latente que aguarda os anos de rebeldia adolescente pra se manifestar como forma de protesto contra suas figuras paternas, tinha Zelda Phantom Hourglass nas mãos. E eu presenciei algo que protagonizei durante toda a minha infância, mas nunca observei do lado de fora:

Dois moleques tentando convencer os pais a comprar um jogo.

Parei de prestar atenção no resto da loja e dediquei todos os meus sentidos à tarefa de escutar a conversa dois três. Era como um julgamento – a mãe, fazendo as vezes de juíza E promotora, lançava acusações que comprometeriam a compra – esse jogo é violento, já comprei aquele outro jogo semana passada, não sei se você tá merecendo – enquanto os moleques se contorciam pra tentar rebater os argumentos maternos e garantir posse do jogo.

Um dos moleques levantou aos olhos da mãe a caixa do jogo que ele queria, num esforço pra desmistificar o conteúdo e o tema do bagulho. Não é tão violento assim, olha só, não tem sangue e o… “Objection!“, imaginei o outro moleque falando, porque na ânsia de garantir que seu jogo seria comprado ele cagou o argumento do irmão apontando que, apesar de não exibir sangue, há “demônios” no jogo dele – um conteúdo ainda pior do que violência.

Os dois continuaram discutindo, e a mãe continuava suspirando com impaciência, e foi nesse momento que eu me senti sugado por um wormhole em direção a 1999 – uma época mágica e inocente quando eu também não tinha uma fonte de renda e tinha que implorar a meus pais por jogos. Meu domínio de retórica e minha característica forma de apresentar argumentos foram desenvolvidos graças a necessidade de convencer os progenitores a me presentear com Mortal Kombat 3 ou Super Star Wars Return of the Jedi.

Era realmente um desafio às vezes. Como convencer os seus pais religiosos a comprar um jogo tão notoriamente violento e com tantas referências claras a ocultismo? Qualquer coisa ao menos levemente parecida com uma caveira já seria interpretada como uma conexão direta com Satanás em pessoa. Imagina então os montes de símbolos esotéricos explícitos em MK?

Eu não lembro como convenci meus velhos. Mas devo ter feito um trabalho melhor do que os pivetes da EB Games, porque a mãe deles começou a se impacientar com o ritmo da fila e levou os pirralhos embora sem os jogos. Haha, se foderam.

Às vezes por mais que o jogo fosse livre de relação com práticas macabras, era difícil convencer os pais. Como fui aprender no futuro, meus pais tinham mais medo de se estourar com o cartão de crédito no fim do mês do que com a presença de um artefato demoníaco dentro de casa. Preço era um fator mais definitivo que conteúdo, e aparentemente o princípio contra material espiritualmente duvidoso era flexível. Se Super Mario Kart custasse R$100 e Killer Instinct custasse R$89, Jesus Cristo o perdoe, mas meu pai levaria o jogo de luta.

Um negócio curioso também é que tínhamos às vezes que explicar pros pais as caracteristicas dos jogo. Culpo a revista Veja, que veiculou matérias sobre envolvimento paterno com os videogames quando estes começaram a se tornar populares. “Preste atenção no conteúdo que seus filhos estão absorvendo” e outros conselhos idiotas me impediram de liberar Fatalities recém aprendidos caso meus pais estivesse no meu quarto vigiando a jogatina naquele momento.

Hoje eu tenho minha própria renda e gozo da liberdade de entrar numa EB Games da vida e escolher exatamente o jogo que eu quero; e decidir compra-lo com base no conteúdo do jogo e não no preço da etiqueta, e não preciso convencer ninguém a nada, basta tirar o Visa do bolso e entregar pro moleque atrás do balcão. Recibo no saco, tenha um bom dia senhor, aproveite o jogo, e tchau.

É bem menos frustrante que passar quinze minutos explicando todos os atributos positivos de um jogo e ouvir um “não” no final, mas por outro lado aquela MÁGICA não existe mais. Ir a uma loja de jogos era uma experiência ímpar porque a expectativa era inebriante. Nunca sabíamos se íamos realmente ganhar o jogo que queríamos tanto, e não esqueça que isso era um período anterior à internet e o fácil acesso a reviews. Tínhamos que descobrir se o jogo era bom ou horrível baseando-se quase que exclusivamente em screenshots de 200×300 pixels no verso da caixa, sabendo que não ganharíamos um jogo novo por muitos meses após a compra deste.

Ou seja, MESMO que teus pais atendessem seus pedidos sob ameaça de você prender a respiração até ficar roxo, você não teria certeza se o jogo era bom até chegar em casa. E talvez fosse tarde demais.

Caro leitor (voyeurs, estou falando com vocês também), que jogo você precisou implorar pros seus pais comprarem? E ele acabou sendo um jogo sensacional cujas maravilhas você pregou pros amiguinhos no outro dia na escola, ou uma porcaria miserável que minutos após jogar pela primeira vez você já planejou trocar com um coleguinha desavisado?

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Categorias: Minha infância

155 Comentários \o/

  1. Kim disse:

    A porcaria do jogo dos Flintstones para Master System, insisti umas 3 horas para ganhar. Quando cheguei em casa e fui jogar era simplesmente o pior jogos do universo. :P

  2. ReVo disse:

    Acho que o Kid combinou com o Dahmer!
    Dêem uma olhada na tirinha de hoje dos malvados. http://www.malvados.com.br/

  3. Ruryk disse:

    Nunca tive problemas com relação ao conteúdo dos games, só mesmo com os preços.

    Mas lembro de, um dia, logo quando saiu um filme dos Power Rangers (horrivel, por sinal) ter insistido pra minha mãe comprar o jogo, que era de Mega Drive.

    Cheguei em casa e fui jogar com a minha irmã pra ver como era. Terminamos o jogo de primeira e em uma hora. Quando terminou só disse um “só isso?” e guardei-o pra nunca mais vê-lo.

  4. ... disse:

    Tento agora convencer aos meus pais, que vão aos EUA, à comprar O jogo(Metal Gear Solid 4). Só tem um problema: sou menor do que a categoria indicada (M=17+). Tento explicar pra eles que o jogo não é necessariamente um jogo de guerra, mas sim de espionagem. O que faço ?

  5. caio disse:

    eu gostaria de todos os codigo do aladin do game bly color

    obrigado!!!!

  6. caio disse:

    sou eu de novo fais um dois dias e vcs ñ me reponderam eu quero os codigo do jogo aladin do game boy color

  7. Argus disse:

    @Caio: acesse o site GameFAQs.com, caso já tenha passado da quarta série e saiba usar sistemas de busca. Se não, avise que eu copio aqui.

  8. João Paulo Nunes disse:

    Quando saiu Pokemon Silver, meu deus do céu fiquei uns 2 meses implorando por um joguinho.. eles nem queriam dar 100 R$ neh =S.. mais de tanto insistir eu consegui o tão sonhado game e fui feliz até a morte me separar dele(meu amigo foi troca a bateria e quebrou-lo)

  9. João Victor disse:

    Eu tive q imlorar na epoca do ps1,Tenchu 2,q para a minha maior ajuda tinha logo a foto da cabeça toda ensaguentada do Motohide atras….Resulatado:fui pegar o jogo dois meses depois…..

  10. ufa disse:

    Cara, um jogo q eu precisava era Double Dragon de Master System. Já tinha jogado no Arcade, mas quando vi um amigo meu que tinha, delirei. Lembro que quando ele me emprestou eu cheguei a passar mal no almoço, pq engoli a comida de uma vez para ir jogar!! Idos de 1989!

  11. Maleenha disse:

    Cara, o jogo que eu mais tenho orgulho de ter comprado foi Super Metroid! E olha que eu não fazia IDEIA que o jogo seria maravilhoso. Na verdade, eu achei que ele seria meio tosco, devido aos screenshots e capa. Mas pqp, quando eu comecei a jogar, não parei mais! E olha que eu era um pivete catarrento de 9 anos! Foi uma pura cagada!!!
    Abração!

  12. rena disse:

    o porra eu quero jogo de mega drive sera que tu nao sabe que temn gente que gosta de video game antigo

  13. Pedro disse:

    Implorar por um jogo, não. Sempre baixei meus jogos de PS2. Só tive que tentar um pouco mais pra conseguir o Xbox 360 mesmo, e nem implorava por esses porque eu arrastava meu pai pra Saraiva e conseguia comprar jogos fodas, 1 por mês. Isso, claro, antes de desbloquear meu Xbox. Agora compro 10 pelo preço de 1.

  14. Lyncool disse:

    haha
    1º comentário aqui
    eae nerds!!!!

  15. Pedro Ivo disse:

    Cara, lendo esse teu texto lembrei agora de quando eu tinha uns 10 ou 11 anos, num típico passeio no Shopping Recife com minha mãe. Passando por uma loja de informártica, IMPLOREI pra que ela comprasse para o The Sands of Time. Depois de muite insistência, adivinha? Não levei o jogo. Motivo? A classificação, 16 anos ¬¬”

    Meu trauma é tão grande que, até hoje, por pura birra, jamais joguei mais que 10 minutos do The Sands of Time. :P