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Mais algumas estripulias escolares que todos cometemos

Postado em 28 February 2012 Escrito por Izzy Nobre 8 Comentários

Em dezembro (o mês mais popularmente conhecido como “aê caralho saiu o décimo terceiro, coloca os menino numa colônia de férias e vamo viajar, mulher!”), escrevi um texto entitulado “5 estripulias escolares que todos cometemos“.

O texto deu um bom resultado — 211 retuítes, 30 shares no Facebook, 2 compartilhamentos no Google+ (ou seja, atingiu os dois usuários dessa rede social) e 96 comentários, sendo apenas cinco destes xingamentos direcionados à minha mãe. Entretanto, percebi outro dia que o texto é uma merda.

Isso acontece porque as mequetrefezices que citei no livro são nada senão brincadeirinhas inocentes e de coração puro. Ocorreu-me recentemente que haviam sacanagens muito mais malvadas que a turma aprontava uns com os outros; verdadeiros atentados aos bons costumes que hoje em dia, neste mundo super-antiséptico em que vivemos, podia até virar caso de polícia e/ou processo.

Aposto que atualmente não se pode nem levantar da cadeira e sincronizar estrategicamente o passo da sua caminhada para liberar um agressivo peido diretamente na cara de um amiguinho incalto sem que se ouva a papagaiada de “bullying”.

Era assim que a gente dizia "oi" na minha época. E tchau também, aliás.

Porra, a marcha da banda era muito diferente no nosso tempo. O tipo de coisa que a gente aprontava com a molecada era muito sinistra, e é justamente o tipo de atitude que na gringa incentiva essa meninada atual a pegar as armas dos pais e esburacar os amiguinhos com chumbo grosso.

Por exemplo:

Uma das diversões da turma era zoar o material escolar dos outros, e executávamos tais pequenos atos de vandalismo das formas mais artisticamente criativa possíveis. Por exemplo — era comum arrancar a espiral das apostilas dos amigos e cuidadosamente embaralhar todas as páginas antes de colocar a espiral de volta.

Quando este método provou-se muito demorado (a menos que o amiguinho estivesse acometido de diarréia do tipo explosivo, suas idas ao banheiro eram bastante rápidas, dando aos terroristas escolares pouco tempo para executar seus atentados), adotou-se uma prática mais, ahn, “prática”. E mais maldosa, também.

O que se fazia era puxar a espiral plástica pelas duas pontas, comprimindo a apostila do menino numa maçaroca de papel, anotações de aula de história e dinheiro desperdiçado dos pais.  Em seguida, para tornar a bagunça ainda mais irreversível, davam-se múltiplos nós górdios na espiral, transformando a coisa toda numa bola em perfeitas condições de ser usada na quadra durante o intervalo.

Antes que você vá googlear: nó górdio é nada senão um nó cego, celebremente cortado ao meio por Alexandre o Grande de acordo com a lenda. O que acontece que no meio da putaria eu acabava lendo algumas das anotações do menino e até aprendia alguma coisa, veja você.

Sabe o que é meio irônico? Quando eu era mais novo, meu pai frequentemente pedia pra examinar meu material escolar, a fim de averiguar que seu dinheiro suado não estava sendo desperdiçado educando um mini-vagabundo.

Acontece que eu era meio dado às artes na época: páginas que eu julgava “desnecessárias” eram arrancadas e viravam excelentes origamis, os cantinhos dos livros viravam flipbooks, e os retratos de célebres personagens da história de nossa República eram “melhorados” graças a uma caneta BIC e minha obsessão por desenhar óculos, cachimbos e band-aids (???) nos presidentes. Jânio Quadros (coitado), que já tinha óculos, virava nas minhas mãos um seis-olhos.

Imagine a fúria digna de um personagem de anime que corria nas veias do meu pai ao ver seu dinheiro se transformando em material escolar de estado deplorável.

Numa tentativa muitíssimo transparente de se safar da culpa, eu mentia pro meu pai dizendo que os moleques da sala que haviam feito aquilo. Eu estava na quarta ou quinta série, e nessa época a turma tinha ainda algum semblante de auto-controle; era óbvio que ninguém havia feito isso com meus livros.

Mal sabia eu que estava essencialmente profetizando em relação a hábitos escolares que eu iria descobrir (e praticar) alguns anos mais tardes.

Outra brincadeira que atualmente seria capaz de resultar em reclusão e multa (e que me causa risadas só de lembrar) era a subtração — em vez de destruição direta — do material dos coleguinhas de sala. Com “subtração” não me refiro à operação aritmética, e sim ao termo rebuscado utilizado por policiais quando sabem que estão sendo filmados para o jornal; o sinônimo de “roubo”.

Os nossos roubos, tal qual a desculpa que você dá pra piratear tudo que vê pela frente na internet, não era para ganho financeiro próprio. A idéia era apenas o puro lulz. Eis um exemplo que eu presenciei quando estava no terceiro ano.

Um dos fanfarrões da minha sala afanou o caderno de um moleque que cometeu o descuido de deixar a mochila pendurada na cadeira, a pleno acesso dos pequenos marginais. O caderno foi passado de mão em mão pela sala, um verdadeiro multirão da arruaça. Em cada par de mãos por qual passava, a espiral do caderno era esticada mais e mais, no processo que fabricava a tal bola de caderno que citei lá em cima.

O caderno finalmente chegou na mão do Filho da Puta, um colega de sala metido a rapper que, por eu não lembrar de seu nome real, será aqui nomeado de acordo com sua característica mais predominante. O Filho da Puta abriu sorrateiramente a janela da sala e jogou o caderno pra fora da sala (o que, apesar de provocar risadas abafadas em toda a turma, foi unanimemente considerada uma filha da putice sem noção do tipo que ele executava comumente)

Alguns momentos mais tarde o colega lesado dá conta da falta do caderno e passa a vagar pela sala, procurando seu material. Em muitos aspectos a experiência escolar se assemelha muito àquela de uma penitenciária, e a lei do silêncio é um deles. Ninguém se prontificava a delatar os meliantes (até porque quase toda a sala participou a putaria junto).

E algo glorioso acontece nesse momento. Tal quais as gags visuais de background em filmes do Leslie Nielsen, pela janela da sala vemos que a molecada que já estava no recreio já estava engajada numa partida futebolesca com o caderno do moleque fazendo as vezes de bola.

O contraste era a coisa mais fenomenal que eu já vi acontecer espontaneamente, sem algum tipo de ensaio ou preparo: de cá, o colega de sala procurando desesperadamente pelo caderno. De lá, um clássico de várzea (Oitava A vs Primeiro Ano B) acontecendo às custas do finado caderno do moleque.

Quase toda a sala já estava ciente da partida futebolística com o caderno do rapaz acontecendo a poucos metros de distância, enquanto o coitado abaixava-se e vasculhava cada cadeira, crente que alguém havia apenas depositado seu caderno embaixo da cadeira do moleque mais fedorento da sala, forçando cruelmente o coitado a pôr o nariz nas proximidades do fiofó do fedorento.

Era uma galhofagem costumeira, aliás. Presenciar isso programou-me a jamais esquecer o desodorante, aliás. Deus e todos os seus duendes que me livrem de tomar a coroa do Fedorento.

Sério, acho que dava pra escrever um livro só dessas sensacionais putarias que a gente aprontava uns com os outros. Só paro por aqui mesmo porque o texto já tá quilométrico e ninguém vai ler mais.

Porém, cobrem-me uma continuação desta crônica. Aproveitem e compartilhem aí nos comentários as putarias que vocês fizeram nos tempos de escola.

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comments

Categorias: Minha infância

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

8 Comentários \o/

  1. Matheus Elias says:

    Cara, meus parabéns pelo seu blog. Eu dei gargalhadas pra caramba ao rir o seu post. Show.

  2. Felipe Vieira says:

    Já jogamos o caderno de um colega no telhado da escola. Ele foi buscar uma escada pra recuperar o caderno e quando ele estava no telhado a gente tirou a escada. Resultado: Passou meia hora preso em cima do telhado.

  3. Ramon Peixoto says:

    por duas vezes eu quebrei a lampada da minha sala de aula sem querer (se é que jogar futebol e basquete na sala de aula que tinha um teto baixo pode ser considerado “sem querer”)

  4. Wilbur says:

    Vai ser legal ser seu filho! Tu vai apoiar todas essas traquinagens e muitas outras né? Ou pode ser que seu rebento seja o que volta com a apostila estrupiada… é.

  5. Washintgon says:

    A gente escrevia numa folha de caderno de qualquer coitado que por acaso estava distraído em algum canto da sala,”Um cavalinho passou por aqui”e em toda folha limpa que vinha a seguir era escrito “Pocotó,Pocotó,Pocotó” e assim ia até que as folhas acabassem

  6. Guilherme says:

    Continua esses textos, cara!

  7. Kim says:

    Certa vez, um colega de sala meu resolveu que seria divertido fazer nojeira com o nerd da sala.
    Ele pegou uma cartolina, levou ao banheiro, cagou na cartolina, enrolou e levou para a sala durante o intervalo, aonde teve o cuidado de colocar a merda dentro do estojo e do caderno do menino.
    Mais tarde, na saída, ele mesmo pediu ao menino q lhe emprestasse uma caneta (para fazê-lo colocar a mão no estojo emporcalhado) e ao fazer….. Bom, creio q vc já imagina o que ele encontrou