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Marquinhos e o Super Nintendo sequestrado

Postado em 31 October 2017 Escrito por Izzy Nobre 6 Comentários

Acho que todo grupo de amigos tem um Marquinhos. Eu mesmo já participei de vários grupos de amigos com Marquinhos’s diferentes, e até mesmo grupos sociais distintos que compartilhavam um Marquinhos entre si, tal qual um par de irmãos siameses que dividem um fígado ou algo assim.

Marquinhos era o filho de uma das melhores amigas da minha mãe na época da igreja, o que inevitavelmente significava que éramos bastante próximos — no sentido de que quando duas mães com filhos em idades equivalentes se encontram com frequência, os pirralhos acabam se vendo constantemente também. O Marquinhos era gente boa e tinha praticamente os mesmos interesses que eu, mas por algum motivo ele não entrava no rol de melhores amigos. Não era maldade com o cara, nem falta de consideração. Ele simplesmente não constava entre os titulares.

Cê já teve um amigo assim, né? Um cara que gosta das mesmas coisas que você, que é super gente boa (talvez até gente boa demais, o que graças à nossa natureza humana sem sentido é visto como um demérito), mas que simplesmente não chega a ser efetivado como um true parça?

Talvez por ser um amigo da igreja. Essa foi a época da minha vida em que eu estava começando a ter minha dúvidas sobre a fé, e o exercício de frequentar a igreja se tornava cada vez mais enfadonho. No processo de gradual desligamento da cultura evangélica, os amigos daquele círculo também foram ficando pra trás — independente de quão gente boa eles fossem.

O Marquinhos tinha umas maluquices sensacionais que eu jamais vi ninguém fazendo antes. Por exemplo, ele era completamente incapaz de beber água sem deixar um restinho no copo, que ele então esvaziava com um rápido movimento mdo punho que lançava a água violentamente contra a parede da cozinha. Respingava por todo lado, ele olhava pra mim esperando a confirmação de que eu aprovava sua irreverência com as paredes da cozinha, e eu me mijava de rir.

Chegou ao ponto de que ele enchia o copo sem nem estar com sede e tomava apenas um golinho mínimo, pra maximizar o payload de água jogada contra a parede.

Foi o Marquinhos que me introduziu ao mundo do RPG, também. Até então eu conhecia o RPG de forma abstrata, sem nunca ter jogado, mas entendendo mais ou menos qual era a idéia. Nenhum de meus amigos jogava, então eu ficava com esse conhecimento limitado baseado no que lia em sites e na revista Dragão Brasil.

Foi justo nessa época que um suplemento de Pokemon pra 3D&T havia sido lançado pela revista. O bairro onde morávamos, o Conjunto Ceará, era uma das periferias mais fodidas de Fortaleza. Naturalmente, um joguinho que requeria apenas uma revistinha, papel e lápis e alguns dados — e ainda por cima baseado no desenho mais popular do momento — bombou entre a molecada.

Ele me levou nos “points” do RPG do Conjunto Ceará. Divididos em vários grupos, a galera jogava na rua mesmo, sentados ao meio fio com suas fichas e suplementos, jogando sob a luz pífia dos postes da pracinha. Às vezes um membro de uma das rodinhas ia “batalhar” contra um treinador de outra, interrompendo a história dos caras, mas adicionando um nível de realismo que eu nunca havia visto no RPG antes, ou mesmo depois disso — um crossplay entre campanhas diferentes. Frequentemente alguém que havia perdido uma disputa dias antes via um desafeto jogando

Então. Pela nossa proximidade, era comum ir dormir na casa do Marquinhos. Ocorre-me agora, aliás, que enquanto o inglês tem um termo específico pra isso (“sleepover”), o português não nos equipa com um equivalente, e eu tenho que escrever, por extenso, “dormir na casa do Marquinhos”. Nossa língua não é tão eficiente quanto poderia ser.

Nesse período, eu estava viciadíssimo em Super Mario Kart. Mario Kart é um dos poucos jogos em que sou realmente bom — minha namorada que o diga, que apanhou em todas as partidas de Mario Kart 8 que disputamos até hoje e por isso busca refúgio no Mario Kart 64 onde ela tem suposta hegemonia.

Aliás, um rápido parêntese — quando a Nintendo anunciou um novo modelo de New 3DS XL, como ela faz toda quinta feira, eu esbocei insatisfação com o fato de que esta nova versão do console (cujo design é inspirado no SNES) inclui uma cópia digital de Super Mario Kart. Os limitados 140 caracteres do tuíter são excelentes pra gerar mal entendido, e muitos interpretaram minha reclamação como uma espécie de declaração de desprezo por Mario Kart.

Nada poderia ser mais distante da realidade. Mario Kart foi um dos jogos que mais joguei na vida, e eu apenas vejo a inclusão do jogo como oportunidade perdida. Ou colocassem Super Mario World, que é muito mais emblemático como “jogo incluso junto com um SNES”, ou algo bem diferente — sei lá, um Chrono Trigger…?

A propósito estou namorando esse New 3DS XL de Super Nintendo desde que foi anunciado, e decidi que preciso de um para ser verdadeiramente feliz.

Voltando à história:

Naturalmente, eu sempre levava minha fita de Mario Kart quando ia dormir na casa do Marquinhos. Ficávamos até tarde da noite, sentados no chão da sala, monopolizando a televisão da família (nessa época era comum ter só uma em casa, não esqueça) metendo cascos e bananas no rabo um do outro1. Considerando que o jogo tinha até pouca variedade, é impressionante quantas horas conseguíamos gastar naquele jogo. Isso mostra que pivete se diverte com muito pouco mesmo, que é uma boa desculpa pra não dar presente de aniversário pra crianças da família.

Vale lembrar que vivíamos numa era pré-casco azul em Mario Kart — uma época mais civilizada, onde a meritocracia permitia o cidadão vencer uma corrida de forma justa. Acertar o oponente com um projétil bem posicionado, assim fodendo completamente uma corrida que até então tinha sido virtualmente perfeita, requeria muito mais habilidade naquela época. Eu gostaria de culpar o PT por isso.

Num desses sleepovers, acordei de manhã e descobri, completamente consternado, que meu Super Nintendo (e meu amado Mario Kart) haviam sumido.

Junto com o Marquinhos.

Nunca tive um carro roubado na vida (quer dizer, uma vez abriram a porta do meu carro e levaram meu transmissor bluetooth e o controle da porta da garagem — isso conta?), mas eu imagino que a sensação de chegar na garagem e encarar só as paredes é semelhante ao que eu senti naquele momento.

Não precisaria ser um Sherlock Holmes cearense pra concluir facinho que o moleque sequestrou meu videogame pra ir jogar com outro amiguinho. A única outra teoria que explicava sumiço súbito de alguém, de acordo com meu worldview cristão, seria um Arrebatamento. Só que eu duvido muito que o meu SNES teria sido levado ao céu, e duvidava mais ainda que o Marquinhos seria merecedor dessa honra.

Agora, por que diabos ele não apenas convidou tal amiguinho pra vir jogar com a gente, eu jamais saberei. Seria infinitamente mais simples trazer o outro pirralho pra casa e jogarem lá mesmo, do que ter que convencer OUTRA mãe a instalar um videogame na TV da sala, sob protestos de que “esse negócio de videogame” estraga a visão, ou a TV, ou ambos.

Como moleque hiperativo, eu sempre acordava bem cedo, antes de todo mundo na casa. Isso sempre foi um problema quando eu ia dormir na casa de amigos, especialmente numa época anterior a celulares e tal. Por causa disso, tive que agonizar por algumas horas até a mãe do moleque acordar e me dar algumas pistas do paradeiro de Marquinhos.

Com sorte, o primeiro palpite dela era o correto — Marquinhos havia levando meu SNES pra casa de um amigo que morava na mesma rua, algumas casas à direita. Esqueci o nome do infeliz, mas chamemos de “Fernando”. Cheguei lá e lá estão esse possível Fernando e Marquinhos, jogando o MEU Super Nintendo, o MEU Mario Kart, com a cara mais lavada do mundo. Vê se tem cabimento um desrespeito desse.

Em vez de exigir uma explicação dessa empáfia, tomei o controle e surrei-os impiedosamente por duas horas, porque a vida era realmente mais simples em 1995.

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Categorias: Minha infância

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 32 anos, também sou conhecido como "Kid", e moro no Canadá há 13 anos. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas, e sobre notícias bizarras n'O MELHOR PODCAST DO BRASIL. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

6 Comentários \o/

  1. Vini says:

    Os deuses ouviram minhas preces, que saudades dos textos do Izzy.

  2. BBBB says:

    Parece que faltou acabar essa frase: “Frequentemente alguém que havia perdido uma disputa dias antes via um desafeto jogando”

  3. Leandro Cordeiro says:

    Poxa Izzy, pra que ficar tanto tempo sem textos como esse?
    Escreva mais vezes cara!

  4. Edivan says:

    Porra, saudade desses textos!

  5. Mateus says:

    Já rolou comigo de um colega do bairro emprestar o meu jogo pra um cara da escola dele, uma pessoa que eu nem conhecia, sem falar nada comigo. Fiquei muito puto com o cara e nunca mais emprestei mais nada pra ele.

    Ótimo texto Kid! Volta a escrever por aqui com mais frequência cara.

  6. CCCC says:

    Kid viado vai morrer de tanto casco azul no cu.

    Fazia tempo que eu não aparecia aqui.