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Meu professor estava certo

Postado em 22 março 2010 Escrito por Izzy Nobre 105 Comentários

A frase a seguir não vai soar bem entre os familiares que lêem meu blog, porque tenho pelo menos uns 5 parentes que exercem essa função, mas vamos lá – ser professor deve ser uma ocupação muito ingrata.

Vejamos  - professores não são recompensado com os melhores salários, tem que lidar diariamente com o pior tipo de criança (isto é, as crianças DOS OUTROS), e em alguns casos têm que ficar justificando o objeto de estudo de sua profissão pros moleques que as determinam como “inútil”.


“Suas realizações acadêmicas foram um desperdício de tempo, esforço e dinheiro!” Vítor, 9 anos, quinta série

Veja bem.

Eu era um moleque muito inteligente quando era mais novo (infelizmente gastei toda a inteligência nos textos antigos do HBD, que eram mais engraçados). Com 11 ou 12 anos eu percebi que todo adulto do mundo que não trabalhasse vendendo pipoca na pracinha na frente da igreja deixa qualquer função matemática mais complicada que uma soma ou subtração a cargo de calculadoras.

De fato, a única categoria de pessoas que se ocupam em fazer matemática de cabeça são vendedores ambulantes, talvez por não poder arcar com o custo de uma calculadora e uma pilha AA.

E não há vergonha na dependência de calculadoras. Máquinas foram criadas pra facilitar nossa vida, ora. Se há um mecanismo barato e confiável que torna decorar a tabuada virtualmente desnecessário, pra que então se esforçar em aprender essa merda?

E pra que se orgulhar de não precisar usar calculadora? Sua habilidade de extrair porcentagens ou raízes quadradas usando a cachola não te servirá pra nada no mundo real. Entre realizar uma operação com rapidez, praticidade e margem de erro zero, e fazer a mesma operação num caderninho gastando muito mais tempo e se submetendo a erros, que escolha você faz?

Não deve haver no mundo alguém que se gabe de ter que ir à biblioteca sempre que tem uma dúvida trivial ao invés de googlear, né?

Então. Cheguei à conclusão de que no mundo real, em qualquer momento que eu precisasse saber quanto é 7486 vezes 73892 eu e qualquer ser humano normal apelaríamos pra uma calculadora.

E aí perguntei pro meu professor de matemática qual seria a aplicação no mundo real pra saber executar tal conta.

Ele provavelmente teria uma boa resposta pra me dar, caso não estivesse naquele exato momento USANDO UMA CALCULADORA PRA CALCULAR AS NOSSAS NOTAS BIMESTRAIS. Por que ele não estava usando lápis e papel pra somar todas aquelas frações de pontos das nossas provas?

Porque eu estava certo, that’s why. Em qualquer momento da sua vida que você precise fazer um cálculo e não tenha uma calculadora por perto, você a) procurará uma, ou b) desistirá do cálculo.


E às vezes você desistirá mesmo com a calculadora. Vamos abolir a matemática de uma vez logo, é o que eu quero dizer.

Professores de química, ah, esses é que não escapavam da inquisição infanto-juvenil mesmo. Ninguém ali na minha classe queria ser químico, tenho certeza. Que utilidade saber o que são anéis aromáticos teriam em minha vida?

Nenhuma. E por isso esqueci essencialmente TUDO que jamais aprendi naquela matéria. Até hoje não sei o que é um mol. Aliás, essa nem naquela época eu sabia.

Já os professores de história tinham uma justificativa que eles puxavam da manga com tanta pressa que você quase pensava que eles estava praticamente ESPERANDO você questionar a utilidade da matéria deles.

“Aqueles que não estudam história estão fadados a repeti-la!” eles diziam, com um ar de autoridade dogmática e sensação de discussão vencida.

E você já deve ter ouvido essa expressão, provavelmente seguida da explicação de que “Hitler perdeu a guerra porque não conhecia história e tentou invadir a Rússia da mesma forma que Napoleão tentou. Aqueles que não estudam história invariavelmente cometerão os mesmos erros de seus antepassados”, repetia o professor. Sua profissão estava devidamente validada – perante moleques de 14 anos, mas estava.

Mas esse chavão aí nunca me convenceu. Eu cresci jogando War, e qualquer um sabe que as suas chances de sucesso na verdade AUMENTAM quando você tenta invadir um país que já sofreu um ataque – as defesas agora estão enfraquecidas, ora. Elementar.

Tá, tudo bem que houve um intervalo de mais de 200 anos entre Napoleão e Hitler, mas eu queria usar a analogia do War no texto mesmo assim. Afinal, ela arrancou risadas da sala quando eu a usei pra invalidar o argumento do professor, e rendeu de quebra uma ida à diretoria.

E como a própria diretora riu quando ouviu a minha lógica, considerarei esta uma de minhas maiores vitórias retóricas.

Mas então. A justificativa do professor é que sem o conhecimento histórico, não temos memória dos erros do passado, e portanto estamos mais inclinados a repetir esses erros.

Até a semana passada eu continuava não engolindo esse papo.

The Fourth Kind é um filme de terror baseado num assunto que aparentemente não causava mais tanto medo assim (pelo menos a julgar pela escassez de filmes do gênero): abduções alienígenas.

E talvez por causa disso, eles resolveram marketear o filme sob a premissa de que é mais ou menos um documentário, com cenas reais de pessoas reais que sofreram supostas abduções.

Em um dos trailers a Mila Jovovich se apresenta como tal e explica que estará interpretando o papel de Abigail Tyler, a médica que examinou os caras e tal. A parada tem tom de documentário mesmo.

Cético como sou, nunca mordi a isca. Nem me interessei em assistir o filme, aliás.  O filme saiu em DVD recentemente, aí no Facebook vejo um número alarmante de amigos meus falando coisas como “Wow The Fourth Kind foi super assustador, o pior é saber que aquilo tudo é real!!!”.

E o ditado popular usado pelo meu professor de história fez perfeito sentido.

The Blair With Project foi um evento cultural de imensa magnitude. Desde Orson Welles lendo “A Guerra dos Mundos” na CBS não havia tamanha confusão popular sobre a linha que separa uma obra ficção de eventos reais.

A máquina de marketing por trás do filme – que deve ter custado cinco dólares e meio tanque de gasolina pra filmar – o fez render quase $250 milhões o redor do mundo inteiro.

Foi uma das produções cinematográficas mais lucrativas da história do cinema moderno, e o pontapé inicial do que se tornaria uma indústria por si só – marketing viral na internet. O sucesso do filme não se deu porque era uma obra genial de terror (não era), e sim porque nós acreditávamos estar vendo algo real.

“Nós” entre aspas – eu estava nos EUA e completamente sem grana na época, e apesar de estar animado pra voltar ao Brasil e poder assistir o filme, eu não tinha lá tanta fé que a parada era real. Foi nessa época que comecei a duvidar da existência de Deus; a partir daí, questionar TUDO havia virado um padrão mental.

Você já sabe o resto dessa história. O filme foi um sucesso e por muitos meses havia quem realmente acreditasse que a história era real. Eu mesmo quase saí no tapa no pátio do colégio por causa de uma discussão sobre a veracidade da fita.

The Fourth Kind estava, muito obviamente, tentando provocar o mesmo furor que fez de The Blair Witch Project um sucesso mundial. Considerando que Fourth Kind custou DEZ vezes mais que Blair Witch (e faturou oito vezes menos), foi um considerável fracasso.

Mas ele conseguiu repetir o legado do primeiro – aparentemente tem gente (meus próprios amigos, que vergonha do caralho) pensando que a porra dos eventos retratados no filme são reais.

Não são. O único site que registra os estudos da tal doutora Abigail foi criado em agosto de 2009, poucos meses antes do filme ser lançado. Os registros deveriam existir muito antes disso, já que a história se passa em 2000, e entretanto estes registros não podem ser encontrados em lugar algum. Uma óbvia tentativa de marketing viral.

Aliás, a Universal Studios tá sendo processada pela Alaska Press Club por usar imagens e registros falsos pra promover o filme. E a doutora Abigail sequer existe – ela é a atriz Charlotte Milchard. Whoops.

Mesmo sem conhecer nenhum desses detalhes, um critério básico de metodologia científica deveria ter sido aplicado à premissa do filme – alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias. Não há nehuma prova das afirmações contidas no filme, exceto as imagens exibidas nele que jamais foram apresentadas em nenhum outro lugar.

“Mas o cartaz do filme diz que os eventos são reais, porra! Um filme não inventaria uma história fictícia com tom de documentário só pra ganhar dinheiro às custas da mentira!”.

Meu professor de história estava certo.

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105 Comentários \o/

  1. Caio Everton disse:

    Meu cunhado insiste que tem algumas cenas reais no filme. Minha irmã, que viu com ele, quase dormiu no cinema. :P

    Vai muito da cabeça de cada um, tem gente MUITO inocente nesse mundo, e vários amigos nossos entram nessa conta. Aquele Atividade Paranormal mesmo me rendeu algumas frustrações conversando com alguns.

    Aliás, fizesse o ensino médio aí no Canadá? Já li em uns cantos que a grade de física e química aqui no Brasil é uma das maiores, isso estudioso de fora falando. E não duvido nada, a gente passa meses vendo tanta coisa descartável. E algumas matérias são renegadas (tive filosofia apenas no 1º ano, 40 min por semana. Enquanto matemática eram 240 min.)

  2. Fernanda disse:

    Muito bom o artigo!
    Ultimamente todos filmes “de terror” tem apelado p/ o “baseado em fatos reais” para causar medo nas pessoas… Dali a pouco o ET Bilu também vai virar filme. abs

  3. Romulo de Sousa disse:

    legal, melhor post do mês até agora

  4. Rodrigo Leandro disse:

    post repetido

  5. wallacy disse:

    O Kid está ácido em suas respostas, melhor eu ficar calado. Mesmo assim, ótimo post!!!