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Minha primeira "suspensão": parte II

Postado em 17 maio 2011 Escrito por Izzy Nobre 78 Comentários

Onde foi que eu parei mesmo? Ah, sim.

Mas foda-se. A decisão estava tomada; eu iria recolher minhas tralhas 5 minutos antes do final da aula e, ao soar o toque do final do dia, passaria sem cerimônia do lado do interruptor, e apagaria as luzes da sala.

Durante o planejamento da brincadeira, eu jamais havia parado pra pensar que o resultado tinha potencial pra ser tão catastrófico.

Mas agora já era. O sinal tocou, a turma começou a se levantar pra sair da sala. Levantei-me da cadeira como que impulsionao por uma mola e me joguei em direção ao interruptor.

Nada poderia ter me preparado para o que aconteceu em seguida.

Como falei no post anterior, eu já estava esperando o sinal do fim da aula. Estava me preparando psicologicamente pra sair correndo assim que tocasse o sinal, me condicionando a reagir ao sinal como um corredor olímpico a um disparo de largada. Eu cruzaria o espaço que me separava do interruptor em tempo recorde!

O coração batia acelerado na antecipação do momento chave da brincadeira. Bate o sinal, eu me levanto apressado em direção ao interruptor.

Neste momento, dei uma olhada de soslaio na direção da Cibele, a professora gostosa. Ela olhava pra baixo enquanto catava suas coisas — o que permitia uma visão bem vinda dos amplos seios dela, parcialmente ocultos pela renda da blusinha que ela usava. Os peitos da Cibele eram fartos e sadios como os peitinhos de garotas de vinte e tantos anos tendem a ser.

Era o sinal verde, a mestra estava distraída. O plano ia em frente.

Aproveitando-me do efeito de afunilamento provocado pela porta da sala (ou seja, vários moleques pertinho da saída, na ânsia de evacuar a sala o mais rápido possível), estendo a mão e bato no interruptor, extinguindo as luzes da sala.

Foi como se a molecada inteira estivesse, como eu, esperando uma deixa. Quase instantaneamente, a sala explodiu em ensurdecedora gritaria. Eu já estava um pouco longe (e colocando mais distância entre eu e a sala, já que corria), mas consegui ouvir claramente a baderna.

A inspetora do colégio, que agia como gatekeeper no portão que separava o interior do colégio do pátio (creio que para impedir que espertinhos saíssem do colégio antes da hora), estava conversando com uma professora. Atrapalhada, ela não viu o começo da confusão, mas notou vários estudantes correndo pra fora da sala escura onde outrora havia uma classe escolar, mas no momento parecia que havia sido substituida por uma jaula de chimpanzés com síndrome de tourette.

A inspetora se apressou pra posicionar-se como uma cancela na frente do portão, certamente numa tentativa de aprisionar os fujões (já que entre eles estava, sem dúvida, o causador da celeuma). Acontece que a turba foi mais rápida e, antes que ela tivesse chance de fechar o portão na nossa cara, conseguimos escapar para o pátio.

Durante toda essa fuga alucinada pelo portão, dava pra ouvir a barulheira vinda da sala. “A turma aproveitou o escuro pra despirocar geral“, pensei.

Entretanto, um som me causou mais alarme — de dentro da sala pôde-se o som característico de metal batendo violentamente contra metal, repetidamente, e em seguida caindo ao chão. Segundos mais tarde, o alarmante e inconfundível ruído de vidro quebrando. Subitamente eu notei que a gritaria (que até então tinha tom de baderna juvenil) adquire timbre diferente.

Gritos de desespero, e de dor. Gritos do tipo que, quando você está usando o computador à noite sozinho e ouve vindo da rua, pensa em se mudar de bairro.

Nesse momento parei pra olhar pra trás. Fui o único — os alunos que fugiram junto comigo estavam pouco se lixando pra situação. É natural, afinal de contas, eles não tinham culpa no cartório. Minha preocupação estava inerentemente associada com a autoria da confusão.

Olho pra trás e noto que a inspetora abandonou seu posto em frente ao portão, sem dúvida pra inspecionar a condição da sala escura. E noto também que a molecada das outras salas agora saiam ao átrio do colégio e olhavam, chocados, para a minha sala. Por causa do ângulo em que eu me encontrava, era impossível ver o que causava tanto choque.

Era tarde demais pra voltar atrás.

Diagrama da minha fuga

Nesse momento, em pé no meio do pátio escuro do colégio, ouvindo a gritaria ecoando pela escola, comecei a compreender a gravidade da brincadeira. Me veio uma sensação horrível no estômago, e pouco a pouco comecei a aceitar a realidade — o resultado da brincadeira foi bem mais grave do que eu antecipava.

Obviamente eu não havia previsto que a falta de luz na sala reverteria os seres humanos que ali se encontravam em primatas pré-históricos. Mas, como já falei, era tarde demais.

Tive um estalo, sei lá por que, de que permanecer no colégio não melhoraria a minha situação. Talvez eu estava inconscientemente tentando evitar o flagrante. O fato é que vi a saída da escola, a meros 200 ou 300 metros de distância, como uma zona de extração — e retomei a corrida em direção a ela.

Manja nos filmes em que as ações militares tem um ponto pre-determinado onde a equipe de super-soldados será resgatada por um helicóptero? Então, essa é a zona de extração — o local de segurança onde o time se vê livre da ameaça dos soldados inimigos, e a caminho de volta pra casa.

Isso aí, só que geralmente eles correm pro helicóptero com mais pressa devido a chuva de balas, pedras e impropérios árabes sendo arremessados contra eles

E era assim que eu me sentia. Quanto mais tempo passava no colégio, maior era o perigo. E quanto mais próximo do portão dos fundos, mais próximo do ônibus que me resgataria pra longe dali.

Corri loucamente. A mochila pendurada atrás de mim oscilava descontroladamente, atrapalhando o ritmo dos meus passos. Cadernos, livros e estojo chacoalhavam ruidosamente nas minhas costas.

Atravessei as duas quadras correndo como se minha vida dependesse daquilo.

Se isto tivesse acontecido no século XXI, talvez houvesse toda uma infra-estrutura de comunicação com o porteiro que guardava a saída dos fundos, e quem sabe a inspetora poderia ter alertado o velho pra trancar o portão e não deixar nenhum aluno sair. De repente hoje o porteiro teria uma conta no tuíter que a coordenação da escola usaria pra repassar esse tipo de informação pra ele

Aew @SeuZe, ñ deixa esse minino aí de óculos sair ñ, q ele aprontou alguma merda aqui #pegaeleseuzé

Não era o caso; a distância do portão dos fundos garantia que o porteiro não tinha nenhum conhecimento sobre o que havia acontecido.

Passei correndo e ofegando pelo porteiro, que nem olhou pro meu lado. Naquele momento, um radinho de pilha que emitia a voz esganiçada do narrador da partida Fortaleza x Ceará recebia toda a sua atenção.

(Pros colegas do sudeste — tal partida é o equivalente cultural nordestino de um Fla Flu ou Curíntia vs São Paulo)

Cheguei na parada de ônibus com o pulmão em chamas. O Montese/Lagoa, o coletivo que me levaria de volta pra casa, apontava na esquina. Subi no ônibus apressado, sentei no fundo, e suspirei aliviado.  E cheguei à conclusão de que havia eu vencido.

A condução dos vencedores

Afinal, apaguei a luz da sala com sucesso e escapei do colégio sem ser identificado como o terrorista causador do atentado. Por algum motivo eu estava plenamento certo de que, evandindo as dependências do colégio antes de lavrarem o flagrante, e oculto pela pequena multidão que tentava sair da sala ao mesmo tempo, seria impossível ser apontado como o causador da confusão.

Mas os gritos e os ruídos de destruição continuavam me preocupando. Enquanto o coletivo salteava pelas ruas esburacadas do centro fortalezense, eu me perguntava quanto estrago uma turma de pivetes de 13 ou 14 anos poderia ter provocado. A narrativa pode ter parecido longa, mas a coisa toda durou poucos segundos — 4 ou 5, no máximo.

Eu só teria conhecimento deste fato (a duração exata da algazarra) no dia seguinte, aliás. O que aconteceu, e eu eventualmente descobri através do relato de testemunhas oculares, é que quase toda a parte da frente da turma evacuou a sala ao mesmo tempo, e a professora ficou temporariamente atordoada tentando impor controle no estouro da manada de estudantes no escuro.

Esses instantes de confusão (aliados ao fato e que a parcela da sala que se encontrava perto do interruptor havia fugido para o pátio, criando um vácuo  que deixou sobrar apenas a galera do fundão) permitiram os 4 ou 5 segundos de escuridão.

Outra coisa que me ficou óbvia nos dias seguintes é que a turma escapando da sala não teve interesse, aparentemente, de reacender a luz da sala e assim reestabelecer a civilização no local. Mas isso, aparentemente, não foi levado em consideração. Toda a culpa do evento recaiu-se sobre mim.

Entretanto, naquele momento no ônibus, eu não sabia de nada disso — e nem dos futuros resultados da brincadeira, que eu teria que encarar nas próximas 24 horas. Mas eu já antecipava que a coisa toda tinha fugido do controle e que alguém se foderia como consequência.

Ainda preocupado, tentei me acalmar com dois pensamentos: o primeiro é que eu não era o real culpado pelo estrago que sem dúvida causaram na sala naquela noite (afinal, toda a real confusão aconteceu quando eu estava FORA da sala; meu álibi estava estabelecido).

E o segundo motivo é que eu estava realmente convencido de que, tendo escapado da sala antes da intervenção das figuras autoritativas da escola, seria impossível imputar a mim a autoria do crime.

E além disso, eu continua pensando — quanto estrago essa criançada pode ter realmente causado em míseros 5 segundos? Por maior que fosse a fúria anarquista daquela cambada de crianças de classe média, não é como se eles tivessem destruído a sala completamente, né?

Acalentado por este pensamento, fui dormir naquele dia.

Na tarde seguinte, ao entrar na sala de aula, eu percebi o quão errado eu estava.

(Continua amanhã)

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Categorias: Minha infância

78 Comentários \o/

  1. mms disse:

    tomar no meio do cu, kid
    posta logo essa porra

  2. neendj disse:

    kid filho da putttaaa!!!

  3. [...] último capítulo, a aventura terminou assim: E além disso, eu continua pensando — quanto estrago essa criançada [...]

  4. Iago Macedo disse:

    Eu pego a condução dos vencedores todo santo dia, e me acho um perdedor por causa disso. UHHSAUHSUAHUSAHUSASHUAHUSA

    • Iago Macedo disse:

      Fala sério, Lago/Montese é a condução dos vencedores, deveria ser um Paranjana 2, ou um belissímo Via Aeroporto as 18pm. UASUHSAHUA, esses sim quem escapa são vencedores

  5. [...] Minha primeira “suspensão”, parte II [...]