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Minha primeira "suspensão": THE END

Postado em 14 August 2011 Escrito por Izzy Nobre 56 Comentários

Ok, chegamos à conclusão dessa história épica de estripulia escolar e de mau-caráter infantil. Para sua conveniência, eis os episódios anteriores:

Minha primeira “suspensão”, parte I

Minha primeira “suspensão”, parte II

Minha primeira “suspensão”, parte III

Minha primeira “suspensão”, parte IV

No último episódio (publicado aqui em JUNHO, hahaha), eu já havia sido apontado como principal suspeito de ter apagado a luz da sala. A turma inteira me delatou, e minha ridícula justificativa pra coisa — “foi sem querer, eu escorreguei e bati a mão no interruptor…” — foi rejeitada imediatamente (com indignação da diretora até).

A mulher tirou da gaveta um daqueles formulários de suspensão, e aí aconteceu isto:

A diretora preencheu o papel lenta e ostensivamente, falando em voz alta à medida que escrevia nele. “Israel Nobre será suspenso por três dias por causar danos às instalações da escola num incidente ocorrido ontem…” e aí ela parou no meio da frase. Olhou o papel, olhou pra mim. Pôs a caneta no formulário de novo, mas continuava pensativa. E aí ela me oferecendo uma alternativa à suspensão — e o motivo pelo qual os títulos dessa saga sempre trazem a palavra “suspensão” entre aspas.

A diretora deitou o papel na mesa e olhou pra mim.

“É o seguinte, Israel. Eu não quero suspender você” e fez uma pausa dramática.

Eu não sabia se agradecia e levantava da cadeira, ou se esperava sentado pra ouvir o que ela ainda tinha pra falar. A mulher então quebrou o silêncio.

“…mas você tem que ser punido de alguma forma”, concluiu a diretora.

Eu balancei a cabeça positivamente, a essa altura já completamente desmoralizado. Ou melhor, quase completamente desmoralizado. A total desonra ainda estava por vir.

A mulher cruzou os braços e continuou.

“Vou te dar uma escolha. Você pode optar pela suspensão de três dias, ou…” e fez outra pausa dramática. Que agonia daquele suspense desnecessário que a mulher criava.

“ou…?”

E aí ela falou algo inacreditável.

“…ou você pode vir trabalhar na escola por três dias”.

“Trabalhar? Como assim?” imaginei-me rapidamente dando aula de matemática e ensinando tudo errado pra criançada, porque aqueles tais dos polinômios estavam me dando muita dificuldade.

“Você comparecerá na escola durante a manhã para ajudar o seu Gonçalves a limpar o pátio, a quadra, e os banheiros”

Seu Gonçalves era o zelador da escola, meu inimigo mortal desde o dia em que eu tive que esperar mais de uma hora até que meus pais viessem me pegar depois da aula. Com tanto tempo livre e a escola praticamente vazia, fui ao banheiro, armei-me com todos os rolos de papel higiênico de todas os pequenos cubículos sanitários, joguei tudo dentro duma pia cheia d’água e saí aplicando uma mão generosa de papel machê ao teto do banheiro.

No dia seguinte declarei aos amigos, com tom profético, de que eles se surpreenderiam se entrassem no banheiro e olhassem pra cima. A molecada correu pro banheiro, e eu mal conseguia conter a minha satisfação. Os caras saíram do banheiro decepcionados, me perguntando qual era o tal grande lance. Entrei no banheiro avidamente e vi que minha obra de arte expressionista (no caso a expressão era “foda-se essa escola!”) havia desaparecido.

E só podia ter sido o zelador da escola que limpou a porra toda. Maldito seu Gonçalves destruiu minha obra e ainda me fez pagar de mentiroso perante os amiguinhos escolares!

Pois então, inacreditavelmente a diretora da escola reformou minha sentença de suspensão para trabalhos comunitários! Me senti um daqueles presidiários americanos que limpam as rodovias.

A diretora pôs minhas opções ali na minha cara e esperou minha decisão.

Agora, a parte curiosa desta história é a seguinte: meus pais estavam viajando durante aquela semana. Se eu fosse suspenso, daria perfeitamente pra esconder a confusão toda dos meus pais.

Aliás, outro dia eu liguei pro meu pai pra perguntar o que ele achava dessa história — queria incluir no texto a perspectiva dele da minha traquinagem — e o velho nem sabia que nada disso tinha acontecido.

Pra você ter uma idéia de como eu sou burro, mesmo sendo perfeitamente possível ocultar toda aquela merda dos meus pais, eu vou e opto pelo serviço comunitário nas dependências da escola pra evitar a suspensão.

A diretora se satisfez com minha escolha e falou:

“Amanhã esteja no pátio às 7 da manhã em ponto. O seu Gonçalvez vai te dizer o que você deve fazer” e assim, ela me liberou de volta pra classe.

No dia seguinte, apareço na escola às 7 da manhã em ponto. Mais estranho que estar na escola no horário “errado” era estar na escola usando roupas normais. Me senti no ápice da rebeldia escolar.

Entrar na escola no horário diferente àquele durante o qual você estuda é uma experiência muito estranha; rola uma dissonância cognitiva foda por causa do contraste do familiar com o estranho.

Por um lado, as dependências da escola são a sua “segunda casa”, como os professores costumavam me dizer. É um ambiente ao qual você estava completamente acostumado. Por outro, toda a molecada (e boa parte do corpo docente aliás) é desconhecida pra você. É estranho ver tanta gente estranha num local que você frequenta diariamente e conhece tão bem.

Sem contar que rola uma inversão do sentimento de propriedade: durante toda a minha vida, vi as escolas a que frequentei como a “minha” escola. Aquele é o meu mundinho, os meus amigos, a minha sala, a minha carteira. Ir à escola de manhã é como explorar uma dimensão paralela em que a sua escola pertence a outros moleques.

Outro resultado curioso do breve contato com a molecada do turno da manhã é que foi quase como visitar outro país e descobrir pela primeira vez as opiniões deles sobre a sua terra natal. Por exemplo, descobri que a turma da manhã considerava os alunos da tarde vagabundos (por serem incapazes de acordarem cedo) ou problemáticos (e por isso os pais os matriculam pras aulas vespertinas, assim a pivetada está longe de casa durante a tarde e os pais podem finalmente relaxar).

Eu sentei lá no pátio esperando o seu Gonçalves aparecer e me dar minhas tarefas enquanto a molecada uniformizada/fardada — no Sul fala-se uniforme, no Nordeste, farda, ou pelo menos é assim que me lembro — entrava nas salas.

Seu Gonçalvez aparece e me dá as tarefas: varrer as folhas secas do pátio, limpar o banheiro, varrer e pintar a quadra. Executei as tarefas da seguinte forma:

  • Varri as folhas secas pra baixo dos bancos do pátio, ao invés de jogar no lixo;
  • Enchi o balde com água várias vezes e apenas joguei água em tudo — paredes, privadas, teto, eu mesmo, em tudo. Uma lâmpada estourou por causa do choque térmico causado pelo contato com a água fria. Não falei nada pro zelador e ainda joguei o sabão em pó na pia;
  • Nem me dei ao trabalho de varrer a quadra. Comecei a pintar uma das paredes mas parei quando descobri que a sala que guarda as bolas estava destrancada; peguei todas as bolas de basquete e comecei a chuta-las contra a parede diretamente à minha frente, pra praticar minha habilidade de esquiva. As bolas ficaram todas meladas de tinta.

E foi isso. Acabei não sendo suspenso, só tive que “trabalhar” no colégio por três dias. E fiz o trabalho mais porco que alguém jamais fez naquelas tarefas.

Mas uma vez eu fui suspenso de verdade. E isso foi a combinação de um site que eu e um amigo criamos sobre a escola, e algo que uma professora interpretou como uma “ameaça de morte”.

Mas isso é uma história pra outro dia…

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comments

Categorias: Minha infância

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

56 Comentários \o/

  1. Matheus says:

    Gostei do texto. Abraço, Kid!

  2. Fe_marinelli says:

    Putz… e la vem mais uma saga de 5 meses! hahaha

  3. Maxxin says:

    Pelo menos acabou. E, pessoal, a outra veremos só daqui 3 meses…

  4. Fulano says:

    Achei que ja tinha acabado de tanto tempo que demorou pra continuar.

  5. Danillo says:

    Comentários dizendo “pqp Izzy que final porco de historia” em 3…2…1…

  6. Alexandre Silveira says:

    Pensei até que a história já estivesse concluída, demorou tanto. Mas tá valendo.

  7. Rukasu says:

    Graças a deus esta saga acabou hehe, pena que o final foi meio sem sal, comparado com todo o suspense que se instalou na minha mente pelo tempo sem a conclusão.

  8. Sagaz says:

    “outro dia” = provavelmente nunca

  9. tonny says:

    O fiudumégua me extende essa história por MESES, termina com um baita anti-climax, e ainda me deixa gancho pra OUTRA HISTÓRIA! Mais é um filho da puta mesmo, esse Kid!

    PS: E o livro, cadê?

  10. leitor vouyer says:

    eu mudei de cidade e de emprego durante esta saga

    meu deus, você enrolou a gente demais.

  11. neendj says:

    putaquepario finalmente saiu essa bagasa!lagrimas escorrem…

  12. Miguel says:

    Ok, admito que isso foi… inesperado

  13. Tiago Sá says:

    OUTRA SAGA QUE VOCÊ SÓ CONTARÁ DEPOIS?!?!
    Não sei nem qual piada fazer… São tantas…

  14. Edton says:

    SE ESSE TEXTO FOR VERÍDICO SÓ QUERIA PEDIR PRA VOCÊ TOMAR NO CU, ESCONDEU 2 MESES PRA FAZER UM TEXTO ÉPICO DESSE

  15. Paulo says:

    Eu jurava que você tinha abandonado o texto ou algo assim.

    E você criou o FaceMash? o.O

  16. URSS says:

    Puts, seu animal, a diretora não poderia te dar suspensão, primeiro porque você não quebrou nada -- ela que tivesse dado suspensão para os outros caras -- e segundo, o que ela ia escrever? Que você apagou a luz da sala e demônios invocados por você fizeram a confusão. Vc deveria é ter pego a suspensão e ver o que ela ia escrever!

    • Kid says:

      Poisé, só que quando isso tudo aconteceu eu tinha 12 ou 13 anos e era um pivete burro, me pegaram pra cristo e eu deixei isso passar.

  17. Blyter says:

    é de graça mesmo.

  18. João says:

    MEU DEUS, FINALMENTE!
    A melhor saga desde as patricinhas intercambistas.

  19. João says:

    E ainda deixou ponta-solta pro reboot.

  20. Rodrigo says:

    “[…] rola uma dissonância cognitiva[…]”
    TAN TAAAAAN TARARANTAN TANTANTAN
    Momeeeento Izzy Nobre Babaca.
    Momeeeento Izzy Nobre Babaca.
    Momento Izzy Nobreeeee Babaaaaacaaaaa.

  21. Tarc says:

    Outro dia em Kid Time?

  22. Iago Macedo says:

    Wikipédia ganhou mais 800 mil visitas devido a “dissonância cognitiva”

  23. Artur says:

    Então além da fatídica viagem de trem e o post de jogos da Era Pós-Pentium (o qual deve ser o único a lembrar), agora tem essa da suspensão de verdade. E essas são só as que eu lembrei agora, deve ter mais promessas de histórias suas esquecidas por aí.

  24. Elis says:

    Tá…. Agora permito que vc escreva um livro

  25. Rosângela says:

    Ow comédia! E até que fim terminou essa saga! hauhauhuhauha
    Com essa história me lembrei dos tempos de Evolutivo… Tipo, teve um dia que a galera jogou uma “rasga lata” no meio do pátio (onde só tinha pais fazendo a matrícula dos filhos). Pense ai, que era nêgo correndo kkkkkk
    Sem contar as épicas guerras de bolinha de papel (fabricadas em casa -- era uam coisa mostruosa) hauahua

    #nostalgia ^^

  26. Danilo says:

    “Minha primeira suspensão” is the new “As patricinhas intercambistas”.

    Mas ficou bom hein, Kid Nobre!

    • Mailson Lira says:

      Jamais! Esperei ANOS para que aquele texto fosse publicado. Esse daí só foram alguns meses.

      Na realidade eu pensava que o Kid nunca ia terminar o texto da suspensão. Tanto que só vou começar a lê-lo agora.

  27. Lnk says:

    No meio do texto eu pensei, ele não vai trocar 3 dias sem aula por 3 dias de trabalho, vai? e a cada palavra que eu lia esse sentimento de indignação aumentava.

  28. Luiz says:

    Você pediu pro morroida desenhar essa obra de arte de você lavando o banheiro né?

    No mais a história foi bem legal haha…

  29. Igor M. says:

    Olha, depois de ler essa saga, concluo que tu, definitivamente, é um troll filhodaputa. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

  30. Dani says:

    Aleluia Irmãos!!!Finalmente acabou essa merda desse texto!!!!

  31. Pedro Teixeira says:

    Certa vez eu virei os olhos durante a aula ( os olhos ficaram brancos manja ? )
    A professora considerou isso um desrespeito e eu tive que assinar um livro negro oO segundo a diretora isso iria para meu Curriculo e me fuderia eternamente

  32. Junior says:

    Todo esse drama por isso aí?

    Conte logo a história do trem, depois de deixar as patricinhas intercambistas.

  33. Rodrigo Nefs says:

    O mais legal nesses textos é que, como aconteceram há muito tempo, não ficamos sabendo da hisória antes via twitter. Fico bastante desapontado com algumas postagens que são apenas um apanhado do que você já disse.

    No mais, bem legal. Mas acho que a espera tirou a “epicidade” da coisa.

  34. roberto silveirA says:

    Nossa, que final Merda…

  35. andré godoy says:

    bacana, e mais bacana ainda seria cumprir a suspensão em SEU período de aula
    mas enfim, foi bom esperar pra saber que nao aconteceu nada
    abraço

  36. Tati says:

    Pensei até que já tinha acabado.. UHAUHauhuha
    Mas foi foda..

    Agora mais uma história para ser contada daqui a 2 anos.

  37. Darox says:

    Você pra executar tarefas solicitadas por superiores não é o cara ,hahahahaha nunca te contrataria se não fosse uma empresa de games ou algo do tipo.

  38. William says:

    e o que aconteceu com a Cibele?

  39. Ian says:

    Muito foda esse final!

  40. Newton S. says:

    O texto da primeira suspensão de verdade não rolou, certo?

  41. Artur says:

    CADE A HISTÓRIA DA SUSPENSÃO DE VERDADE SEU SAFADO?

    Prometer textos e não escreve-los mesmo depois de ANOS é sinal de tendências nazistas.

  42. @engdavirocha says:

    Cadê a história sobre a suspensão de verdade, Kid?

  43. João Victor Santos says:

    Izzy quando sai o seu segundo livro, aquele sobre a sex-shop, hein?