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O tempo de escola era muito fácil e a gente não sabia

Postado em 16 November 2011 Escrito por Izzy Nobre 5 Comentários

Como vocês sabem, eu sou nerd. Além disso (talvez POR CAUSA disso), eu sou uma fonte inesgotável de conhecimento inútil — resultado de um hábito de ler trivias de filmes do IMDB, ter o TVTropes como homepage do navegador, ler mais a wikipédia do que qualquer outra coisa na vida e acessar o subreddit TIL religiosamente várias vezes por dia.

E eu tenho notado que muita gente confunde isso com inteligência, e por isso eu sou considerado “inteligente” entre meus amigos.

Eu não tenho uma carreira propriamente dita, nunca me formei, já fui num show do My Chemical Romance e pior, eu acredito piamente que aquele Game Boy que comprei recentemente foi o melhor investimento que eu poderia ter feito na vida. Mas por sempre saber o nome daquela atriz que fez aquele filme lá ou o termo técnico de um determinado clichê cinematográfico, muitos amigos meus pensam que sou algum tipo de gênio.

E isso me causava um pequeno problema — ninguém me levava a sério quando eu falava que tinha que estudar pra caralho pros tais vestibulares que já mencionei aqui.

Fig1: a foto mais baitola que tirei em toda minha vida

Vamos recapitular — minha escola aqui no Canadá fodeu a tradução do meu boletim brasileiro, a secretaria da educação do Maranhão me manda uma segunda via ESCRITA À MÃO que a faculdade evidentemente recusou. Sendo o histórico escolar o único requerimento para a maioria dos cursos técnicos ou superiores aqui, encontro-me na bizarra situação de ser essencialmente um high school dropout.

Ou seja: terminei o segundo grau, mas não posso provar isso, portanto se eu tivesse largado a escola na quarta série eu estaria na mesma situação que estou agora.

Lá na faculdade, me ofereceram a seguinte solução — estude as matérias específicas do seu curso (no caso, biologia, química e matemática — quero fazer um técnico relacionado à área de saúde) e faça as provas correspondentes de admissão para o curso no qual você quer entrar. Só isso.

“Só isso”, diz a filha da puta da menina lá do departamento de Prior Learning, ou seja, o que avalia a escolaridade de gente em situação fodida como a minha. “Só isso”, como se fosse a tarefa mais fácil do mundo.

Eu tentei explicar pra garota que faz ANOS que não estudo. Aliás, faz anos ou fazem anos? Tá vendo? É exatamente disso que estou falando. Sou um analfabeto praticamente. Eu terminei o segundo grau em 2001 e não lembro de absolutamente NADA sobre aquele ano, com exceção do detalhe de que foi o ano em que perdi minha virgindade.

E agora querem que em 2 meses eu aprenda o conteúdo de um ano inteiro em três matérias?!?! Impossível!

Só que a mulher é irredutível; ela diz que não há outra alternativa, é isso ou nada. Vou à biblioteca e pego uma porrada de livro de biologia, química e matemática. Por meses fui ao trabalho com uma mochila que pesava uns 10 quilos, sem putaria.

Folheio as páginas dos tais livros e tenho um dramático reencontro com diversos elementos daquelas matérias que eu na época da escola simplesmente desisti de aprender e fui naquelas de “tomara que não caia na prova“. Manja qual é o espírito? Então.

Estequiometria, por exemplo. Pode parecer zoeira mas eu me formei no segundo grau sem saber o que era um mol. Sério mesmo, era um conceito que eu não conseguia digerir. E polinômios então?! Aquele esquema de multiplicação de polinômios foi um dos momentos mais icônicos da minha carreira escolar, no sentido de que foi a situação mais memorável do “foda-se, vou dormir, tomara que não caia na prova”.

Portanto, quando vi aquela pilha de livros na minha frente e a ficha do “meu deus eu terei que estudar toda essa porra e pior ainda, sem um professor mastigando tudo pra mim” finalmente caiu, me desesperei. Comentei com amigos sobre o desafio, e todos falaram apenas “pfff você tá preocupado com isso por que? Você é inteligente, você passa nessas provas fácil demais“.

Esse povo não entende que saber o nome dos dubladores dos Simpsons ou lembrar o ano de lançamento de Fievel não significa capacidade acadêmica, mas esses jumentos jamais me levavama sério. TODOS que eu comentava sobre as tais provas falavam apenas “E daí? Você é inteligente, vai passar fácil“.

E isso não é lisonjeiro como você possa imaginar — é irritante. Não há nada mais chato do que explicar uma sitação complicada pros amigos e não obter solidariedade de NENHUM DELES. E pior — eu estava bem convencido que tomaria bomba em cada uma das provas, e aí nem o status de falso intelectual eu poderei mais manter. Essas provas do caralho me farão perder o pouco que já tenho!

Então não teve outro jeito — passei a estudar. Todo dia no trabalho, quando o movimento na loja diminuia, eu sacava os livros da mochila e estudava umas 2 ou 3 horas. Googleava termos que eu não entendia, ia pro Wolfram Alpha pra ver explicações detalhadas da resolução de certos problemas, perguntava no tuíter detalhes que eu não entendia (e a galera prontamente ajudava, foi impressionante usar o tuíter pra estudar. Até hoje eu só usava pra irritar os outros e ganhar dinheiro.

E aí o impensável aconteceu — eu comecei a aprender. Aqueles conceitos que pareciam indecifráveis na época de colégio desciam agora com facilidade incrível. Aprendi um monte de coisa que eu achei que jamais aprenderia na vida, e agindo por conta própria, durante intervalos no trabalho, estudando com livros em outra língua.

Fui lá, fiz a porra das provas, e passei. E não passei me “arrastando”, não — minha nota mais baixa nas provas foi 80%.

Isso me faz pensar que o tempo de escola era uma mamata incrível. Todo o sistema era bolado pra te fazer passar de ano de qualquer forma — trabalhinhos valendo nota, a chance da recuperação, reforço escolar, o sistema de médias e tudo mais. Não é à toa que eu passei de ano sem muito problema (embora ter passado em dois vestibulares de faculdades públicas permaneça um mistério).

Com todo aquele apoio eu era um aluno vagabundo e medíocre. Agora, sem nenhuma rede de segurança, com o meu futuro realmente na balança e podendo contar apenas em mim mesmo, estudei pra caralho e detonei aquelas porras de equações químicas como um vencedor.

Há meses atrás quando descobri que teria que estudar essa porra toda pra fazer provas de admissão, eu estava plenamente confiante que estudar seria um esforço em vão e que eu tomaria uma bomba atrás da outra. É bom adicionar um pequeno achievement desses à vida adulta — “vencer as barreiras do sistema educacional tendo que estudar sozinho em dois meses matérias que não aprendi em um ano inteiro na escola”.

Fico pensando que se eu tivesse investido na carreira escolar um décimo do esforço que fiz nos últimos meses, minha vida poderia ter tido um rumo bem diferente.

Ou não, já que fui aprovado de primeira nos dois vestibulares que tentei de qualquer forma, e isso valeu de nada já que tive que largar ambas faculdades pra imigrar pro Canadá.

But still…

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Categorias: Minha infância

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

5 Comentários \o/

  1. Tácio says:

    O esforço que fiz para entrar na faculdade foi comparável ao de um boi puxando um navio cargueiro: estudei como um condenado… e mesmo assim não passei de primeira.
    Tentando entrar no curso de Direito, me dei mal na redação e fiquei de fora. Após um ano de cursinho sem vontade de estudar e convencido que não tinha capacidade de passar, passei (e bem)(obviamente, milagres existem).
    Enfim, começaram as aulas e vi que não tinha mais… aulas. Professores faltando, os que iam preferiam falar sobre seus casamentos, etc, etc… tive que passar a estudar por minha e risco, com resultados não lá muito satisfatórios (para mim, mas sou exigente comigo)(pra universidade eu estou indo bem).
    Neste exato momento tenho que fazer uma resenha acerca de um filme sobre Freud (mesmo cara que fez Aragorn)e exercícios sobre modos de produção, mas estou lendo posts de nove meses atrás, sem nenhum comentário e em um blog que conheci há duas horas.

  2. Roberto Tailor says:

    Pois e cara… To nessa agora. Vou começar a estudar engenharia depois de parar em 2001 tb. Ah minha virgindade foi em 2001 tb. Acredito qur com mulheres diferentes rsra

  3. Tive uma experiencia parecida quando entrei na faculdade de Engenharia, sempre fui péssimo nas aulas de cursinho. Principalmente quando se tratava de matemática, mas com o tempo sendo forçado a estudar matemática em período integral para tirar ao menos a média precisa.
    Então com o tempo acabei por entender por osmose no primeiro ano tudo de básico que não entendi a vida toda. Parecido com sua história tirando o fato de que você teve menos tempo mais pressão e tendo que estuar em outra linguá.

  4. Desconsidere o acento no “língua”kkkk teclado com problema!